Crítica: Goodnight Mommy (2014) #2 - Sessão do Medo

6 de agosto de 2015

Crítica: Goodnight Mommy (2014) #2

Por Leonardo Castelo Branco

Quando acabei de ver “Goodnight Mommy” minha cabeça latejou por uns cinco minutos. Desliguei a tevê, respirei fundo e pensei: “bom, vamos lá”, e a cabeça continuava, “isso é um labirinto psicológico” me questionava sozinho no quarto ainda escuro. A sinopse é essa: “No calor do verão, uma casa isolada no campo, entre bosques e campos de milho, gêmeos de dez anos de idade esperam por sua mãe. Quando ela volta, com a cabeça envolta em ataduras após uma cirurgia plástica, nada é como antes. Severa e distante, ela fecha a família para o mundo exterior. Começando a duvidar que esta mulher é realmente sua mãe, os meninos estão determinados a encontrar a verdade de qualquer maneira.”

É fato que, gostando ou não, o filme é completamente diferente do que estamos acostumados a ver por aí. Vale lembrar que gênero é o terror, o mais desgastado de todos. Ainda me recuperando do baque, decidi ir direto até grupos no Facebook que não paravam de comentar sobre o assunto para ver quais as impressões de outros cinéfilos que haviam sido impactados por essa obra tão falada, refalada, amada, odiada e questionada.


O que me motivou a escrever essa resenha foram justamente os comentários que li. De dois tipos. Os primeiros diziam o seguinte: “matei a charada nos dez primeiros minutos” ou “É o trailer mais falso que já vi e o filme totalmente previsível”. A primeira coisa que tenho a dizer para quem pensa assim é que “Goodnight Mommy” não é para ser decifrado. É sim uma obra para ampliar as interpretações e descosturar os clichês do gênero, por isso, não espere nada nos moldes hollywoodianos porque não passa perto disso. E se você acredita no contrário, talvez seja hora de ver menos “slashers”.

Esse filme austríaco é um labirinto psicológico que se nos perdermos lavará a pensar sobre nossa própria existência e as relações que nos cercam. É natural do ser humano querer sempre saber as respostas que façam mais sentido. Desde pequenos somos condicionados a seguir regras e padrões já determinados sem poder de escolha sobre isso e assim é por toda vida. Mas e quando isso nos desgasta de tal maneira que precisamos mudar radicalmente? E quando somos abatidos por uma tragédia ou acidente que faz mudar nossa percepção do mundo? São duas perguntas que ficam martelando meu cérebro até agora, três dias após ver a obra.


Estamos constantemente sujeitos a transformações comportamentais e nunca sabemos quando elas podem chegar até nós. “Goodnight Mommy” é sobre isso. Mas também é sobre muitas das outras contingências que nos cercam. É o terror da vida real. Que mostra através de uma direção quase documental sentimentos estraçalhados, ausências e lacunas, solidão e isolamento. Um filme de suspense que faz uso de uma fotografia clara e sem truques comuns para impor o gênero, pelo contrário, mostra uma ambientação bonita, onde, aos poucos, o clima de terror vai se instalando.

O segundo tipo de comentários, em menor número, porém mais enaltecidos, dizem que o filme é uma “obra-prima”, “neo-clássico” (dá onde surgiu essa terminologia?) e até, pasmem, “o Iluminado do século XXI” (!!!). Sem dúvida, “Goodnight Mommy” é bem acima da média. Mas, na minha humilde opinião, clássico é um adjetivo que se conquista com o tempo. Quem sabe daqui décadas. Mas volto a dizer, o filme é efetivo e, apesar de não ser inovador em sua proposta, dentro do já feito, inova e com louvor.


É fato que o trailer que pipocou nas redes e viralizou é extremamente bem montado, mas não se engane, o filme ainda trará surpresas e tem muita novidade em 1 hora e 40 minutos de duração. A ausência de trilha sonora e a lentidão proposital preparam para um final sádico e eletrizante que vai pegar de jeito os fãs do gênero. A lentidão, aliás, possibilita um olhar mais cuidadoso e apurado, em que a beleza bucólica da casa deserta, do milharal e das árvores contrastam com a desconfiança dos gêmeos com a mãe a cada cena. Aí é que o terror psicológico começa a se instalar e pouco a pouco “Goodnight Mommy” vai chegando ao seu clímax memorável. Aliás, um destaque para a atuação dos gêmeos, Elias Schwars e Lucas Schwars, que são a alma da película. É um filme dentro de vários filmes, que tem ritmo e se transforma sem pressa, numa experiência visual absurda e complexa sobre a convivência humana.

O roteiro é engenhoso e, pelo menos para mim, conseguiu manter o mistério até os minutos finais, quando é revelado de fato. Quando o filme acaba, fiquei sem reação. Só queria pensar sobre toda aquela experiência. Acendi a luz do quarto, peguei um copo de água e até agora, dias depois, não consigo me desvencilhar da cena final. Essa talvez seja a beleza do cinema, o poder que alguns filmes têm de criar raízes independentes na cabeça de cada espectador e se refletirem dentro de sua própria história. No roteiro da minha vida, “Goodnight Mommy” ganhou um papel de destaque.

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