Crítica: A Bruxa (2016) - Sessão do Medo

7 de março de 2016

Crítica: A Bruxa (2016)



"O Mal Assume Muitas Formas"

Desde que foi exibido no Festival de Sundance no inicio de 2015, A Bruxa deu o que falar, recebeu vários elogios da crítica especializada e virou um hype na mídia após o escritor Stephen King dizer em seu Twitter que o filme o havia assustado. O filme tem aprovação de 90% dos críticos no Rotten Tomatoes e 52% de aprovação do público em geral, ou seja, é um filme que divide opiniões, é quase certo que o público que espera um filme de terror convencional nos moldes de filmes de terror atuais cheios de jumpscares vai se decepcionar, já cinéfilos de mente aberta, críticos e pessoas com mais conhecimento no gênero provavelmente vão gostar.

A Bruxa é o filme de estreia do diretor Robert Eggers, que também escreveu o roteiro com base em relatos históricos, depoimentos, crônicas sobre julgamentos de pessoas acusadas de bruxaria no século 17 na Nova Inglaterra - período e local em que o filme é ambientado - 20 anos antes da Inquisição. O roteiro inclusive tem diálogos em inglês arcaico, usado naquela época e, segundo o diretor, vários dos diálogos do filme  foram tirados de relatos históricos da época, segundo o próprio foram 4 anos de pesquisa, incluindo livros de bruxaria e paganismo.

Eggers faz um excelente trabalho, tanto no roteiro quanto na direção, criando um filme incomodo, sutil e por vezes perturbador, sem apelar para as conveniências do gênero. Boa parte do clima vem da direção acertada, da ambientação, do ritmo, fotografia e trilha sonora, tudo funciona em perfeita harmonia a favor do filme.


O filme conta a história de uma família extremamente religiosa que é banida de seu vilarejo por questões de extremismo religioso. O patriarca da família William (Ralph Ineson), vê isso como um sinal de Deus e leva a esposa Katherine (Kate Dickie), a filha mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy), o filho Caleb (Harvey Scmshaw), os gêmeos Mercy e Jonas (Ellie Grainger e Lucas Dawson) e Sam, um bebê de poucos meses, para viver em um local isolado em frente a uma floresta.

A família faz o possível para viver em condições miseráveis, sem contato algum com outras pessoas, vivendo de plantio de milho e de caça. Thomasin, a filha mais velha da família, certo dia tomando conta de Sam, presencia o estranho desaparecimento do irmão, raptado por alguma coisa que habita a floresta. A tensão aumenta quando a plantação de milho apodrece e mais coisas dão errado para a família, as suspeitas recaem sobre Thomasin que é suspeita de bruxaria, levando a família a entrar em colapso em um estado gradual de tensão.


Antes de entrar nos detalhes técnicos, eu tenho que destacar que A Bruxa não é um filme convencional e também não é sobre uma bruxa, o filme tem várias camadas e aborda várias coisas: fanatismo religioso, paranoia, sexualidade... O centro do enredo é a família, o fator sobrenatural vem como algo externo, temos o terror psicológico e o terror sobrenatural e o diretor casa bem os dois de forma muito inteligente. A citação de John Carpenter se faz presente no filme, como ele disse uma vez:

"Há duas histórias diferentes no horror: interno e externo. Em filmes de terror externos, o mal vem de fora, a outra tribo, esta coisa na escuridão que nós não entendemos. Interno é o coração humano."

Pode-se dizer que esse filme trabalha com os dois e faz isso de forma genial como poucas vezes visto. O terror vem tanto do fanatismo da família quando do sobrenatural e isso é bem balanceado durante o filme, sempre de forma sutil e certeira.

A trilha sonora composta por Mark Korven é outro ponto alto da produção, ajuda muito na construção de clima e é arrepiante em vários momentos. Vendo um pequeno documentário no Youtube, vi que foi composta de forma simples, usando apenas alguns instrumentos e vocais de uma orquestra.

A fotografia do filme é espetacular, usando luz natural quando se passa do lado de fora da casa e luzes de velas no interior da casa. A fotografia acinzentada, com contraste baixo e cores sem vida  é outro fator que ajuda a estabelecer o clima e o tom do filme, junto com o excelente trabalho de design de produção, figurino e ambientação de época. E por falar em fotografia, em vários momentos do filme as imagens parecem ter saído de alguma pintura barroca, como a imagem abaixo:


Em recente entrevista, Robert Eggers falou sobre a principal influencia do filme, o clássico O Bebê de Rosemary de Roman Polanski:  "Eu sei o que me assusta e o que não me assusta. Tem uns filmes do Drácula com o Cristopher Lee que a capa dele é tão curta que aparecem os tornozelos. Ou seja, ele não é poderoso. Mas veja 'O Bebê de Rosemary', eu não vi o bebê em nenhum momento do filme, mas tem gente que jura que viu. Esse é o lance…", diz o diretor.

Na mesma entrevista disse que teve dificuldade em conseguir investidores para o filme, foi com a ajuda do brasileiro Rodrigo Teixeira, fundador da RT Features que ele conseguiu botar o projeto em andamento. Segundo Eggers, foi ele quem "acreditou no projeto" e deu todo o dinheiro necessário à produção. "Levou muito tempo para eu fazer esse filme porque ninguém queria fazê-lo do jeito que eu o imaginei. Basicamente, era gente interessada em produzi-lo com apenas metade do dinheiro necessário. E assim não seria possível transportar a plateia ao século 17 e tornar a história de 'A Bruxa' real para eles. Só foi possível graças ao Rodrigo, que acreditou na minha visão e me deixou fazer tudo do meu jeito, desde a escolha dos atores."

O filme foi  uma produção conjunta entre EUA, Reino Unido, Canadá e Brasil.

A escolha de elenco foi feita pelo próprio diretor que escolheu cada ator, dando preferencia a atores desconhecidos. O elenco dá um show de atuação, com destaque para o Ralph Ineson e a Anya Taylor-Joy. Harvey Scmshaw, no começo parecia contido na atuação, mas no decorrer do filme protagoniza uma cena que é digna de Oscar.

Os gêmeos e o amiguinho Black Phillip !
A Bruxa é um filme atmosférico, sutil e com um clima incomodo. O diretor conduz toda a trama de forma lenta e com uma tensão gradual, clima que nunca é quebrado durante o filme. Tem um ou outro detalhe no roteiro que me incomodaram um pouco, não vou entrar em detalhes para não dar spoiler, nada que atrapalhe, mas que se fossem reparados traria uma melhora, só por isso não leva nota máxima.

Vale ser visto no cinema, dando preferencia a sessões mais vazias, sem os adolescentes dos jumpscares enchendo o saco e rindo e reclamando do filme. Como eu disse lá no começo do texto, A Bruxa é um filme que não vai agradar todo mundo, vai deixar o público dividido e isso é algo bom, veja e tire suas próprias conclusões.

por Marcelo Alves


Título Original: The Witch
Ano: 2016
Duração: 93 minutos
Direção: Robert Eggers
Roteiro: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson


Description: Rating: 4.5 out of 5

6 comentários:

  1. Que resenha maravilhosamente bem escrita!

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    1. Valeu o elogio, Ray. Que bom que gostou! :)

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  2. Texto maravilhoso.
    Ansioso para assistir o filme já.

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  3. Que massa esse texto.
    Já estou esperando ansiosamente para assisti-lo.

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  4. ótima resenha, super bem escrita, mas na boa? Que filme lixo, ruim demais, sem começo, meio e fim, sem história, sem ação, sem nada, muuuito ruim.

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  5. Anônimo1/31/2017

    esse filme e bom demais,diferente dos filmes de terror.tem que prestar atençao na trama...que por sinal muito bem elaborada.no filme o que me deu mais medo é esse bode..sinistro

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