Crítica: À Beira da Loucura (1994) - Sessão do Medo

24 de maio de 2016

Crítica: À Beira da Loucura (1994)


De vez em quando, diretores renomados conseguem criar trilogias informais, com histórias que não se relacionam entre si mas que de uma certa forma, faz parte de um conjunto. Um exemplo é a Trilogia do Apartamento, de Roman Polanski, que tem Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976). Outro diretor que também tem uma trilogia informal é o John Carpinteiro Carpenter, com sua Trilogia do Apocalipse. Ela começou em 1982 com o clássico mor O Enigma de Outro Mundo, continuou em 1987 com O Princípe das Sombras e foi finalizada com o também excelente filme em questão: In the Mouth of Madness.

Lançado em 1994, alguns anos após Carpenter voltar a ser independente e dirigir filmes de terror/suspense, o filme não foi lá bem recebido pelo público, apesar de ter se tornado um clássico cult entre os fãs. Lembrem-se que O Enigma de Outro Mundo também foi um fracasso no lançamento... Também lembrem-se que os anos 90 foi uma das décadas mais difíceis para o terror, já que não havia mais interesse no gênero, uma vez que o público estava de saco cheio de trocentas sequências de A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e por aí vai...

Como base em sua história, o roteirista Michael De Luca, com ajuda de Carpenter, pegou várias referências a H.P. Lovecraft. E assim como as obras dele, o filme não é de fácil compreensão, mas no final tudo faz sentido.


Nela, temos um famoso autor de livros de horror (chora Stephen King) chamado Sutter Cane. Segundo os leitores e alguns especialistas, seus livros são capazes de realmente assustar as pessoas, devido a seu estilo de escrita, etc. Seu último livro, In the Mouth of Madness, está pra ser lançado, mas Sutter desaparece. 

A estrela principal é Sam Neill (O Enigma do Horizonte), no papel do investigador de seguros John Trent, contratado pela editora de Sutter para investigar seu desaparecimento. Trent suspeita que Hobb's End, uma cidade fictícia das obras do escritor, talvez exista e junto com a editora Linda (Julia Carmen, A Hora do Espanto - Parte II) vai atrás do lugar.

O que ele acha é algo que desafia a realidade: Os livros de Cane são reais. Mas ao mesmo tempo, não são. É algo bem confuso de entender, por que assim como Trent, nós somos imersos nessa doidera sem fim junto com o personagem e ficamos à beira da loucura (rs). Isso por que, o tal último livro de Cane é na verdade a chave para o fim do mundo (ok, não é tão tosco quanto parece).


Tudo isso, fazendo referências e críticas à assuntos bem "delicados" na época, como a religião (algo que nunca foi bem recebido pelo público, convenhamos) e a alienação. Agora, imagina se Carpenter resolvesse fazer um novo filme, nesse século? Seria um Videodrome de proporções catastróficas, já que naquela época eles estavam preocupados com LIVROS. Claro, que o livro mais levantado pelas críticas é a própria Bíblia. Como vi em algum comentário, não lembro aonde, o filme já aborda "um livro capaz de destruir o mundo". O Canne mesmo fala que seus livros são mais lidos que a bíblia. Então, é aquele ditado né...

Como se isso não bastasse, o filme em si é um grande show de bizarrices e realmente me assustou. Apesar de que grande parte desse clima tenha sido quebrado um pouco na segunda metade, onde a trama ficou mais complicada, tenho que reconhecer que há muito tempo um filme não me deixava com essa sensação. Incrível como um filme dos anos 90 (que, veja só, utiliza jumpscares em várias cenas) consegue te assustar mais que os meia-boca de hoje, que causa tanto fuzuê na internet (sim, A Bruxa, tô falando de você, mas outros se encaixam na descrição).

Dos elementos usados em cena, temos desde crianças com uma doença bizarra e psicótica, policiais "zumbis", uma velha assassina, criaturas com tentáculos, monstros gigantes, um garoto com rosto de velha e uma cena muito, mas muito da bisonha, onde uma das personagens anda de quatro no chão com a cabeça virada 180º graus (what?).

Sem dúvidas, À Beira da Loucura é um filmaço subestimado, que infelizmente muita gente não conhece. Talvez, isso se deva a falta de interesse do público ao terror na época, como falei no início. Tanto que muitos filmes dessa época passam ou passaram batido. Isso por que, o gênero só voltou aos holofotes depois de Pânico (1996), onde houve uma revitalização. Algo semelhante ocorreu em 2008/2009 com Atividade Paranormal e os found-footages, mas nesse caso o gênero não estava desgastado, só ficou preguiçoso.
por Neto Ribeiro

Título Original: In the Mouth of Madness
Ano: 1994
Duração: 95 minutos
Direção: John Carpenter
Roteiro: Michael De Luca
Elenco: Sam Neill, Julie Carmen, Jürgen Prochnow, David Warner, Charlton Heston

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