Crítica: As Senhoras de Salem (2012) - Sessão do Medo

7 de junho de 2016

Crítica: As Senhoras de Salem (2012)

"Satan! Come to us! We are ready! Satan! Come to us! We are ready!"
Ainda inédito em DVD no Brasil, The Lords of Salem, ou "As Senhoras de Salem" como foi porcamente traduzido em português, veia à tona essa semana com exibição e reprise no Space e inclusão no catálogo do Netflix, onde se encontra disponível até com faixa de áudio em português.

Essa semana eu tive a oportunidade de rever o filme mais odiado da carreira do diretor e roteirista Rob Zombie, inclusive já havia postado uma resenha aqui no Blog em 2012 falando muito mal do filme. Revi com outro ponto de vista e volto a afirmar: o filme prometia muito pelos trailers, noticias, imagens e posters divulgados. Decepcionou por não ser nada daquilo que era prometido. Moral da história: expectativa alta sempre dá merda!

Olhando o filme por outro ponto de vista, mesmo não sendo nada do que foi prometido, é um filme que oferece algo que anda em falta no cinema mainstream atual: um filme adulto, bizarro e indigesto. E um fato curioso é que foi produzido pela Blumhouse Productions (produtora responsável por grande parte dos filmes genéricos como a franquia Atividade ParanormalA ForcaAmizade Desfeita e aquele remake horroroso do Martyrs lançado esse ano, entre outros....), mas foge totalmente do padrão de filmes da produtora. Alias, The Lords of Salem foge completamente do estilo e abordagem de filme de terror comercial atual, parecendo muito mais com um filme lançado nos anos 70, com todo o estilo psicodélico e satanista que só os filmes daquela época tinham.


Inclusive, a ideia inicial de Zombie era fazer um filme ambientado nos anos 70, mas devido a problemas de orçamento isso não foi possível, sendo assim, dentro da época em que a história é ambientada é atemporal. Não há uma década definida no filme, mas fica claro pelas roupas, cortes de cabelos e músicas tocadas que o filme tenta passar um ar setentista, embora coisas como carros e TVs sejam posteriores aos anos 70.

O filme começa com um flashback ambientado na cidade de Salem em 1696, onde Jonathan Hawthorne escreve um diário falando sobre as bruxas de Salem, um grupo de 6 bruxas fazendo rituais pagãos em uma floresta, liderados por uma bruxa chamada Margaret Morgan (Meg Foster, de Eles Vivem e Mestres do Universo. Envelheceu tão mal que está irreconhecível no filme), que blasfema Jesus Cristo e a Virgem Maria, e profere palavras de adoração a satã - cena que parece ter sido tirada de algum filme satânico nos anos 70 - a volta de uma fogueira, junto com outras bruxas que blasfemam coisas do tipo: "Eu juro, no dia de hoje, ser uma serva fiel do Príncipe Lucifer!", "Juro mente, corpo e alma aos desígnios do Senhor Satanás". Em seguida todas se despem de suas roupas e temos uma cena de nudez grupal grotesca como poucas vezes vistas em um filme comercial. As bruxas são retratadas como mulheres repugnantes, sujas, com dentes estragados e com corpos envelhecidos. Corta para um bode próximo a uma fogueira, a imagem é pausada e aparece o titulo "The Lords of Salem", em uma imagem que parece ter saído diretamente de um filme dos anos 70. Essa rápida abertura dá todo o tom do filme, que continua seguindo o padrão, visual e estilo de filme dos anos 70.

Black Phillip?
Após a introdução, o filme corta para os dias atuais e somos apresentados a personagem principal Heidi (Sherri Moon Zombie. A Baby de A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados pelo Diabo). Uma ex-viciada em drogas que agora trabalha de DJ em uma rádio de rock local junto com Herman Jackson (Ken Foree de Despertar dos Mortos) e Herman 'Whitey' Salvador (Jeff Daniel Phillips de H2: Halloween 2). A vida de Heidi se resume a ir a reuniões de ex-viciados em drogas, passear com o cachorro e trabalhar na rádio a noite. Uma noite ela recebe uma caixa contendo um disco de vinil intitulado "The Lords". Achando ser um disco demo de uma banda de metal, ela decide levar o álbum para casa e escutar junto com Whitey. Eles colocam o vinil pra tocar, mas não havia música alguma, só uma sequência de sons estranhos e repetidos, como se o vinil estivesse arranhado, e enquanto ouve, Heidi tem estranhos flashbacks do passado negro de Salem, envolvendo aquelas bruxas hereges da cena de abertura.

Os Hermans decidem tocar o vinil na rádio libertando uma maldição sobre as descendentes mulheres da família Hawthorne. A vingança das bruxas está diretamente ligada a Jonathan Hawthorne - um dos membros da inquisição, o mesmo que escreveu o diário na primeira cena do filme e que também levou o fim do coven de bruxas - e Heidi, que é descendente direta da família dele.

Assim como Ti West fez em seu The House of the Devil (2009) e Robert Eggers em A Bruxa (2015), Zombie faz uso do "slow-burn", que consiste em construir tensão pela narrativa lenta com suspense crescente, deixando o terror e bizarrice lá pra parte final. Infelizmente aqui isso não funciona muito bem e o filme ganha um ritmo vagaroso em vários momentos, principalmente na metade. São 101 minutos que pesam e se arrastam mais que o necessário. E olhando a parte de edição, cenas, dá a leve impressão de que o filme foi editado de qualquer jeito. Isso pode ser reforçado pela falta de vários atores contratados que nem aparecem em cena. Barbara Crampton (Re-Animator), Camille Keaton (A Vingança de Jennifer), Clint Howard (Mensageiro de Satanás), Udo Kier (Suspiria), todos eles foram contratados, gravaram cenas e não apareceram em nenhuma parte do filme...Sobrou até para Ernest Thomas, o Senhor Omar do Todo Mundo Odeia o Chris, que inclusive apareceu em teasers posters, como esse que vocês podem ver clicando aqui. Trágico!






Assim como A Casa dos 1000 Corpos era um retorno e cheio de referencias a clássicos como O Massacre da Serra Elétrica, Quadrilha dos Sádicos, Aniversário Macabro entre outros...The Lords of Salem é cheio de referencias e influencia de outros filmes conhecidos, entre eles, Black Sunday, A Sentinela dos Malditos, O Bebê de Rosemary e O Iluminado. A influencia de O Iluminado é clara desde a primeira cena em que a introdução mostra letreiros mostrando os dias da semana no decorrer do filme. Sem mencionar o enquadramento com planos logos e estáticos em ambiente fechado e o uso do vermelho em várias cenas. É inegável que, tecnicamente, Rob Zombie amadureceu como diretor. Toda a parte técnica do filme é bem trabalhada. Enquadramentos, direção de arte e fotografias muito bem trabalhados, mas infelizmente é muito visual pra pouco conteúdo.

Se eu pudesse definir The Lords of Salem com duas palavras, com certeza seria: "Bad Trip". O filme é uma verdadeira viagem LSD, e não é das melhores. Inclusive, o fato da protagonista ser uma ex-viciada em drogas vem à tona na parte final. Infelizmente a escolha de Sherri Moon Zombie no papel principal foi um grande erro, já que a atriz não consegue expressar nenhuma carga dramática à personagem.


Tudo o que tinha sido desenvolvido em mais de 1 hora é jogado fora e o filme vira uma sucessão de imagens aleatórias sem sentido, parecendo um clipe de banda de rock satânica. É totalmente desconexo ao que havia sido mostrado do começo até a metade. Alguns podem argumentar que a parte final é uma clara referencia/influencia do cinema psicodélico, muito comum nos anos 70 e de filmes como A Montanha Sagrada de Alejandro Jodorowsky. Bom, eu como expectador não consegui entrar nesse clima, alguns diálogos e situações são bobos demais para serem levados a sério.

Existe uma ou outra cena de destaque com imagens grotescas, mas não passam disso, imagens bizarras jogadas na tela sem significado algum por trás. No fim das contas, o grande destaque de The Lords of Salem é ser um filme que vai na contramão do cinema mainstream atual, com um filme adulto, bizarro e indigesto. Revendo o filme agora percebo que a intenção de Rob Zombie foi fazer um filme satânico psicodélico, que evoca o cinema dos anos 70, quase acertou, mas não foi dessa vez.

Por Marcelo Alves
Título original: The Lords of Salem
Ano: 2012
Duração: 101 min 
País: EUA / Reino Unido / Canadá 
Elenco: Sheri Moon Zombie, Bruce Davison, Judy Geeson,
Patricia Quinn, Dee Wallace, Michael Berryman,
Maria Conchita Alonso, Ken Foree, Meg Foster, 
Sid Haig, Jeffrey Daniel Phillips

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