Crítica: O Escaravelho do Diabo (2016) - Sessão do Medo

17 de junho de 2016

Crítica: O Escaravelho do Diabo (2016)

"Red Dragon"
Podemos afirmar que, de um modo geral, o Brasil anda bastante atrasado quando o assunto é cinema. Grande parte dos filmes nacionais mainstreams se resumem à filmes de comédia padrões da Rede Globo, sempre com o mesmo elenco e muitas vezes sem qualidade (não posso negar que até curto um que não vou citar o nome, rs). Ainda temos uma boa parcela de filmes de drama, mas se for analisar em relação à outros países, digamos que não há espaço para bons cineastas aqui no país.

A coisa complica mais ainda quando o gênero é terror/suspense. São poucos exemplos que o país pode apresentar, apesar de que nos últimos anos tivemos mudanças considerativas nisso, vide o slasher independente Condado Macabro (2015). Para dar uma variada no catálogo, a Ancine, Globo Filmes e todas as outras empresas envolvidas nos filmes de sempre resolveram adaptar O Escaravelho do Diabo.

Para quem não conhece, esse é um livro bem famoso brasileiro, escrito por Lucia Machado de Almeida, que inicialmente foi publicado em capítulos em um jornal nos anos 50 mas se tornou mais reconhecido após ser relançado como livro nos anos 70. Ele fazia parte de uma série infanto-juvenil intitulada "Vaga-lume" que foi distribuída décadas depois nas bibliotecas brasileiras assim como em escolas, o que fez com que a fama aumentasse.

A adaptação (bem tardia) veio num momento em que havia mais recursos para adaptar o livro de forma fiel. Apesar de não ter lido-o, vejo que pegaram 20% da violência e do suspense na história e adaptaram todo o projeto para que atingir um maior público, que segundo o diretor, era os "adolescentes". O tiro foi direto no pé, já que hoje em dia esse filme se torna bobo para esse grupo, o que fez com que desperdiçassem uma boa história.

Na cidade de Vila das Flores, Hugo, um jovem ruivo é assassinado. Dias antes do crime, ele recebeu pelo correio uma caixa com um escaravelho. Seu irmão mais novo, Alberto, logo percebe que há algo de estranho em tudo quando dias depois, um bancário ruivo é achado morto, além do fato que ele também recebeu um escaravelho pelo correio dias antes.

Vendo que há relação entre os casos, o garoto chama atenção do Delegado Pimentel (Marcos Caruso), que entende que eles estão lidando com um serial killer cujo alvo principal são ruivos. O que torna as coisas mais complicadas é que há vários ruivos na cidade, portanto eles tem que descobrir logo a identidade do assassino antes que o número de mortos aumente.

kill kill kill mom mom mom
Levando em conta que a história original foi escrita décadas antes do slasher surgir nos cinemas, podemos perceber que há toques do subgênero nela. Então pode ser bem decepcionante ver um filme com uma história baseada nisso, mas que tiram toda a violência, certo?

Deram uma adocicada forte em tudo, sendo que a principal mudança, creio eu, tenha sido na idade do protagonista. No livro, Alberto está terminando a faculdade enquanto no filme ele tem apenas 11 anos. Com essa mudança, muitos detalhes foram mudados também para se adaptar, como a idade de outros protagonistas e por consequência, a falta de sangue ou pelo menos um destaque maior de violência no filme.

Já que não houve uma tomada mais brutal na história, esperava-se que compensassem num suspense, que é uma característica chave em filmes assim. Um clima whodunit serviria bastante mas não é o caso aqui, já que ele não se preocupa em montar a história em cima do suspense da identidade do assassino, o que é uma pena. Portanto, percebi que não souberam aproveitar muito a história que tinham em mãos.


Até entendo que é baseado de um livro infanto-juvenil mas que, observem, foi escrito há cerca de 60 anos. Um exemplo que posso dar para uma adaptação de terror de uma história antiga foi o Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, cujo livro originário não tinha mortes em si e trabalhava no suspense. A adaptação deu uma ajeitada e ficou o filme que é hoje, entenderam onde quero chegar?

Enquanto grande parte do elenco não tenha muita experiência, começando por Thiago Rosseti no papel de Alberto, já que é seu filme de estreia, Marcos Caruso estrela no papel do delegado e dele não tenho o que reclamar. O resto dos atores são mais ou menos, então é aquele ditado né... Vamos fazer o quê?

O que temos aqui é até uma boa iniciativa mas mal executada. Para alguns pode parecer um filme bobo, para outros um filme divertido devido à nostalgia. Eu realmente não achei tão ruim, mas quase tudo parecia gritar por uma melhorada, que certamente não existiu durante o desenvolvimento do projeto. Em suma, acho que o que posso acrescentar é que é bastante possível que o filme seja exibido na Sessão da Tarde daqui a algum tempo.


por Neto Ribeiro
Ano: 2016
Duração: 90 minutos
Direção: Carlo Milani
Roteiro: Melanie Dimantas, Ronaldo Santos
Elenco: Marcos Caruso, Thiago Rosseti, Bruna Cavalieri, Jonas Bloch, Lourenço Mutarelli, Augusto Madeira, Selma Egrei



2 comentários:

  1. Fiquei na maior expectativa de assistir ao filme e procurei incessantemente aqui em Osasco um cinema para assisti-lo. Mas não passou. Não entendi. Lançaram o filme e cadê???? Acho que existe um cartel e só passa os filmes de Hollywood nos grandes cinemas. O que é lamentável. Enfim... assisti ontem num site pela internet. Assisti consciente sabendo que não tínhamos condições de fazer uma adaptação a altura do livro, mas deu para assistir sim... é legalzinho e valeu pela contextualização com os nossos dias, embora algumas coisinhas meio forçadas.

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    1. Infelizmente filmes nacionais que não são ligados a Globo Filmes ganham distribuição limitada nos cinemas. Saem em poucas salas e ficam de 1 a 2 semanas em cartaz. O quê é uma pena!

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