Crítica: A Orfã (2009) - Sessão do Medo

6 de novembro de 2016

Crítica: A Orfã (2009)


A crítica de hoje é de um dos filmes mais conhecidos do gênero entre os brasileiros - e notem que é recente. Não sei como o filme se popularizou tanto entre os fãs, até por que a recepção na bilheteria não foi tão notável assim, mas que ele é amado pela galera, é. Lembro-me da primeira vez que eu o vi, esperando nada demais além de uma história de uma criança psicótica. Nada que não tívessemos visto antes, certo? Errado.

A Orfã acerta justamente por trazer algo novo escondido numa história velha. Dirigido pelo competente Jaume Collet-Serra, que antes tinha dirigido meu môzinho A Casa de Cera (2005) e viria a dirigir o elogiado Águas Rasas (2016), sete anos depois. 


O casal principal é interpretado por Vera Farmiga (Invocação do Mal) e Peter Sarsgaard (Plano de Voo), nos papeis de Kate e John. Kate teve um aborto próximo ao nascimento do bebê, o que afeta sua vida com seu marido e seus filhos Danny (Jimmy Bennett, Horror em Amityville) e Max (Aryana Engineer, Resident Evil: Retribuição). Para tentar seguir a vida e deixar o alcoolismo que contraiu com a depressão, Kate resolve adotar uma criança.

Os dois vão até um orfanato e depois de um tempo, encontram uma jovem garotinha russa de 9 anos chamada Esther (Isabelle Furhman, Jogos Vorazes), que logo encanta o casal. Esther é levada para casa, tentando se aproximar dos irmãos. Aos poucos, pequenos acontecimentos (como acidentes) ocorrem, o que leva Kate a se questionar se foi uma boa ideia adotar Esther e se ela é a garota dócil que todos acham. Mas claro, Kate é desacreditada por logo cair no vício da bebida de novo.

Como falei, toda a estrutura da história não é original e lembra bastante O Anjo Malvado (1993), suspense estrelado por Macauley Caulkin e Elijah Wood, onde Caulkin interpreta um garoto que vai morar com os tios após a morte da mãe. Wood interpreta seu primo que logo percebe que o garoto não é tão inocente assim.


Para quem não se incomoda com isso, o longa suporta um suspense bem articulado, graças à atuação da sinistra Isabelle Furhman no papel de Esther. A menina é muito estranha e conseguiu interpretar a psicopata perfeitamente. Em contraparte está a maravilhosa Vera Farmiga, no papel de Kate (no mesmo ano ela foi indicada ao Oscar por Amor Sem Escalas).

SPOILERS: A cereja no bolo é seu famoso final. Se você esperava que a história de A Orfã fosse só aquilo, o roteiro vem e dá uma rasteira do caralho. Sim, a garota era psicopata. Mas a reviravolta era que Esther não era uma garota e sim uma mulher de 33 anos chamada Lenna Klammer que sofria de hipopituitarismo, uma síndrome que a impedia de se desenvolver fisiologicamente, portanto, seu corpo era de uma criança. O plano dela o tempo todo era matar Kate e os filhos, ficando sozinha com John, por quem era obcecada. Porra!!!

Pelo visto, essa ideia foi baseada em uma história real que aconteceu em 2007 mas que na verdade foi muito mais bizarra do que achamos. Se quiser ler sobre, tem um artigo aqui.


Por envolver crianças, pode-se esperar que o filme maneire na violência mas temos sangue na medida do possível e as cenas bizarras envolvendo Esther - tanto machucando alguém quanto fazendo seus joguinhos psicológicos (I know, they fuck) - dão um ar superior à produção.

Como um suspense passatempo, A Orfã é um ótimo filme. O roteiro nunca pretende ser mais do que é (a não ser pelo final, que é bem feito) então, junto com a boa direção do Jaume Collet-Serra, dá um resultado bacana.

CURIOSIDADES:

Cheguei a descobrir que muita coisa do roteiro não chegou a ser filmada, mas são detalhes interessantes o bastante para que eu trouxesse para vocês:

- Esther é descrita como uma garota loira e com sardas. Os produtores ficaram tão impressionados com o teste de Isabelle Furhman (que não tem tais características) que a contrataram.

- Haveria uma personagem chamada Yolanda, descendente latina, que seria a garota que os Coleman iria adotar. A primeira visita ao orfanato seria para trazer presentes à Yolanda, só então eles conheceriam Esther. Apesar disso, eles já teriam adotado Yolanda. No dia seguinte, a garota é encontrada morta no armário, deixando implícito que Esther a teria matado, sendo então adotada pelos Coleman.

- Esther teria um claro fascínio em matar animais, tanto que teria uma cena em que ela desmembraria o hamster de estimação dos Coleman.

- A versão do roteiro se passaria na primavera, mas isso foi mudado por conta de uma tempestade de neve que ocorreu no local das filmagens. Uma cena que se passaria no Halloween, na escola de Esther e Danny, teve que ser tirada do roteiro.

- Há uma cena deletada em que Esther colocaria a culpa da morte da irmã Abigail em um sem-teto, deixando uma bolsa com o martelo ensanguentado e itens da freira perto dele.

- Nos primeiros rascunhos do roteiro, Esther conseguiria matar Danny no hospital.

- A cena de sedução de Esther com John seria mais gráfica e mais longa. O conteúdo foi retirado do roteiro.

- A morte de John (esfaqueado por Esther) seria diferente e mais violenta nas primeiras versões do roteiro. Após ele ver os desenhos de luz negra no quarto da menina, ela pularia com uma tesoura, enfiando-a em seu olho. Ele cairia da escada, quebrando a perna e então ela o enforcaria até a morte.

por Neto Ribeiro

Título Original: Orphan
Ano: 2009
Duração:
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: David Leslie Johnson
Elenco: Vera Farmiga, Isabelle Furhman, Peter Sarsgaard, CCH Pounder, Jimmy Bennett, Aryana Engineer

3 comentários:

  1. Tô passada com essas curiosidades. A cena que mais fez falta foi essa aqui: Haveria uma personagem chamada Yolanda, descendente latina, que seria a garota que os Coleman iria adotar. A primeira visita ao orfanato seria para trazer presentes à Yolanda, só então eles conheceriam Esther. Apesar disso, eles já teriam adotado Yolanda. No dia seguinte, a garota é encontrada morta no armário, deixando implícito que Esther a teria matado, sendo então adotada pelos Coleman.

    De qualquer maneira o filme está entre os meus favoritos! <3

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  2. É um bom filme, permeado de realidades: um trauma que vai puxando outros ( em Kate, ótima Vera Farmiga), a sociopatia que prende os outros no silêncio, como se fossem cúmplices... E o filme ainda encaixa uma filha surda, de Kate e John, oque leva para uma boa diversidade, mostrando ao mundo a capacidade dos surdos, e faz de Kate uma boa mãe, pois aprendeu a LÍngua de Sinais para se comunicar bem com a filha. O filme é muito dinâmico, não dá chance para o tédio, só acho que Isabelle Furhman, tão elogiada, exagera no tom sinistro desde o início. Até eu vi que ela tinha algo estranho; Kate, John, Abigail, ninguém viu?? Mas sobre isso acho que foi opção do diretor, para que saltasse aos olhos da platéia, porém o recurso é desnecessário. Só Danny viu de primeira essa "estranheza" e passou por implicante? Enfim, é obra cinematografica, poderia ser melhor mas não deixa de ser boa.

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    1. Creio que essa sensação é pré-estabelecida, pois o público já sabe que há algo de errado nela (o próprio poster aponta isso), então quem vai assistir já vai de olhos saltados para a personagem.

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