Crítica: Psicose (1998) - Sessão do Medo

2 de novembro de 2016

Crítica: Psicose (1998)


Hospede-se. Relaxe. Tome um banho. 

Remakes são desnecessários? Em certa parte, sim. Exceções que podem ser consideradas é quando o filme original tenha envelhecido mal demais ou que ele próprio já não seja um filme muito bom. Mas quando o filme original é excelente? É revoltante, sim, claro, mas a única coisa que você pode fazer a respeito é assistir - ou não - o resultado, certo?

So... Um dos principais clássicos do terror, Psicose (1960), já ganhou um remake antes de virar uma moda em Hollywood e nem muitas pessoas sabem disso. Eu por exemplo, fiquei bastante surpreso ao descobrir, anos atrás, que havia um e lançado em 1998.


O caso dessa versão de Psicose, dirigida por Gus Van Sant, que havia dirigido um ano antes o elogiado Gênio Indomável (1997), é bastante delicado. Ao invés de adaptar a história para o tempo atual (os filmes tem 38 anos de diferença), o cara fez uma cópia quase perfeita, quadro-a-quadro, do original, mudando apenas alguns detalhes e atualizando cenários.

Essa escolha, para mim, é um tanto frustante. Se é para fazer um remake, crie uma nova versão da história, utilizando personagens e elementos semelhantes mas trazendo uma nova luz sobre ela. Psicose (1998) não faz isso. Ainda que eu ache interessante ver uma mesma história sendo recriada, a adaptação literal de Van Sant incomoda justamente por ser fiel. Bem contraditório, certo?


A história vocês já conhecem: Marion Crane (Anne Heche) rouba $400.000 de seu chefe e foge em direção à California, onde seu namorado Sam Loomis (Viggo Mortensen) vive. No meio da viagem, durante uma tempestade, ela se vê obrigada à parar em um motel à beira da estrada, gerenciado por Norman Bates (Vince Vaughn).

Durante o banho, Marion é assassinada pela mãe obcecada de Norman. Com a falta de informações da moça, sua irmã Lila (Julianne Moore) vai ao encontro de Sam, achando que Marion estaria com ele e consequentemente, o dinheiro. No entanto, o cara não sabe sobre Marion. Junto com o detetive Arbogast (William H. Macy), contratado pelo chefe de Marion, os três investigam o paradeiro da moça e acabam encontrando uma chocante revelação.


No meio de toda a "colorização" de Van Sant, as melhores cenas são justamente as mais memoráveis do original. A cena do chuveiro, realizada com tamanha simetria à qual foi baseada, ganha pontos por aumentar um pouco a violência. Mostrar o sangue vermelho escorrendo e as marcas das facadas no corpo de Marion deu à cena uma certa peculiaridade. O assassinato do Arborgast foi feito exatamente como à do filme de '60. A cena mais interessante, na minha opinião, foi a que Lila encontra o cadáver da Sra. Bates. Ela teve detalhes diferentes em seu visual e a adição dos insetos e a sonoplastia foi bem interessante.

Talvez o que mais tenha chamado atenção foi a escolha de colocar imagens aleatórias em meio aos assassinatos. Na cena de Marion, vemos um céu nublado. Na de Arbogast, uma mulher mascarada olha para a câmera e uma vaca no pasto. Não entendi muito bem a função de tais cenas, li algumas interpretações que dizem ser os últimos pensamentos de cada personagem antes de suas mortes.

Certos detalhes fazem o filme soar como uma peça, um tipo de interpretação nova de um texto antigo, as maiores mudanças não estão no aspecto visual ou até contextual da história, mas sim na interpretação do elenco em seus personagens. Van Sant quis que cada ator interpretasse seus papéis da forma que quisesse, deixando nas mãos deles a forma que eles iriam parecer. Heche fez uma Marion Crane menos ácida e decidida, mas não faz mal, é como se tivesse interpretando uma personagem diferente; Julianne Moore fez uma Lila mais agressiva e rebelde; Macy fez um Arbogast mais inquisitivo, mas fiel ao personagem original...

No final das contas, o foco desse remake não é o suspense. Pelo contrário, parece que toda a produção é focada no detalhe de que "todo mundo sabe o final". Então, é algo mais superficial, mais visual.


Agora irei citar os detalhes que eu definitivamente não gostei nessa versão:

As recriação das mortes: Como já foi falado anteriormente, Gus Van Sant optou por realizar os mesmos enquadramentos do filme de Hitchcock, portanto várias cenas ficaram idênticas, não só nas falas. Mas um detalhe que me incomodou foram justamente nas mortes. Preferiria que o diretor tivesse as deixado mais realistas. Ele recriou tais cenas com as mesmas técnicas do original, tirando algumas coisas da de Marion, em que podemos ver as facadas abertas e sangrando em seu cadáver. Mas na ação de tudo, ficou com o mesmo jeito "caricato" do original.

Norman Bates: Interpretado por Anthony Perkins no filme de '60, aqui temos Vince Vaughn no papel e não pude deixar de notar que o cara simplesmente não tava entrando no papel. Tentou, tentou, mas não convenceu. Pode ser implicância, mas não consegui ver nada de Norman Bates nele, além das falas. Até o Freddie Highmore, que o interpreta na série Bates Motel, teve mais fidelidade ao papel e à sua essência que o Vaughn.

A revelação da Mãe: Falei lá em cima que eu achei interessante eles terem mudados um pouco o cenário na cena em que Lila encontra o cadáver da Sra. Bates. Mas o que vem a seguir, Norman vestido dela com a faca na mão, ficou simplesmente ridículo. Percebi, não só nessa cena mas em algumas outras anteriormente, que a câmera do filme era muito invasiva, ficava muito no rosto dos personagens, ao invés da técnica que Hitchcock usava, em que a audiência podia analisar todo o resto do cenário. Esses "closes" no rosto atrapalharam a resolução da tal cena, que acabou ficando tosca bagaralho.


Essa refilmagem polêmica de Psicose foi um fiasco para o público e crítica e talvez seja um dos remakes mais odiados (e curiosamente, menos conhecidos) pelo público. Mas se você é um fã da história, como eu, talvez seja uma boa ideia dar uma olhada nessa versão. Para mim, não foi o desastre monstruoso que eu sempre li sobre, mas também foi uma oportunidade perdida de deixar um clássico quieto. Sério, se eu tenho dois filmes quase iguais, você acha mesmo que eu iria deixar de ver o original?
por Neto Ribeiro

Título Original: Psycho
Ano: 1998
Duração: 103 minutos
Direção: Gus Van Sant
Roteiro: Joseph Stefano
Elenco: Julianne Moore, Vince Vaughn, Anne Heche, Viggo Mortensen, William H. Macy



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