Crítica: Desafio do Além (1963) - Sessão do Medo

22 de junho de 2017

Crítica: Desafio do Além (1963)


Atenção: O post contém spoilers sobre o filme.

Em 1959, a autora americana Shirley Jackson lançou seu quinto romance, "A Assombração da Casa da Colina", hoje em dia, um livro bem difícil de se encontrar principalmente aqui no Brasil. O livro se tornou mais famoso quando, quatro anos depois, ganhou uma aclamada adaptação cinematográfica, intitulada The Haunting, lançada por aqui como Desafio do Além (what). Até hoje é um filme muito bem falado cuja fama o precede. Resolvi conferi-lo claro. E não tive a reação que esperava. Devemos sim levar em conta que é um filme feito há 54 anos e eu realmente não tenho nenhum tipo de preconceito com isso. Filmes bons não envelhecem. Esse envelheceu um pouco mal. Não me levem a mal, não é um desastre mas não é um filme que ainda tem o mesmo efeito de meio século atrás.


O filme acompanha uma história que a esse ponto não é tão original quanto era na época: Dr. Markway (Richard Johnson) é um antropólogo que decide realizar estudos sobre fenômenos paranormais e escolhe a Hill House (Casa da Colina) como o local. A casa tem muita história, ocorrendo mortes estranhas e já tem fama de ser mal assombrada. Essa parece ser a oportunidade perfeita para Eleanor (Julie Harris) fugir de casa, uma moça que cuidava pela última década da mãe e desenvolveu alguns problemas psicológicos por conta disto. Eleanor é a escolhida, junto com Theodora (Claire Bloom). Haviam outras pessoas mas desistiram por razões desconhecidas. Elas se juntam à Dr. Markway e à Luke (Russ Tamblyn), sobrinho da proprietária da casa e futuro herdeiro.

O estudo se inicia. No início nada se destaca até que certa noite, Eleanor é despertada por fortes batidas nas paredes. Ela corre para o quarto de Theo, onde as duas presenciam a aparente tentativa de uma força tentando entrar no quarto. Não podia ser Markway nem Luke, pois ambos estavam fora da mansão, perseguindo um cão que eles haviam visto dentro da casa!

A grande excelência dessa cena - e de muitas outras no filme - é que nada é mostrado explicitamente. Esse claramente é um dos acertos de Desafio do Além. O diretor Robert Wise trabalha arduamente com a sugestão e nunca se atreve a mostrar nada por definitivo. Nossa imaginação pode ser bem mais assustadora do que a realidade.

Wise é a verdadeira estrela da produção, pois o mesmo consegue realizar cenas incríveis, mesmo 50 anos atrás. Algumas são boas tanto pela condução das situações, com uma falta de trilha sonora, outras são surpreendentes pelos jogos de câmera, que deixam algumas cenas bonitas até. Isso eu não posso negar. O cenário também é caprichado e a casa causa um pouco de desconforto sim. Com a ajuda de alguns truques de iluminação, Wise faz muito com pouco.


Porém, como eu falei, é um filme que envelheceu mal. Eu me sinto um herege até falando de um dos filmes mais elogiados do gênero, um verdadeiro clássico, mas vim expôr minha opinião aqui. Acontece que mesmo reconhecendo o que faz dele um clássico, o filme não surte efeito e não é simplesmente por que foi feito há meio século atrás. Diversos filmes da mesma época (ou mais antigos até) creio ser mais competentes até nos dias de hoje.

Embora a direção de Wise não peque, é no roteiro que está o problema. Algumas atitudes e diálogos dos personagens soam extremamente datadas, principalmente da irritante protagonista, a Eleanor. Em outros filmes do gênero e da época, eu não costumo notar tais coisas pois o roteiro soa mais natural, mas aqui não tem como se relacionar, gente!

A história tem sim momentos de suspense, alguns são muito bons, mas não se sustentam pois além de ser longo, o filme enrola demais. Sempre que ele consegue nos prender, nos solta no minuto seguinte com diálogos corriqueiros e os surtos da irritante da Eleanor!!!


Uma coisa que eu curti bastante no roteiro de Nelson Gidding, e que ele até falou abertamente que essa era sua visão, é que, por não mostrar nada explicitamente, o filme deixa em aberto para interpretação se a temida Hill House tem influência mesmo ou não. No final, Eleanor tem um surto e deixa a casa de carro, batendo numa árvore e morrendo em seguida. Não se sabe se a casa estava influenciando tudo ou se a Eleanor queria morrer para ficar na casa, já que ela não tinha lugar nenhum para ir ao fim do experimento. 

Espero que vocês tenham entendido meu ponto antes de me xingar, haha. Não é nem de longe um filme ruim mas parece ser um filme com data de validade. Não podemos negar que ele foi uma forte influência para os filmes de casas assombradas que viriam em seguida e influencia seus pupilos até hoje. 

O filme ganhou em 1999 um remake, intitulado aqui de A Casa Amaldiçoada, com Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones, Lili Taylor e Owen Wilson. Também conferi ele e não achei tão abominável quanto pintavam. Tem muitas falhas sim mas é divertido. A Netflix também está produzindo uma série de 10 episódios comandada por Mike Flanagan (O Espelho), baseada no livro para uma estréia em 2018!

por Neto Ribeiro

Título Original: The Haunting
Ano: 1963
Duração: 114 minutos
Direção: Robert Wise
Roteiro: Nelson Gidding
Elenco: Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn

2 comentários:

  1. Adoro filmes de terror antigos... dão de 10 a 0 em relação a qualquer filme do James Wan... mas engraçado, esse tão cultuado the haunting não me apetece... já vi 3 vezes e nada... prefiro os Inocentes...que foi feito na mesma época

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