Crítica: O Iluminado (1980) - Sessão do Medo

26 de junho de 2017

Crítica: O Iluminado (1980)


Quando Stephen King resolveu assumir a autoria de seu primeiro livro, Carrie - A Estranha e publicá-lo, após jogar no lixo e sua esposa salvar o rascunho, ele não imaginava que mudaria o gênero do terror pelas próximas décadas. Não imaginava que se tornaria um dos autores mais aclamados e adorados de todos os tempos, lançando histórias de horror tão icônicas que seriam contadas e recontadas, além de influenciar dezenas outras. De todo seu extenso currículo, talvez uma das mais elogiadas tenha sido O Iluminado, livro publicado em 1977. Embora tenha alcançado grande sucesso, o livro seria eternizado pela sua infame adaptação cinematográfica, que veio às telonas três anos após a publicação. 

O filme por sua vez foi dirigido pelo excelentíssimo filmmaker Stanley Kubrick, que até então tinha dirigido grandes clássicos do cinema como Lolita (1962), 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) e Laranja Mecânica (1971). Kubrick era bastante conhecido por seu perfeccionismo e por ter uma visão bastante elaborada das suas ideias. Como ele dizia: "Se pode ser escrito ou pensado, pode ser filmado."

O Iluminado viria a ser o primeiro e único filme de horror da carreira de Kubrick. Apesar de que Kubrick era um dos favoritos para dirigir O Exorcista (1973) mas não pôde por conta de seu filme Barry Lyndon (1975). Embora seja um clássico inestimável até os dias de hoje, onde neste ano, completa 37 anos de idade, muitos podem se encontrar surpresos ao saberem que o Stephen King odeia com todas as forças este filme. Isso por que Kubrick alterou boa parte da história para se adentrar nos padrões de sua visão que ele tinha sobre os personagens e sobre o tema que a história envolvia.


No entanto, é compreensível que muitos considerem o filme um material superior ao livro original. Minha pessoa ainda não teve a oportunidade de ler a obra original, mas não tenho muitas dúvidas quando leio tal informação. O que é bastante irônico já que eu não fui com a cara do filme à primeira vista. Achei lento, chato e superestimado. Tomou apenas uma revisada para que eu mudasse completamente de ideia e contemplasse o filmão que O Iluminado é.

Ele conta a história da família Torrance e o Hotel Overlook. Jack Torrance é contratado para substituir a vaga de um zelador do dito hotel após o mesmo enlouquecer e matar sua família. O trabalho consiste nele tomando de conta da propriedade durante o inverno, quando o hotel fica fechado, por meses a fio. Para não ficar todo esse período sozinho, Jack é acompanhado de sua esposa Wendy (Shelly Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd), rumo ao grande local montanhoso e completamente isolado.

Há um certo detalhe, que é o fato de que Danny possui habilidades anormais para um ser humano. Ele tem o dor da "iluminação", que são poderes psíquicos, portanto ele consegue ter visões do que ocorreu/o que vai ocorrer no hotel. Às medida que os meses se passam no Overlook, acompanhamos Jack em uma ladeira rumo à loucura enquanto ele sucumbe às forças que vivem no hotel.


O Iluminado é um filme muito peculiar. É um horror psicológico pesado, Kubrick fez todo o possível para que a produção não se tornasse convencional e conseguiu. O diretor usa todo o seu conhecimento em cinema para construir um filme extremamente atmosférico e com um protagonista tão forte que o simples olhar de Nicholson para a câmera já passa todo a loucura enigmática que quer transmitir. Acima de tudo, é uma experiência extremamente gratificante para qualquer fã de cinema. Iluminação, enquadramentos, trilha sonora, fotografia, atuação, tudo é excelente.

O roteiro, assinado por Kubrick e Diane Johnson, aproveita todo o cenário elegante e assustadoramente quieto do Overlook Hotel para construir um suspense gradual. As cenas mais inquietantes dos dois primeiros atos do filme são introduzidas em grandes momentos de quietude. A dupla ainda fez um ótimo trabalho em passar o romance sob a visão de Kubrick, claramente não aprovada por King. Pelo o que eu li do livro, ele tem uma história mais mastigada. Kubrick adicionou vários detalhes, como a infame cena das gêmeas no corredor, além de mudar grande parte do final, onde Jack morre num incêndio no hotel e não congelado após se perder no labirinto. O diretor ainda de quebra deixa um final cabalístico que faz a cabeça dos fãs coçarem até hoje.

E eu tenho que comentar novamente sobre a atuação de Jack Nicholson, que talvez seja uma das maiores e mais marcantes no gênero, consolidando-o como um dos grandes atores que já passaram por Hollywood. Muita gente costuma reclamar bastante da atuação dele (!!!) e de sua parceira de cena, a Shelley Duvall, considerando-a exagerada e até cômica. Eu não compartilho desse sentimento. Seu marido enlouqueceu e está com um machado tentando matar você e seu filho e você não ficaria histérica não?

O Iluminado é uma obra fantástica, um marco no terror e no cinema geral. É um filme obrigatório para qualquer um que se considera fã da sétima arte. É uma vertente de três caminhos que merecem ser considerados antes de uma primeira assistida: É uma história de Stephen King, é um filme de Kubrick e é um dos maiores filmes de todos os tempos. Se você sabe disso, você pode se preparar para uma intensa volta numa assustadora e instigante montanha-russa.


CURIOSIDADES:

- Após dirigir Barry Lyndon (1975), Kubrick começou a procurar livros para seu novo projeto. Sua secretária disse ouvir sempre batidos na parede, pois era Kubrick jogando os livros que não gostava. Um dia ele começou a ler "O Iluminado" e depois de algumas horas de silêncio, ela soube que o diretor havia achado seu novo filme.

- Por causa da idade de Danny Lloyd, Kubrick teve todo o cuidado para que o garoto acreditasse que estava fazendo um filme de drama. Na cena em que Wendy corre de Jack segurando o filho nos braços, foi usado um boneco pois Kubrick não queria que o ator estivesse na cena. Danny só viu o filme completo aos 17 anos, 11 anos após.

- Para tirar Jack Nicholson do sério e estressá-lo, a produção apenas o alimentava com sanduíches de queijo por duas semanas. Ele odeia sanduíches de queijo.

- Foram usadas 60 portas para a cena do "Here's Johnny!". Ela levou 3 dias para ser filmada.

- Angelica Huston era a esposa de Jack Nicholson na época das gravações e disse que devido aos longos dias de filmagens, o marido chegava em casa exausto e ia direto para cama dormir.

- Foi ideia do Danny Lloyd fazer com que seu personagem falasse com seu dedo quando estivesse falando com "Tony".

- Shelley Duvall sofreu de exaustão nervosa durante as filmagens, chegando a ficar doente e perder o cabelo. Jack Nicholson considera sua atuação a mais difícil que ele já viu uma mulher interpretar.

- Em dois documentários, a atriz falou que o diretor implicava com ela. Segundo ela, ele perdia a paciência com ela facilmente e dizia que ela estava gastando o tempo de todos no set. 

- Wendy foi imaginada por King como uma mulher encorporada, ex-cheerleader, que nunca lidou com problemas reais na vida, o que faria sua experiência no Overlook mais apavorante. Por isso, ele não gostou da escalação de Shelley no papel. Kubrick queria que Wendy parecesse emocionalmente vulnerável, uma mulher que aparentava ter passado por muita coisa na vida.

- Nicholson recomendou Jessica Lange para o papel de Wendy pois ela se encaixava melhor com o biotipo da personagem do livro. Kubrick o convenceu que Shelley era a escolhida pois ela se encaixava melhor na visão frágil e atormentada que ele tinha da personagem.

- Kubrick exibia Eraserhead (1977) para sua equipe para deixá-los no clima. O filme de David Lynch era um dos favoritos do diretor.

- No livro, o quarto assombrado é o 217. O dono do hotel usado para tomadas exteriores pediu para Kubrick mudar para 237, um quarto inexistente, senão ninguém jamais iria querer ficar no 217.

- As páginas contendo "All work and no play makes Jack a dull boy" foram escritas pela secretária de Kubrick durante semanas.

- O artista Saul Bass fez cerca de 300 versões do poster do filme antes de Kubrick se decidir. Você pode ver algumas aqui.

- O filme era previsto para ser filmado em 17 semanas mas devido ao perfeccionismo de Kubrick, levou 51, basicamente um ano.

- Existe um final alternativo onde vemos Wendy e Danny no hospital após os eventos do filme. Kubrick mandou cortá-lo uma semana depois do lançamento.

- A foto da festa dos anos 20 é realmente uma foto tirada nos anos 20. A cabeça de Nicholson foi photoshopada no corpo de um homem na foto original.

- Stephen King chegou a escrever um roteiro para a adaptação do filme, mas Kubrick o rejeitou. Ele então procurou Diane Johnson para ajudá-lo no roteiro.

- Em 1997, King e Mick Garris se juntaram para uma nova adaptação de O Iluminado, desta vez em forma de minissérie. Dividida em 3 capítulos, a produção é considerada como a resposta de King à Kubrick e é extremamente mais fiel à obra. Claro que muita gente a considera inferior ao filme.
por Neto Ribeiro

Título Original: The Shining
Ano: 1980
Duração: 144 minutos
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson
Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Scatman Crothers, Danny Lloyd

2 comentários:

  1. Bela Crítica ! P MIM , ta entre os 4 maiores filmes de terror q já vi , os outros 3 seriam O Bebê de Rosemary . O Exorcista e A Profecia 76 !

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  2. Considero The Shining o segundo melhor filme de horror de todos os tempos!! Gostei tanto que na época do VHS eu comprei a fita original. Hoje possuo o blu-ray. Clássico cut absoluto!!

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