Crítica: A Noite dos Mortos-Vivos (1968) - Sessão do Medo

20 de julho de 2017

Crítica: A Noite dos Mortos-Vivos (1968)


Esta semana fomos surpreendidos com a triste notícia de que George A. Romero havia falecido, aos 77 anos. O cineasta foi um dos grandes nomes do terror, ao conceber a visão dos zumbis que hoje conhecemos e introduzi-los na cultura pop. Sua obra-prima e clássico master foi A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead), filme feito no fim da década de 60 e que lucrou horrores, com um orçamento de míseros $114 mil e arrecadando $30 milhões. Confesso que nunca havia chegado a assisti-lo e só procurei depois que recebi a notícia da morte de Romero.

Acontece que A Noite dos Mortos-Vivos não é apenas mais um filme de zumbis. É "o" filme de zumbis. O definitivo. Não é apenas uma história onde os mortos voltam à vida. O roteiro de Romero vai além e impõe críticas sociais que até hoje ressoam. A importância e valor cultural que o filme possui é indispensável, o que faz com que ele seja um dos maiores filmes de todos os tempos.

Romero escreveu o projeto conjuntamente com John Russo, que previamente abordaria aliens comedores de carne humana e seria uma comédia de horror. Após diversas reformulações no roteiro, o filme tomou a forma que hoje conhecemos, onde um grupo de estranhos se veem aprisionados numa casa enquanto o caos toma conta no lado de fora, onde os mortos voltaram à vida.


Os ghouls (eles nunca são chamados de zumbis no filme) não tem maquiagem ultra-elaborada e decomposta como os que vemos hoje em dia. Eles são pálidos pois são recém-mortos e não é aqui que vemos os mais antigos saindo de suas tumbas. Também não há lugar para uma violência brutal e todo o tipo de conteúdo forte está mais no contexto, nas entrelinhas, do que no gráfico.

Romero constrói aqui um verdadeiro exercício de suspense, onde por boa parte da projeção, a sugestão assusta mais do que as próprias situações. Em várias cenas, os personagens estão atentos à transmissões de rádio e TV, além de seus próprios relatos dos encontros com os "ghouls". Ben (Duane Jones), um dos principais, relata que viu cerca de duas dezenas das criaturas perseguindo um caminhão em chamas incansavelmente, aos gritos do motorista. No rádio, os repórteres relatam que as criaturas devoram suas vítimas. No andar de cima, eles encontram o corpo mutilado de uma mulher. São essas poucas informações que fazem com que a trama soe bem mais assustadora do que ela aparentemente é, pois Romero dá os detalhes e a nossa imaginação faz o resto.

Mais do que um simples filme de terror, A Noite dos Mortos-Vivos e audácia de Romero ajudou a pavimentar não só o cinema do gênero como no geral e seus feitos ecoam até os dias de hoje. Enquanto a América passava por toda cachorrada possível, desde a Guerra do Vietnã até a luta pelos diretos civis, Romero vinha e trazia uma crítica disfarçada de entretenimento. Ninguém esperava que a protagonista, Barbara, fosse morta antes do fim, devorada pelos mortos, dando o posto à Ben, um negro (!) que sobrevive ao ataque zumbi só para ser morto no dia seguinte por um grupo de caipiras.


Não resta dúvidas em por que o filme se tornou um clássico. Um fato curioso é que, devido a um erro da produtora no lançamento, a produção não teve seus direitos autorais protegidos. Devido a uma lei, os filmes devem ter nos créditos finais a informação, o que acabou não sendo inserida na versão final. Isso fez com que o filme ficasse em domínio público, portanto qualquer um pode usá-lo de qualquer forma. É por isso que você pode encontrá-lo facilmente no YouTube e também é por isso que há tantas sequências fajutas sob o mesmo título.

Porém a franquia continuaria oficialmente sob as mãos de Romero. Uma década após seu lançamento, Romero fez Despertar dos Mortos (1978), uma sequência que tecnicamente se passa apenas algumas semanas depois dos eventos desse. A trilogia seria fechada com Dia dos Mortos (1985). Então, 20 anos após este, Romero a revive lançando Terra dos Mortos (2005). A série ainda lançaria Diário dos Mortos (2007) e A Ilha dos Mortos (2009), ambos bastante criticados pela crítica e o público.

Em 1990, A Noite dos Mortos-Vivos foi refilmado sob os cuidados de Tom Savini, que cuidou dos efeitos especiais do segundo e terceiro filme. O resultado é um filme bastante divertido, uma versão que abre portas para o gore e a violência já estabelecidas em filmes de zumbis. Eu, particularmente, adoro o remake e o acho tão bom quanto o original. Acontece que são dois filmes bem distintos e com propostas bem diferentes e ambos se saem bem no que tentam fazer.

Ps: Você pode assistir ao filme no vídeo abaixo!

por Neto Ribeiro

Título Original: Night of the Living Dead
Ano: 1968
Duração: 96 minutos
Direção: George A. Romero
Roteiro: John Russo, George A. Romero
Elenco: Duane Jones, Judith O'Dea, Marilyn Eastman, Karl Hardman, Judith Ridley, Keith Wayne

Nenhum comentário:

Postar um comentário