Crítica: Ao Cair da Noite (2017) - Sessão do Medo

30 de agosto de 2017

Crítica: Ao Cair da Noite (2017)


O terror está mudando. Nos últimos anos, podemos acompanhar uma notável transformação em seu tom, no que os críticos estão chamando de movimento "pós-horror". Alguns exemplos que pertencem ao tal movimento são The Babadook (2014), Corrente do Mal (2015), Raw (2016), A Bruxa (2016), Os Olhos da Minha Mãe (2016), Corra! (2017) e agora, Ao Cair da Noite. Há sim várias características que podem definir esse filmes mas tem uma comum que se destaca: não é pra todos os públicos. Por experiência própria, posso dizer que perdi a conta de quantas vezes vi comentários chamando algum desses filmes que citei de "ruins" ou "fracos". É claro que eles não foram feito para o público mainstream que esperam um filme com jumpscares, ou manifestações gráficas. Podemos dizer que os filmes que fazem parte desse dito "pós-horror" são filmes mais introspectivos e é por isso que eles se destacam dos outros.

Dirigido por Trey Edward Shults (Keisha), Ao Cair da Noite também foi roteirizado pelo mesmo logo após a morte do pai, como uma forma de lidar com a perda. Numa trama simples e pós-apocalíptica, sua história acompanha uma família formada pelo patriarca Paul (Joel Edgerton), sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho adolescente Travis (Kelvin Harrison Jr.), vivendo em uma casa isolada na floresta, com todo os cuidados possíveis para sobreviver como a casa inteira vedada, não sair à noite se não for uma emergência e usando máscaras. Por que? Há uma infecção mortal.


O filme já começa com o pai da mulher infectado, uma boa apresentação resumida para a trama, e o que Paul precisa fazer (matá-lo e queimá-lo). É uma situação da qual a família já está conformada e não há muita saída. A monotonia dessa vida solitária muda quando numa noite, a casa é invadida por Will (Christopher Abbott), um estranho que após passar por um "teste" pelo Paul, revela ter achado que a casa estava abandonada e procurava água e comida para levar para sua esposa e filho, que estavam em outro lugar a alguns quilômetros dali. Depois de pensarem, eles decidem receber a família na própria casa.

Não vou entrar em detalhes no acontece além desse ponto da trama mas digamos que o filme é basicamente um drama com toques de horror. Pelo menos é isto que dá para notar da visão de Shults. Sua direção é muito bonita, não devo mentir. Dá pra notar que ele pré-concebeu bem como as cenas deveriam ser. Inclusive, ele alterna o tamanho do frame do filme em certas sequências, principalmente as dos sonhos do Travis, onde a tela diminui e fica mais apertada. Sem dúvidas, é o ponto alto do filme.


Outros detalhes técnicos como a fotografia, sombria, super escura e contida do jeito que deve ser, e a ótima trilha sonora, que é muito atmosférica e se encaixa bem no filme. O elenco é repleto de gente competente, desde o Joel Edgerton (O Presente) e Carmen Ejogo (Selma), passando pelo surpreendentemente talentoso Kelvin Harrison Jr. (O Nascimento de uma Nação) e terminando na nova princesa do cinema independente Riley Keough (Mad Max: Estrada da Fúria). Então esses quesitos definitivamente não decepcionam. 

O problema de Ao Cair da Noite está no roteiro. Ele é cheio de intenções e embora não traga uma premissa inteiramente original, é ambicioso e poderia dar um caldo com um gosto melhor. Mas com um bom início e um bom fim, o meio se torna rápido e superficial e por consequência, tira um pouco da eficácia do desfecho. O roteiro não explora o medo, a claustrofobia, a desconfiança entre os personagens com o todo potencial que tem, apenas alguns momentos esporádicos que não são suficientes para fazer dele um filme excelente.

Pode-se notar que durante o filme, são apresentadas algumas ideias como a fixação de Kelvin na personagem de Keough ou um certo furo na história de Will (cuja desculpa não soa tão acreditável assim) mas nenhuma delas são de fato trabalhadas bem no filme. Creio que isso seja culpa de uma curta duração, o filme poderia ter andado facilmente por uns 10 ou 15 minutos se desenvolvesse melhor a interação dos personagens.


E sabe por que eu acho isso? O filme em si não tem um antagonista definido. Como eu li em um comentário, o "It" do título original (It Comes at Night), a coisa que vem quando a noite cai, é justamente esse medo, essa desconfiança, esse sentimento de desconfiança. Infelizmente o filme não faz jus ao título e não trabalha isso em prol de um final chocante.

O fato de eu não ter caído nos gostos de Ao Cair da Noite não é por conta de expectativas, pois pra minha surpresa consegui controlar e não esperava algo excelente apesar dos elogios da crítica profissional. Quero deixar claro que não é um filme ruim, tem sim seus bons momentos de tensão e desconforto, além de todos aqueles aspectos técnicos que falei parágrafos acima. Mas é sim um filme que infelizmente se encheu de hype desnecessário. Infelizmente não é tão bom assim.

por Neto Ribeiro

Título Original: It Comes at Night
Ano: 2017
Duração: 91 minutos
Direção: Trey Edward Shults
Roteiro: Trey Edward Shults
Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr., Riley Keough

3 comentários:

  1. Ainda n vi e procuro algum site que já o tenha liberado.

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  2. Vai entrar no Netflix esse mês (outubro 2017). Vou aguardar pra conferir, depois volto aqui comentando oq achei. ;)

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  3. Eu não me lembro onde eu li, mas o autor do livro em que o filme foi baseado disse que foi baseado em eventos reais, que medo! Esse é um filme que não vai agradar a todos, calmo mas com ápices de terror, principalmente no final, e esse que é inesperado e abrupto, com uma sensação de confusão muito forte, com boas atuações, um enredo muito bem efetivado, uma violência chocante e atormentadora, com uma ótima mixagem de som, porem ele apresenta fortes problemas como a sua lentidão que acaba atrapalhando a experiencia em seu todo. Ao Cair Da Noite e um bom filme terror é incomum e inteligente O filme é bacana!

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