Crítica: Lobo (1994) - Sessão do Medo

31 de agosto de 2017

Crítica: Lobo (1994)


Quando o nome de Jack Nicholson vem à tona, a maioria dos cinéfilos logo se lembra dele como Jack Torrance em O Iluminado (1980), Coringa de Batman (1989) ou ainda como o R.P. McMurphy de Um Estranho no Ninho (1975). O que talvez poucos saibam é que Nicholson já passou vergonha andando de quatro e uivando como um canino no irregular Lobo (1994) - disponível na Netflix, inclusive.

Na história, o ator vive Will Randall, um homem que atropela um lobo na estrada e, acreditando que o animal estava morto, tenta tirá-lo da estrada, mas acaba levando uma mordida no mão. A partir daí, começa a sentir uma série de mudanças no seu corpo, como o crescimento repentino de pelos e uma melhora nos seus sentidos, que passam a ficar mais aguçados. Paralelamente a isso, Randall ainda precisa lidar com os problemas da sua vida: com a venda da grande editora de livros em que trabalha, ele perde o cargo de editor-chefe e acaba em uma função inferior. Para deixar a situação mais complexa, ele se envolve com a misteriosa Laura Alden (Michelle Pffeifer), que não imagina que o seu novo amante está, pouco a pouco, se transformando em um lobisomem.

O primeiro ato de Lobo é, de fato, interessante e consegue prender a atenção do espectador. Sem pressa, o roteiro de Jim Harrison e Wesley Strick vai nos apresentando a rotina de Randall, sendo, no mínimo, divertido vê-lo descobrir as suas novas habilidades - entre elas, a capacidade de sentir o cheiro do que uma pessoa bebeu horas antes, ler sem os seus habituais óculos ou escutar o que alguém está fazendo enquanto conversa ao telefone.


No entanto, quando o filme chega ao segundo ato, o diretor Mike Nichols (vencedor do Oscar por A Primeira Noite de um Homem) e a dupla de roteiristas dão a impressão de que não tinham a mínima ideia de qual direção dar à trama. O resultado disso é um longa que beira a monotonia e desperdiça o talento de Nicholson, que até é bem-sucedido incorporando o lado vingativo e cínico do seu personagem, mas falha na tentativa de dar uma dimensão, um peso humano às suas ações - é difícil se convencer de que ele realmente se importa com as vidas que acaba colocando em risco. Já Michelle Pffeifer se mostra totalmente perdida na pele de um interesse romântico totalmente descartável, que, se fosse excluído, não faria falta à história.

Sem cenas de transformação, sem um foco maior no conflito entre o lado humano e animal, sem grande derramamento de sangue, o espectador tem de se contentar em ver Nicholson - em uma cena hilária - correndo de quatro atrás de um cervo e enfrentando um outro lobisomem em uma sequência nada empolgante.

Rick Baker, o maquiador por trás de grandes trabalhos como Um Lobisomem Americano em Londres (1981) e MIB: Homens de Preto (1997), falha em entregar um visual que seja marcante ou até mesmo assustador. O lobisomem de Lobo, constituído basicamente de alguns pelos a mais e olhos amarelados, não impressiona - quem assiste ao filme esperando ver uma cena de transformação tão icônica quanto a do já citado Um Lobisomem Americano em Londres certamente vai se decepcionar.


Outro nome de peso na produção, Ennio Morricone também não agrada com sua trilha. O mesmo autor da clássica música de Três Homens em Conflito (1966) é o responsável por uma composição que pouco acrescenta ao filme. Assim, por mais empolgante que seja ver os nomes de Baker e Morricone nos créditos iniciais, a expectativa por mais um trabalho marcante dos dois acaba não se concretizando.

Lobo é, no fim das contas, um filme que diverte em seu primeiro ato, mas erra ao não saber que caminho seguir. Sem grandes momentos, o longa de Mike Nichols dificilmente permanece na cabeça de alguém por muito tempo - a única coisa memorável nessa obra é a bizarrice de Nicholson como lobisomem. E só. 

por Marcelo Silva

Título Original: The Wolf
Ano: 1994
Duração: 125 minutos
Direção: Mike Nichols
Roteiro: Jim Harrison e Wesley Strick
Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, Christopher Plummer, James Spader, Richard Jenkins, Kate Nelligan

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