Crítica: Deixa Ela Entrar (2008) - Sessão do Medo

13 de setembro de 2017

Crítica: Deixa Ela Entrar (2008)


Atenção: O post contém spoilers.

Numa era onde a predominância cinematográfica do terror reina nas assombrações James Wan-ianas, o subgênero dos vampiros não tem tanto espaço. Acontece que infelizmente, os vampiros saturaram há um tempinho e o público não vê o subgênero com tanta "sede" quanto já viram um dia. Poucos filmes dos dentudos acabam sendo reconhecidos por serem originais de alguma forma, pois dessa maneira chama a atenção seja dos críticos ou dos espectadores. Há 9 anos, era lançado Deixa Ela Entrar (Let the Right One In), uma produção sueca que se destacou nos festivais mundiais, com críticas chamativas como "o melhor filme de vampiros em anos". É até engraçado se for parar pra pensar que o filme saiu no mesmo ano de Crepúsculo, não acham?

Baseado no livro de mesmo nome escrito por John Ajvide Lindqvist, Deixa Ela Entrar traz uma abordagem sensível e original do vampirismo através de uma relação entre um garoto solitário e sua nova vizinha com um segredo obscuro. Com duas crianças como protagonistas, o filme não poupa na violência e impressiona bastante, mesmo sendo tratado de uma forma simples. Mas o mais bacana é que o enredo tem seus subplots que a princípio ficam difícil de imaginar como eles se encaixam na narrativa principal - e que quando se encaixam causam nada além de surpresa.


Assumindo uma estética de thriller dramático, a trama é situada em 1981 na cidade de Estocolmo, mais especificamente num condomínio no subúrbio, onde vive Oskar (Kåre Hedebrant), um garoto de 12 anos de idade que mora com sua mãe. A vida de Oskar é cansativa e tediosa, o menino não recebe a devida atenção de ninguém que importa com exceção de um grupo de valentões em sua escola, onde frequentemente é perturbado ou machucado pelos garotos.

A rotina solitária de Oskar muda quando uma nova garota se muda para o apartamento vizinho ao seu. Ela se chama Eli (Lina Leandersson) e a princípio diz que não pode fazer amigos mas a conexão dos dois é inevitável. Oskar vê em Eli um porto seguro, se tornando mais íntimos a cada dia. Mas a história não se sustenta apenas isso. Paralelamente, um assassino faz vítimas pela cidade, drenando seu sangue e levando-o consigo. O que um tem a ver com outro? O assassino é o "pai" de Eli e adivinhem o que Eli é? Uma vampira!

Falo logo de adiante que este é definitivamente um dos melhores filmes de terror dos anos 2000. É justamente um sopro de ar fresco que o gênero precisava na época, é um filme diferente, profundo e muito, mas muito bem feito em todos os aspectos, da direção ao roteiro, do elenco à trilha, da fotografia à puta que pariu. Muitos podem conhecer a história que descrevi acima através do remake americano, Deixe-me Entrar (2010), refilmado apenas dois anos após este, o que é um absurdo se for parar pra pensar. Embora a versão americana não seja nem de longe ruim, perde os méritos por ter um roteiro idêntico à este e não apresentar muita coisa nova além do visual, que assume uma paleta de cores diferente dos azuis, brancos e cinzas, definidos pelo clima gélido e frio, neste aqui; e uma subtrama envolvendo um policial investigando os assassinatos. Mas no final das contas, o resultado é o mesmo.


A construção da dupla de protagonistas, desde o roteiro até os atores, é excelente e o maior triunfo de Deixa Ela Entrar. Oskar é um garoto que se sente abandonado pelo mundo e tem tendências psicopatas como podemos ver em algumas cenas em que ele "treina" um ataque aos valentões. Ele conhece Eli, uma garota de aparência inocente que se revela uma fera. A relação dos dois é simplista e é tão bem desenvolvida que dá um ar de inocência até mesmo nas cenas violentas. Ou seja, a violência do filme é sub-utilizada quando temos dois personagens que a acha banal, de certa forma.

No entanto, essa história de amor entre duas crianças é deixada aberta à interpretações para o público. Eu só assisti este filme uma vez mas já revi o remake várias vezes. E ao conferir a obra original, eu acabei pensando de uma forma diferente que eu nunca pensei antes, sobre um detalhe relacionado às intenções de Eli. Seu guardião, por exemplo, a conheceu quando era pequeno e eles teceram uma amizade parecida com a dela e a de Oskar. E se o desfecho não for um final tão "feliz" e inocente como aparenta?

Para o sucesso desses tópicos que levantei, o trabalho de Kåre Hedebrant e Lina Leandersson é importantíssimo e sem dois atores mirins com tamanha destreza e controle sob seus papéis, o filme não teria o mesmo charme. Lina principalmente. Ela interpreta uma doce garota impossível de não se simpatizar, mas com uma certa malícia por trás. É bem interessante de se analisar.


Outro detalhe chave que o filme não funcionaria sem é o diretor Tomas Alfredson (do inédito Boneco de Neve). Sempre tomando escolhas inteligentes, ele trabalha no filme usando métodos para deixar o público sempre à par de um mistério, mesmo com as peças sendo reveladas, tornando a experiência completamente imersiva. Através de técnicas sutis, ele desperta no espectador paranoia, especificamente nas cenas onde Eli se alimenta. Por frames minúsculos, ele substitui a atriz Lina por uma mulher mais velha e ficamos com uma certa impressão de "eu vi isso mesmo ou foi coisa da minha cabeça?". O mesmo vale para os olhos agigantados da Eli, que em certo momento cheguei a me questionar se aquilo era normal mesmo. A presença da mãe de Oskar é minúscula, com seu rosto aparecendo pouquíssimas vezes. Também é preciso destacar a excelente sequência submersa do final que não vou entrar em detalhes para aqueles que ainda não assistiram.

Deixa Ela Entrar é um clássico e ponto. Uma fantasia realista, cruel, bonita e intensa sobre adolescência, primeiro amor, inocência e maturidade. São poucos filmes que conseguem capturar de forma tão bela uma história desse nível e não é apenas um filme obrigatório para fãs de terror, mas um filme obrigatório para fãs de cinema.
por Neto Ribeiro

Título Original: Let the Right One In / Låt den rätte komma in
Ano: 2008
Duração: 114 minutos
Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Ika Nord, Peter Carlberg

3 comentários:

  1. Os vampiros são criaturas fascinantes ❤️ Desde pequena, estava interessada em vampiros, tanto no cinema como na literatura. Se você gosta de filmes sobre esse tema, eu recomendo Underworld: Blood Wars Este é um tema muito variado e interessante! Estou muito animado, não vou perder esse filme! :D

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  2. Engraçado, as pessoas cansaram de vampiros mas nunca cansam de espiritos e zumbis 😒

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