Crítica: Jogo Perigoso (2017) - Sessão do Medo

29 de setembro de 2017

Crítica: Jogo Perigoso (2017)


Stephen King escreveu tantas histórias fascinantes que é bem provável que o próprio já tenha perdido a conta. Muitas de suas histórias vem sendo adaptadas desde a estréia de Carrie - A Estranha lá em 1976, mas é fato que muitas delas não funcionam bem neste tipo de mídia e geralmente o culpado é a direção ou o roteiro. Apresento-lhes Jogo Perigoso, originalmente chamado Gerald's Game, um livro publicado em 1992 e que foi considerado "infilmável". Mas não é que deram um jeito? O responsável por isso foi o talentosíssimo Mike Flanagan, nome crescente no terror nos últimos anos com O Espelho (2013), Hush - A Morte Ouve (2016) e Ouija - Origem do Mal (2016). Flanagan usa sua sagacidade para entregar um filme incrivelmente sólido, lançado pela Netflix nesta sexta (29).

Mas vocês devem estar se perguntando o por que de acharem que o livro era tão difícil de ser adaptado para os cinemas. Acompanho a produção do filme há um tempo, desde que a primeira notícia foi divulgada e aproveitei pra ler o primeiro capítulo do livro (não consegui terminar por tempo e pura preguiça, rs). A trama acompanha Jessie e Gerald Burlingame, um casal que vão pra uma reclusa cabana passar o final de semana, na esperança de esquentar o casamento através de jogos sexuais. Algemada à cama, Jessie se vê num pesadelo sem fim quando Gerald infarta. Não bastasse a falta de mobilidade e o fato de a pessoa mais próxima estar a mais de um quilômetro dali, ela tem que cuidar de um cão vira-lata faminto, suas dolorosas memórias e a sensação de que há alguém a observando no canto do quarto ao cair da noite.


O livro é narrado por Jessie, enquanto ela tenta todas as maneiras de escapar dali. Aos poucos ela vai perdendo a sanidade, debatendo consigo mesma, com sua ex-terapeuta e uma antiga colega de faculdade (claro que tudo na cabeça dela). Grande parte da história se move a partir dos devaneios da personagem, portanto é fácil imaginar o por que de considerá-lo difícil. Mas Flanagan, em parceria com o roteirista Jeff Howard, driblaram isto e fizeram o melhor nesta adaptação que já pode ser considerada uma das melhores de King.

Jessie é interpretada pela ótima Carla Gugino, uma atriz que o que tem de competente, tem de subestimada e aqui ela está soberba, principalmente por ser a carregadora do filme inteiro. Bruce Greenwood também está ótimo em suas breves aparições. Quem também aparece no elenco é Kate Siegel, esposa de Mike Flanagan e que participa de seus filmes desde O Espelho (2013) e Henry Thomas, o protagonista do clássico E.T. (1982) e que repete a parceria com Flanagan iniciada em Ouija: Origem do Mal (2016).

Flanagan faz um excelente trabalho ao conduzir esse filme com tamanha destreza. A ausência de trilha sonora aumenta toda a tensão imposta nas cenas. Para inserir os pensamentos de Jessie no filme, sem narrações, o roteiro a mostra conversando com uma versão imaginária dela mesma e de Gerald, que servem de "anjo" e "diabo" em suas atitudes, com polos diferentes. Também notei uma diferença entre a Jessie do livro e a do filme, sendo que a segunda é bem mais carismática (com ajuda da atriz) e mais fácil do público se conectar.


A pressão psicológica é definitivamente sentida através de situações claustrofóbicas que te farão ficar com um frio na barriga. Jessie passa por vários perrengues e é impossível não sentir um pouco desesperado por ela. Inclusive, devo ressaltar uma cena em particular (não vou dar detalhes) que me fez virar o rosto por conta da agonia. E olha que costumo ser bem insensível à cenas fortes mas esta realmente é agoniante. Vocês verão!

No entanto, houve duas coisas que me incomodaram. A primeira é uma questão envolvendo um trauma de Jessie, não vou entrar em detalhes pois serão spoilers, mas digamos parece que esqueceram de explicar isto. A segunda coisa é o final. Fui pesquisar e vi que é o mesmo do livro, mas a sensação de que grande parte daquilo era muito extra ainda permaneceu em mim.

Vendo Jogo Perigoso, é impossível não parar e pensar "de onde Stephen King tira essas ideias?". É bem perceptível que em seu extenso currículo, o cara inventa situações apavorantes das coisas mais cotidianas possíveis. Nesta adaptação, Mike Flanagan cria um verdadeiro jogo de tensão, culminando no que é um dos meus filmes de terror favoritos desse ano (que já entregou vários filmaços). Aparentemente vai ser uma tarefa difícil escolher só 10 nos especial de melhores do ano, rs.
por Neto Ribeiro

Título Original: Gerald's Game
Ano: 2017
Duração: 103 minutos
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard
Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas, Chiara Aurelia, Carel Struycken, Kate Siegel

7 comentários:

  1. Neto, acabo de assistir e ainda um pouco consternado com a reta final (sem spoilers) procurei algo que pudesse ser esclarecido. A primeira crítica que li foi a sua e pelo visto dividimos a mesma opinião. Achei um tanto quanto sem nexo esse desdobramento, mas que não "eclipsa" (kkkkk) o talento de Carla Cugino nos momentos de agonia. Também me questiono de onde Stephen King tira essas ideias.

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  2. Ótima crítica. O filme ficou maravilhoso. Conseguiu captar toda a essência do livro. A tensão e o terror crescentes da situação da protagonista, o cachorro, o " homem no canto do quarto". Tudo impecável...
    O único defeito o final desnecessariamente estendido, mas, ainda sim, fiel ao livro.

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  3. Anônimo9/30/2017

    Ótima crítica, como sempre! A primeira parte realmente está quase à altura dos melhores do ano. Pequena correção, "houveram" não existe, não se conjuga o verbo haver no plural

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    1. Ops, corrigido! Obrigado pelo aviso.

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  4. Anônimo9/30/2017

    Olá. Acabei de assistir ao filme e não entendi o final. A relação daquele "monstro" com o drama da personagem, se você puder explicar iria agradecer.

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  5. Já lí quase todos os livros de King e uma característica marcante (além de realmente nos fazer perguntar de onde vem tudo isso) é a completa inabildiade dele de encerrar suas histórias.

    O próprio King em uma entrevista (e no final de A Torre Negra) disse que odeia finais, pois nunca, nunca serão satisfatórios. Em muitas histórias ele vai além do climax, mostrando até como ficou a vida do protagonista após os eventos, etc...

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  6. Eu não sou o tipo de pessoa que lê muitos livros que depois são adaptados em filmes (mesmo sendo as obras de Stephen King que merecem ser elogiadas por leitores atentos), não sei se faço mal, mas me sinto mais cativado pelo que o filme pode mostrar e até mesmo ensinar (acho que alguém pode pensar assim também). Esse é um dos filmes para aqueles que não leem muito obras de autores como o King e que às vezes julgam de forma leiga sem refletir de verdade.
    Eu também fiquei agoniado naquela cena, omg!
    É um suspense psicológico que se você refletir na mensagem vai te preencher em alguma ocasião da vida.

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