Crítica: O Diabo Mora Aqui (2015) - Sessão do Medo

12 de setembro de 2017

Crítica: O Diabo Mora Aqui (2015)


Ainda pouco conhecido entre o grande público, o cinema nacional de terror tem, nos últimos anos, apresentado uma safra interessante de filmes. Apesar de obstáculos de financiamento, distribuição e divulgação, cineastas como Marco Dutra (Quando Eu Era Vivo), Juliana Rojas (Sinfonia da Necrópole) e Rodrigo Aragão (A Noite dos Chupacabras) entregam bons exemplares do gênero.

Seguindo nessa linha, O Diabo Mora Aqui, um filme de 2015 orçado em 200 mil reais (sem nenhum centavo de edital público), adiciona um tempero brasileiro ao enredo clássico de casa mal-assombrada. Na história do longa dos diretores Dante Vescio e Rodrigo Gasparini, quatro jovens decidem passar o final de semana em uma propriedade isolada. O local era, há mais de um século, a casa de um sádico produtor de mel que tinha prazer em torturar seus escravos. Quando o grupo descobre uma maldição obscura que habita o casarão, eles acabam no meio de uma batalha entre forças sobrenaturais (não darei detalhes mais específicos para não entregar spoilers). 


O que poderia ser a mera repetição de algo que já cansamos de ver nas produções hollywoodianas se torna  interessante à medida que enxergamos a presença do nosso folclore, do nosso amargo passado escravista como fio condutor da trama. Mais do que uma narrativa sobre quatro jovens tentando sobreviver, O Diabo Mora Aqui traz para o cenário do terror o embate entre o escravo negro subjugado e o homem branco dominador. Ivo Müller (Tabu), aliás, está perfeito na pele do Barão do Mel - do tom de voz ao olhar e aos gestos, o ator acerta na construção do antagonista. Claro que o mérito de o personagem funcionar deve ser dividido com o roteiro, que permite bons momentos ao vilão (como o monólogo em que ele compara os seus escravos a insetos e explica a importância de se dominar a rainha). Por esse papel, Müller recebeu o prêmio de Melhor Vilão do 7º Cinefantasy - Festival Internacional de Cinema Fantástico, realizado em setembro de 2016, na cidade de São Paulo. Outro personagem que merece destaque é o ambíguo Sebastião (Pedro Caetano), que leva o espectador a questionar até que ponto ele iria para cumprir sua missão na casa.


Apesar do orçamento limitado, a parte técnica do filme não fica devendo em nada. A fotografia, os enquadramentos e o som estabelecem satisfatoriamente a atmosfera da obra, resultando em cenas tensas como aquela que envolve uma banheira cheia de água. O uso dos ruídos também chama a atenção: não à toa, em alguns momentos, é possível notar o barulho de abelhas voando, além de outros recursos sonoros que ajudam na construção do tom do longa. 

No entanto, apesar dos méritos, O Diabo Mora Aqui possui defeitos impossíveis de ignorar. Se os personagens Barão do Mel e Sebastião foram alvo de elogios, o mesmo não se pode dizer da jovem vivida por Mariana Cortines. Longe de agradar como figura psicologicamente instável, a moça é praticamente "esquecida" pelos amigos Apolo (Pedro Carvalho) e Maria Augusta (Clara Verdier) quando o terror toma conta da velha casa e acaba recebendo um desfecho bastante óbvio e forçado. 


Falando em desfecho, é aí que reside o grande problema da produção: se, durante os dois primeiros atos, os diretores Dante Vescio e Rodrigo Gasparini vinham mostrando uma direção consistente, tudo desmorona no terceiro. A última parte da história é absurdamente apressada e confusa. Até mesmo uma coisa simples como identificar onde está cada um dos personagens na casa se torna uma tarefa ingrata para o espectador, já que a montagem e as escolhas da dupla de cineastas não ajudam em nada. Assim, o final se resume a uma sequência nada interessante e aparentemente interminável de gritos, ameaças, ataques e mortes - e tudo isso sem deixar claro de que lado da história está cada um dos personagens.

Entre tropeços e acertos, o longa serve não só como boa diversão, mas também para mostrar ao público que o Brasil produz cinema de terror - o que não deveria ser exatamente uma novidade, até porque, já na década de 1960, tínhamos José Mojica Marins e seu icônico Zé do Caixão. Se aprenderem com os seus erros, Dante Vespio e Rodrigo Gasparini têm potencial para surpreender em seus próximos projetos e ajudar na missão de tornar o terror nacional um pouco mais conhecido dentro do nosso próprio país.

por Marcelo Silva

Título Original: O Diabo Mora Aqui
Ano: 2015
Duração: 80 minutos
Direção: Dante Vespio e Rodrigo Gasparini
Roteiro: Marcel Izidoro e Rafael Baliú
Elenco: Felipe Frazão, Mariana Cortines, Pedro Carvalho, Clara Verdier, Pedro Caetano, Ivo Müller

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