Guia oficial dos filmes Slashers - Sessão do Medo

22 de outubro de 2017

Guia oficial dos filmes Slashers


Neste mês de Halloween, eu queria fazer algo especial. Nada de listas nem curiosidades, nem críticas (embora eu já tenha feita muitas nesses dias), mas queria fazer um artigo. Depois de pensar bastante, encontrei o tema perfeito. Por que não falar do meu tipo de filme de terror favorito? Os slashers! Nem precisa me conhecer pessoalmente pra saber que tenho grande afeito por esses filmes, é só ler minhas críticas publicadas aqui no Sessão.

Feito com a contribuição do Marcelo, a intenção deste artigo é falar sobre a história do slasher, desde seus primeiros passos, suas principais influências, sua era de ouro e seu "decaimento", além de analisar como o gênero poderá voltar aos holofotes num futuro próximo. Espero que gostem:

"Psicose", 60 e "A Tortura do Medo", 60

Os primeiros registros dos slashers datam nos anos 60. Ainda que o gênero não estivesse estabelecido, foi nesta década que as primeiras influências mostraram suas caras. Logo no primeiro ano, foram lançados dois clássicos que ajudariam a moldar o gênero: Psicose (1960) e A Tortura do Medo (1960). O primeiro, dirigido por Alfred Hitchcock, foi uma febre mundial e se consolidou quase que automaticamente como um dos pilares do gênero. O outro encontrou rejeição do público na época mas anos depois viria a encontrar seu público e foi considerado por Martin Scorsese (um dos maiores cineastas do nosso tempo) como um dos principais filmes para se aprender cinema.

Os dois filmes são até semelhantes. As duas obras exploram a psicopatia de dois personagens: o Norman Bates em Psicose, um dono de motel com dupla personalidade e que assume a mentalidade da figura materna para cometer seus crimes; Mark Lewis em A Tortura do Medo, um cinegrafista que filma suas vítimas enquanto as matam para registrar suas expressões de medo, devido à um tratamento que sofreu de seu pai, um psicólogo, quando era menor.

Mas o que deu o pontapé e trouxe as primeiras definições que seriam reaproveitadas nas décadas posteriores foram os giallos. O gênero do horror italiano ganhou esse nome pois giallo significa "amarelo", que era a cor das páginas de livros baratos de mistério, algo que sempre figurava tais filmes. Nos giallos, é normal termos um assassino misterioso (que geralmente só vemos suas mãos/sombra) matando as vítimas uma a uma com muito sangue e violência.

"A Garota que Sabia Demais", 63 e "Seis Mulheres Para o Assassino", 64

Em 1963, o diretor Mario Bava lançou A Garota Que Sabia Demais, também conhecido como Olhos Diabólicos, filme esse que é considerado o primeiro Giallo do cinema, tendo influência dos livros giallo e filmes do Hitchcock. No ano seguinte, Bava lançou o excelente Seis Mulheres Para o Assassino, seu primeiro filme em cores e com um cuidado visual primoroso, que serviu de inspiração para Dario Argento em seus clássicos O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), Suspiria (1977), entre outros... A influência de Bava no cinema italiano era tão grande que serviu de inspiração para diretores como Sergio Martino, Umberto Lenzi, Pupi Avati, Ruggero Deodato, Michele Soavi, Lucio Fulci, Andrea Bianchi seu próprio filho Lamberto Bava.

Embora o Giallo tenha sido bem definido com elementos próprios desse subgênero como assassinos com luva preta, investigação policial, mistério, etc... Alguns filmes lançados nos anos 70 e 80 também serviram de molde para o slasher, e podem ser facilmente rotulados como tal, como Torso (1973) do diretor Sérgio Martino e The New York Ripper (1982) de Lucio Fulci.

"Bay of Blood", 72 e "O Massacre da Serra Elétrica", 74

Na década seguinte, as coisas começaram a se movimentar para estabelecer as primeiras fases do slasher. Em 1971, Mario Bava lançava Reazione a catena, também conhecido por A Bay of Blood ou Banho de Sangue. Embora muita gente nem tenha sequer ouvido falar dessa produção italiana, ela ajudou a estabelecer vários clichês e inclusive sua estrutura (e até cenas de morte) seriam reproduzidas nos anos seguintes. Na trama, diversos personagens são vítimas de um assassino e é importante mencionar que o filme não traz um único protagonista. A história é volátil e a cada 20 minutos, mais personagens aparecem só para morrerem da forma mais violenta. A influência de A Bay of Blood é inegável e sua violência brutal ajudou a criar uma fórmula de horror que seria propagada pelo resto da década.

Tobe Hopper então fez sua obra-prima, O Massacre da Serra Elétrica (1974), que chocou as audiências e recebeu uma série de proibições em vários países por seu conteúdo perturbador, mas também no mesmo ano, houve outro contribuinte que traria mais detalhes para ajudar a criar a forma do slasher. O canadense Black Christmas, lançado por aqui como Noite do Terror. Dirigido por Bob Clark, a produção investe 100% no suspense visceral ao trazer um grupo de garotas de irmandade sendo aterrorizadas por ligações de um indivíduo na véspera de Natal.

"Black Christmas", 74 e "Halloween", 78

Um dos melhores de sua safra, Black Christmas foi tão importante e generoso para o gênero que acabou gerando outro monstro do terror: Halloween. Lançado quatro anos depois, o filme de John Carpenter é abertamente inspirado no clássico natalino, só para vocês terem noção. Juntos, os dois foram os principais precursores dos slashers na América. Halloween criou um novo rosto para o gênero, o Michael Myers. Sem contar que a performance de Jamie Lee Curtis também é grandiosa dentro do filme e a atriz viria a ser considerada anos depois a primeira scream queen oficial. Por coincidência, Curtis é filha de Janet Leigh, outra scream queen eternizada por sua infame cena do chuveiro em Psicose.

Logo após o lançamento dele, a influência já começou a ser sentida. Em 1979, Fred Walton lança seu Mensageiro da Morte, um filme problemático onde uma garota (Carol Kane) é aterrorizada por um maníaco ao trabalhar de babá de duas crianças, uma noite. O maníaco revela estar dentro da casa e assassina as crianças mas anos depois ele retorna e o detetive do caso começa a caçá-lo. O público deve ser familiarizado com a refilmagem de 2006, corretamente traduzida como Quando um Estranho Chama.

No mesmo ano também era lançado uma gema esquecida do gênero, Armadilha Para Turistas. No filme, um grupo de amigos encontram um isolado museu de estátuas de gesso comandado por um dono maluco. Um dos melhores de sua safra, o filme serviu de inspiração para A Casa de Cera (2005), embora o remake não seja oficialmente dele.

"Sexta-Feira 13", 80

Adentramos à mais uma década onde os slashers encontrariam sua era de ouro. Logo em 1980, Sean S. Cunningham lançava Sexta-Feira 13. O assassino misterioso, as "mãos" sem rosto, o suspense e a violência, tudo estava condensado lá. O cenário ser um acampamento de verão isolado, junto com os outros detalhes mencionados, fizeram a fórmula do sucesso. Com um orçamento de míseros 550 mil dólares, o filme arrecadou $59 milhões, sendo um dos grandes sucessos daquele ano e transformando a década que viria num gigante montante de filmes semelhantes.

Nos anos que se seguiram, outras produções tentavam pegar carona no sucesso de Sexta-Feira 13 e embora na época não tenham se saído bem nas bilheterias, encontraram seu lugar ao sol com o tempo e virando clássicos cults. O Trem do Terror e O Baile de Formatura fizeram sua estreia ainda em 1980 e ambos são estrelados por Jamie Lee Curtis. Chamas da MorteDia dos Namorados MacabroFeliz Aniversário Para Mim e Quem Matou Rosemary?, todos lançados em 1981. O Massacre na Festa do Pijama, outra gema esquecida, foi lançado em 1982, assim como Madman, em meio à outras sequências de franquias. Em 1983, também davam as caras o chocante Sleepaway Camp The House on Sorority Row. Posteriormente, ainda apareceriam Natal Sangrento (1984), A Noite das Brincadeiras Mortais (1986), Chopping Mall (1986), Slaughter High (1986) e muitos outros.


Muitos desses filmes tentavam criar situações novas (embora a estrutura geral sejam bem iguais) e um exemplo destas tentativas são os holiday horror, que assim como Black Christmas e Halloween, procuravam se passar em datas festivas. Exemplos: Dia dos Namorados Macabro se passava no feriado título; Natal Sangrento trazia um assassino vestido de papai-noel por conta de um trauma de infância envolvendo a fantasia; A Noite das Brincadeiras Mortais era sobre um grupo de jovens sendo assassinados no 1º de Abril; Reivellon Maldito e O Trem do Terror se passam no Ano Novo.

Em 1984, outro ícone nascia sob pele queimada, luvas de navalha e o nome de Freddy Krueger. Terceiro sucesso da carreira de Wes Craven (que contribuiu para o gênero com Aniversário Macabro, 72 e Quadrilha de Sádicos, 77), A Hora do Pesadelo foi mais um sucesso de bilheteria que trazia uma nova abordagem no subgênero, onde o vilão era um maníaco que atacava nos sonhos de um grupo de adolescentes. Se morrer no seu sonho, você morre na vida real!

"A Hora do Pesadelo", 84

Entre tantos lançamentos, as sequências ainda eram destaque. Sexta-Feira 13 lançou suas partes 2, 3 e 4 e ainda foram sucessos de bilheteria. A franquia continuaria a todo vapor (mas perdendo o público a cada capítulo) até 1989 com Jason Ataca em Nova York, a oitava parte. Em 1981, Halloween II - O Pesadelo Continua estreava nos cinemas, trazendo uma continuação direta e fiel ao original - e tão boa quanto, mas sem a direção de John Carpenter embora ele contribuísse com Debra King no roteiro. Com a história finalizada, os produtores tentaram inovar fazendo o terceiro capítulo de forma antológica sem conexão à saga de Michael Myers, resultando num fracasso e no desligamento da ideia. Em 1988, Myers retornava à sua matança com Halloween 4 - O Retorno de Michael Myers. A Hora do Pesadelo também investia fortemente em suas sequências, transformando Freddy Krueger em um ícone da cultura pop, que cantava raps (!!!) e apresentava seu próprio show de tv com contos de horror no estilo Contos da Cripta. Quem também apareceria neste período é o boneco possuído Chucky em Brinquedo Assassino (1988) e na sua sequência Brinquedo Assassino 2 (1990) - se juntando ao hall da fama do horror.

No fim da década de 80, os slashers já estavam perdendo sua força. Com tantos filmes usando quase a mesma fórmula e com tantas continuações, o público já estava cansado e rumava para outros gêneros, o que gerou um hiatus que perdurou por metade dos anos 90. De 90 até 95, poucos filmes do estilo foram lançados e uma quantidade menor ainda tinha alguma qualidade, como O Mistério de Candyman (1992) e A Hora do Pesadelo 7 - O Novo Pesadelo (1994), este último comandado por Craven e utilizando metalinguagem à gosto.

"Pânico", 96

O ressurgimento do slasher se deu com a parceria de Wes Craven, contratado para dirigir um roteiro feito por Kevin Williamson, iniciante na época. O filme em questão era Pânico, que foi produzido mas sem muita fé do estúdio e para a surpresa de todos, faturou monstruosos $173 milhões, um grande feito para: a) um filme de terror e b) um filme de terror lançado no fim do ano (Dezembro de 1996). O sucesso não foi à toa. Pânico se diferencia dos outros filmes do gênero por ter uma pegada satírica (embora o terror não seja dispensado), já que com o uso da metalinguagem, ele desconstrói os filmes slashers na intenção de ser um mais realista.

"Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado", 97 e "Lenda Urbana", 98

Assim como na década anterior com o lançamento de Sexta-Feira 13, o lançamento de Pânico resultou em uma nova onda de slashers, liderados por Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997) e Lenda Urbana (1998). O hype também fez com que outras franquias fossem revisitadas e ganhassem novos capítulos como A Noiva de Chucky (1998) e Halloween H20: Vinte Anos Depois (1998). O próprio Pânico ganhou duas sequências ainda naquela época, Pânico 2 (1997) e Pânico 3 (2000), ambas bem sucedidas nas bilheterias. A quarta parte viria a ser lançada em 2011.


Mas esse modelo de slasher "whodunnit" logo cansou o público no início dos anos 2000, o que fez com que as produtoras procurassem uma nova saída para explorar o gênero e adivinha o que acharam? Os remakes! Em 2003, Michael Bay criou a Platinum Dunes e produziu O Massacre da Serra Elétrica. O sucesso foi modesto mas considerável, fazendo com que ele apostassem em outros remakes ao longo da década como: Horror em Amityville (2005), A Morte Pede Carona (2007), Sexta-Feira 13 (2009) e A Hora do Pesadelo (2010). Fora da Platinum, as produtoras também pegaram carona e procuraram refilmar outros clássicos.

Ao longo da década, inúmeros slashers ganharam novas versões: A Casa de Cera (2005), Quando um Estranho Chama (2006), Viagem Maldita (2006), Natal Negro (2006), Halloween (2007), Dia dos Namorados Macabro 3D (2009), Pacto Secreto (2009). Não só os slashers, mas outros tipos de filmes de terror foram refilmados nos anos 2000, marcando a década como a década dos remakes.

"Terror nos Bastidores", 2015; "A Babá", 2017; "A Morte te Dá Parabéns", 2017

Novamente, o excesso de produções iguais cansaram o público e na década seguinte o terror foi tomado pelos filmes sobrenaturais, que ainda predominam as paradas até hoje embora já mostrem seu cansaço. Mas o slasher está morto? Não. Vez ou outra nos deparamos com alguns filmes que homenageiam o gênero como Terror nos Bastidores (2015) e os recentes A Babá (2017) e A Morte te Dá Parabéns (2017). Mas vocês notaram algo em comum entre esses três filmes? Todos eles são slashers com pegadas de humor.

Isso me fez refletir sobre como o slasher pode voltar à ativa na indústria do cinema. Desde que Pânico literalmente desmontou e mostrou a anatomia do gênero ao público, podemos considerar que o público realmente recebe bem esta abordagem. Talvez, de certa forma, eles não levem mais a sério o gênero e para consumi-lo, as massas precisam deste toque de humor? Claro que esta não é uma fórmula absoluta.

Marcado para Outubro de 2018 está o novo Halloween, que irá apostar 100% no suspense. O filme será produzido pela Blumhouse Productions, maior movimentadora do gênero nesta década e que também é responsável por A Morte te Dá Parabéns, que está se saindo razoavelmente bem nas bilheterias. Estaria nas mãos da Blumhouse o futuro do slasher? Se Halloween for um sucesso, podemos esperar uma nova era de assassinos? Melhor, podemos esperar os nossos ícones do terror de volta às telonas? Jason, Freddy Krueger, Leatherface e Michael Myers, todos juntos em novos filmes? Só nos resta esperar e torcer bastante para que seja possível.

por Neto Ribeiro

8 comentários:

  1. Black Christmas um dos meus filmes de terror favoritos.

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  2. Parabéns, o post ficou sensacional!

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  3. Quando eu li: "podemos esperar os nossos ícones do terror de volta às telonas? Jason, Freddy Krueger, Leatherface e Michael Myers" cheguei a me arrepiar. Seria um sonho. Principalmente ver o meu favorito Michael Myers de volta a ativa de modo épico novamente.

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  4. Anônimo10/23/2017

    Parabéns!!
    Façam mais post sobre outros generos.

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  5. Que os gloriosos anos 80 volte a tona com seus slashers

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  6. Que post maravilhoso, meu Deus. Cheguei a emocionar haha. Muitos filmes que eu não conhecia e já coloquei na minha lista para downloads futuros.

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  7. Caralho, muito bom o seu post

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  8. Anônimo7/02/2018

    Muito bom o blog. Sou colecionador e fã incondicional dos filmes Giallo e Slasher.

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