Crítica: American Horror Story - Cult | 7ª Temporada (2017) - Sessão do Medo

15 de novembro de 2017

Crítica: American Horror Story - Cult | 7ª Temporada (2017)


Atenção: O post contém alguns spoilers.

Confirmada até a nona temporada, American Horror Story entra em seu sétimo ano, com as audiências menores que às dos anteriores. Vocês se lembram que ano passado, ninguém sabia qual o tema da temporada até o dia da estreia? E que Roanoke teve uma estrutura bem diferente da já apresentada na série? Muita gente gostou, embora eu tenha considerado o formato saturado como vocês podem conferir na crítica. Apesar disso, Roanoke deu um ar de frescor para a série e as chances da temporada seguinte ser boa eram altas. Cult, teve uma divulgação mais convencional. E o propósito foi bem maior do que evitar reutilizar a estratégia de marketing da anterior.

Com a polêmica eleição de Donald Trump ano passado, Ryan Murphy resolveu tentar tocar na ferida. Como um artista gay que sempre gostou de abordar as minorias em suas produções, ele tentou abordar o clima inquieto dos Estados Unidos na trama de Cult. Mas é um tema muito delicado de se trabalhar, por diversos fatores. Não são todos os espectadores da série que são contra Trump e se o roteiro não fosse realmente bom, Cult poderia parecer uma criança mimada reclamando por ter perdido uma competição e por conseguinte, desvalorizaria a ideia que Ryan deseja passar perante àqueles suportantes de Trump. Felizmente, não é isto que acontece - totalmente - nesta temporada. 


Novamente, Sarah Paulson é a estrela interpretando Ally Maifair-Richards, uma mulher que possui várias fobias, como tripofobia (medo de buracos), coulrofobia (medo de palhaços) e hemofobia (medo de sangue). Ao longo de sua vida, ela aprendeu a controlar esses medos irracionais, principalmente com a ajuda de sua esposa Ivy (Alison Pill) e recentemente, seu filho Oz (Cooper Dodson).

As fobias de Ally voltam fortes e instáveis com a vitória de Donald Trump nas eleições de 2016, despertando sua ansiedade sobre o futuro incerto. Como se não bastasse isso, ela parece ser a única a ver uma gangue de pessoas fantasiadas de palhaços que funcionam como um culto e agem pela cidade inteira, fazendo as vítimas. 

Paralelamente, conhecemos Kai Anderson (Evan Peters). Um jovem problemático e cheio de ideais controversos e que resolve aplicá-los manipulando todos à sua volta para conseguir um cargo na política, podendo assim pô-los em prática. O personagem segue um tipo de "política do medo" e logo se revela como o líder do culto de palhaços. Outros personagens que aparecem ao decorrer da temporada também se revelam como parte do culto, mas isso vocês descobrem assistindo.


A intenção de Cult é pôr o dedo na ferida ao criticar a política americana e não só os republicanos representado por Trump, já que há alfinetadas para os democratas e nem todo personagem anti-Trump é o típico mocinho, vide a Ally. A trama tem uma pegada satírica apresentada em certos absurdos, na exageração de atitudes (ou a falta delas) e acontecimentos nos 11 episódios. A crítica social está lá, o conceito é identificável e nobre, mas a execução é falha.

O problema da temporada é o mesmo de outras passadas. É irregular. Esse reciclo de erros a este ponto do campeonato é muito frustrante pois demonstra o descaso dos showrunners com o seriado. É surpreendente como uma temporada curta de apenas 11 episódios tenha problema de ritmo. As coisas acontecem de forma repentina, sem o devido preparo. É tudo muito corrido e jogado, como se não tivesse controle e o resultado disso é uma temporada onde quase tudo soa superficial e nada crível.

A ironia marca presença quando as táticas do Kai são transpostas na própria série. O garoto quer usar o medo para amedrontar a população, chocando-os com os brutais assassinatos. Mas é exatamente isso que Cult faz, não há sustância na crítica social ou no medo, é basicamente um "tratamento de choque". Violência gráfica, reviravoltas, mas detalhes importantes como o próprio medo (um dos temas principais é "fobias") e paranoia não são de fato trabalhados. É como Demônio de Neon (2016), que critica a superficialidade mas é um filme superficial. Houve sim uma fase, entre os episódios 3 e 6, onde tudo estava excelente. Os personagens tinham o tempo em tela que requeriam, o roteiro não se atropelava e a direção estava na medida certa, mas tudo foi desconstruído no desnecessário sétimo episódio e a série perdeu o ritmo em seguida.


Outro erro já cometido em Coven, Freak Show e Hotel aparece aqui. Quando a trama vai chegando em sua reta final, os personagens começam a ser descartados em mortes sem impacto. Houve apenas uma no penúltimo capítulo que teve sua devida função e que eu gostei bastante da forma que foi abordada, mas o resto serve apenas para jogar os personagens fora quando não se sabe mais o que fazer com eles.

Um dos destaques de Cult foi, ao contrário das anteriores, a ausência de qualquer elemento sobrenatural. Talvez na tentativa de dar maior credibilidade à mensagem. Também nesta mesma linha de raciocínio, Evan Peters não só interpretou o Kai, mas outros líderes de cultos reais, como Jim Jones e o próprio Charles Manson. No geral, as encenações não adicionam muita coisa à narrativa (com exceção da de Manson que interage diretamente com ela) e dá para notar que foi apenas um award-bait para o ator.

Peters nesta temporada estava bem, embora sua atuação tenha ficado exagerada demais para o meu gosto. Seu talento definitivamente foi explorado no décimo episódio, onde o personagem ganha um foco menos caricato e mais perturbador. O modo que Kai é apresentado neste capítulo é sem dúvidas a melhor forma tanto do personagem quanto do ator. Se nos episódios restantes, Kai fosse daquela forma, sua intimidação teria sido mais poderosa, seja nos outros personagens ou no público.


Quanto ao resto do elenco, só quem se destaca é Sarah Paulson, que precisa urgentemente descansar sua imagem na série ou se tornará um rosto saturado nos próximos anos; Alison Pill e Billie Lourd, estreando no show em ótima forma; e Adina Porter, que roubou os holofotes em Roanoke e embora sua personagem atual, a repórter Beverly, não tenha sido desenvolvida de forma correta principalmente na reta final, conseguiu brilhar.

Apesar do descontrole da temporada incomode e passe a sensação que muita coisa importante ficou de fora, como ler um livro com páginas faltando, Cult não é uma das piores temporadas do seriado. American Horror Story precisa de roteiros mais focados e consistentes, como os das duas primeiras temporadas, que são de longe as melhores da franquia. Em meio à tanta megalomania, a mensagem que era para ser passada se perde e a temporada se encerra com um gosto frustrante.

Vale lembrar que a próxima temporada terá um crossover entre Murder House e Coven, embora o tema principal e a forma que as duas histórias se cruzarão não tenham sido especificadas.
por Neto Ribeiro

Criada por: Ryan Murphy
Canal: FX
Episódios: 11
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Alison Pill, Billie Lourde, Billy Eichner, Adina Porter, Colton Hayes, Leslie Grossman, Cheyenne Jackson, Frances Conroy, Emma Roberts, Dermot Mulroney, Chaz Bono, Mare Winningham, Lena Dunham, John Carroll Lynch

Um comentário:

  1. Anônimo12/11/2017

    A atuação do Evan Peters foi exagerada? Meu amigo, menos né. Respeito sua opinião, mas discordo totalmente,o cara foi o maior destaque dessa temporada deu tudo no personagem, não foi nada exagerado. E realmente muita coisa ficou corrida e mal desenvolvida, mas tudo serviu p algo sim, os flashbacks dos líderes de culto serviu pra compara-los com Kai e nos mostrar o quão perturbado e louco ele é, até mesmo o episódio 7 serviu pra algo no final, Ally.

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