Crítica: The Cloverfield Paradox (2018) - Sessão do Medo

5 de fevereiro de 2018

Crítica: The Cloverfield Paradox (2018)


Uma coisa que sempre se sobressaiu nos dois filmes da cinessérie Cloverfield são as estratégias de divulgação, que são tão fascinantes quanto os filmes em si. Em 2008, a Paramount liberou teasers misteriosos, sites secretos que levavam à pistas sobre a história, um número que quando ligado tocava sons de caos, entre várias outras coisas. Isso antes do próprio título do filme ser revelado. Já em 2016, quando ninguém esperava uma continuação de Cloverfield - Monstro, a Paramount divulgou de surpresa o teaser de Rua Cloverfield, 10 durante a exibição de 13 Horas. Em seguida, mais uma série de sites misteriosos (e aparentemente sem nenhuma ligação com a produção) revelavam dicas do que poderíamos esperar.

Essa jogada de dar algumas migalhas e deixar o público montando o pão é simplesmente excelente, principalmente ao se tratar de dois filmes que trabalham tão bem o mistério. O próprio monstro do primeiro só foi completamente avistado nas salas de cinema, tendo pequenos vislumbres em trailers e tv spots. O segundo, que trazia o segredo do bunker, também funcionou quase que perfeitamente, se não fosse o cartaz australiano que trazia a grande reviravolta do final (confira aqui).

Vale lembrar que embora Rua Cloverfield, 10 seja uma "sequência" de Cloverfield, ela é tecnicamente apenas um spin-off, visto que não há muitos detalhes que ligue os dois filmes... por enquanto. O terceiro capítulo, também tratado como um spin-off, está pronto desde o ano passado e veio sendo adiado até recentemente. A data final estava marcada para Abril e foi retirada após rumores que a Netflix estava comprando o filme. O que se confirmou neste domingo, onde o primeiro teaser de The Cloverfield Paradox (título final) foi exibido no Superbowl, além da revelação bombástica de que o filme seria lançado pelo serviço de streaming na mesma noite, após o fim do evento! Após o rebuliço, finalmente conferimos um filme. Se você leu as minhas críticas dos outros dois, já deve saber que eu sou um enorme entusiasta da franquia. E se você viu o filme, sabe que lá vem decepção.


Antes de adentrar nos detalhes de Cloverfield Paradox, é preciso compreender duas coisas: o "Universo Cloverfield", embora seja uma franquia, tem como objetivo trazer filmes essencialmente diferentes entre si, mas que são conectados de alguma maneira. Isso numa tentativa de apresentar uma variedade de subgêneros para o público. Outra coisa que precisa ser entendida é que apenas Cloverfield - Monstro foi concebido para ser parte da franquia. Rua Cloverfield10 era um roteiro chamado Valencia e que não envolvia alienígenas, assim como Cloverfield Paradox era um roteiro chamado God Particle que, novamente, não trazia estas conexões com o universo. A Bad Robot, empresa de J.J. Abrams (produtor da franquia) comprou os roteiros, que foram então reescritos para se encaixar na história geral.

Embora Rua Cloverfield, 10 tenha sido um grande acerto e esta manobra tenha funcionado, aqui não é o que acontece. Cloverfield Paradox finalmente traz algumas respostas que o público ansiava há 10 anos, mas o resto é apenas desapontante por ser um filme cheio de conflitos e falhas graves no roteiro, resultado de uma adaptação porca onde nem tudo se harmoniza. Ambientado no espaço, o filme segue um grupo de astronautas a bordo da Estação Cloverfield que são enviados para lá com a missão de ativar um acelerador de partículas que poderá resolver um grande problema de energia na Terra, prestes a colapsar em guerra. Depois de várias tentativas, a máquina funciona mas traz consequências assustadoras para a equipe.

O roteiro é de longe o maior e mais importante problema do longa-metragem. Já começando com personagens mal-apresentados e logo precipitando-se para dar início às dificuldades que eles enfrentarão, o filme perde a chance de construir uma ponte entre o público e os personagens, tornando todos, menos a óbvia protagonista interpretada pela Gugu Mbatha-Raw, apáticos e sem muitos atrativos para que possamos torcer por eles ou não.


Há uma subtrama no filme que é contada paralelamente aos aperreios da tripulação, envolvendo o marido de Hamilton (Mbatha-Raw) que está na Terra. Embora curto e talvez até mais interessante que o plot principal, não há uma concordância entre esses dois devido à montagem confusa, que pode confundir facilmente o público. Outros dois problemas gravíssimos é o humor deslocado de Mundy (Chris O'Dowd), as mortes incrivelmente aleatórias dos personagens, que não fariam diferença no resultado final, o terceiro ato forçado, uma cena extremamente expositiva no início do filme que literalmente descreve tudo que está prestes a acontecer (Christopher Nolan chora).

A direção de Julius Onah (The Girl is in Trouble) é segura mediante ao roteiro problemático e consegue extrair boas cenas de tensão, principalmente no início do segundo ato. Ele tem a ajuda de Bear McCreary, que assinou a trilha sonora de Rua Cloverfield, 10 e retorna ao trabalho com uma soundtrack enfática e bastante envolvente.

A cena final reserva uma surpresa bem vinda mas no geral, The Cloverfield Paradox deixa um gosto amargo por não se sustentar por si só. É acima de tudo uma ficção científica que parece batida, desgastada, por retratar clichês já usados e revirados em outros filmes do gênero, como Alien (1979) e O Enigma do Horizonte (1997), este último sendo uma influência clara nas alucinações dos personagens. Como já falei, a culpa está no roteiro que é uma confusão pois tenta ser vários filmes em um só e acaba virando nenhum. Na medida do possível, diverte, mas para quem estava esperando uma continuação digna, provavelmente vai ter que esperar o próximo capítulo!

por Neto Ribeiro
Título Original: The Cloverfield Paradox 
Ano: 2018
Duração: 102 minutos
Direção: Julius Onah
Roteiro: Oren Uziel
Elenco: Gugu Mbatha-Raw, David Oyelowo, Daniel Bruhl, Chris O'Dowd, Elizabeth Debicki, John Ortiz, Zhang Ziyi

3 comentários:

  1. Achei dois vídeos muito bem feitos que explicam/analisam a complexidade da obra juntando as conexões dele com o restante dos filmes.

    https://www.youtube.com/watch?v=XJksWFlA5Lk&t=4s
    https://www.youtube.com/watch?v=uT0SgoPrHCg

    Quem quiser pode procurar mais por lá nos vídeos relacionados, vale a pena em nome do entendimento.

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