Crítica: Juan dos Mortos (2011) - Sessão do Medo

19 de fevereiro de 2018

Crítica: Juan dos Mortos (2011)


"Juan de los muertos, matamos a sus seres queridos. ¿En qué puedo servirle?"

Quando uma doença misteriosa se espalha por Havana, capital de Cuba, as pessoas começam a se transformar em zumbis sedentos por carne humana. Em meio ao caos, Juan (Alexis Díaz de Villegas, que é a cara de John Turturro, seu colega de profissão americano) e seus amigos encontram uma maneira de lucrar com a situação: eles montam um grupo de extermínio de mortos-vivos e passam a cobrar pelo serviço - se algum parente estiver tentando te devorar, basta chamá-los.

Esse é o enredo de Juan dos Mortos (2011), divertidíssimo terror cômico - categoria de filmes frequentemente chamada de terrir, um terror que faz rir - produzido em parceria entre Espanha e Cuba e dirigido pelo argentino Alejandro Brugués. São deliciosos 92 minutos de zumbis sendo destroçados por tacos, estilingues, pedaços de antenas de TV e um arpão de pesca, de piadas descompromissadas no melhor estilo besteirol e sátiras políticas (afinal, é inevitável tocar em questões políticas quando se fala em Cuba).

A primeira cena do filme já diz muito sobre o protagonista Juan. Sossegado no mar enquanto o seu melhor amigo Lázaro (Jorge Molina) mergulha para capturar peixes, ele se apresenta como um sobrevivente ("Sobrevivi a Mariel, sobrevivi a Angola"), o que certamente explica o fato de encarar com visível tranquilidade o surgimento de uma horda de zumbis em Havana: é "apenas" mais um obstáculo para quem cresceu em meio a tantas adversidades. Esbanjando talento, Alexis Díaz de Villegas compõe um protagonista que está mais para um malandro do que para um clássico herói de filme de zumbi. Sendo de longe o melhor ator em cena, Villegas consegue fazer o espectador gostar do seu personagem, que passa os dias indo para a cama com a mulher do vizinho e roubando sons de carro na vizinhança - é só uma pena que o roteiro caia na tentação de usar a relação dele com a filha Camila (Andrea Duro) como uma forma de redenção para o seu passado.


A direção de Alejandro Brugués, aliás, é ótima. Além do senso de humor afiado, que resulta em cenas capazes de arrancar risadas até mesmo do espectador mais ranzinza (destaque para o momento em que os personagens tentam fazer o exorcismo de um zumbi), o cineasta ainda mostra habilidade na hora de filmar cenas de pura violência - não faltam derramamento de sangue e nem mutilações no longa - e explorar o cenário que tem em mãos. Esqueça as metrópoles americanas dos filmes de zumbis hollywoodianos. Por sua história, seu isolamento tecnológico do resto do mundo (o máximo que se vê são televisores antigos, sem nada de smartphones ou computadores conectados à Internet) e sua arquitetura repleta de edifícios antigos e mal-cuidados, Havana se mostra o palco ideal para uma invasão de mortos-vivos.

Brugués também encontra espaço para tecer comentários políticos em seu terror cômico. Quem conhece a história de Cuba, uma república socialista desde a Revolução Cubana, em 1959, sabe que ela está marcada por controvérsias, algo que o diretor não deixa passar batido. Assim, há repetidos momentos que ilustram perfeitamente o clima político da ilha caribenha. O governo, por exemplo, usa os meios de comunicação para afirmar que os distúrbios na capital estão sendo coordenados por dissidentes cubanos e pelos Estados Unidos. Em outro momento, o grupo de Juan é abordado por um militar que quer aproveitar o apocalipse zumbi para promover uma nova revolução. Já Vladi (Andros Perugorría), filho de Lázaro, afirma que sonha em fugir para um país em que as pessoas nem saibam o que é Cuba, o socialismo e Fidel Castro. Na alegoria mais clara, vemos um grupo de cubanos fugindo em balsas, uma cena que se repete na vida real, com famílias que arriscam sua vida tentando chegar ao estado da Flórida.


No entanto, Juan dos Mortos não é uma obra perfeita - o longa apresenta defeitos que são até compreensíveis por se tratar de uma produção de terror independente. Entre eles, a maquiagem bastante econômica que parece feita às pressas (em se tratando de zumbis, já vimos caracterizações melhores), efeitos especiais dignos dos anos 80 e um ator espanhol (Antonio Dechent) falando inglês com sotaque enquanto seu personagem era para ser um americano ou qualquer outro estrangeiro que não falasse a mesma língua dos cubanos. Pequenos detalhes que não comprometem a qualidade do filme, é claro.

Vencedor da categoria de Melhor Filme Íbero-Americano dos prêmios Goya (o equivalente ao Oscar do cinema espanhol), Juan dos Mortos é uma grata contribuição ao subgênero de zumbis que George A. Romero, o homem responsável pelo clássico A Noite dos Mortes-Vivos (1968), ajudou a consolidar. E, certamente, é a uma ótima oportunidade para ver um pouco da realidade cubana na tela da ficção.




por Marcelo Silva

Título Original: Juan de los Muertos
Ano: 2011
Duração: 92 minutos
Direção: Alejandro Brugués
Roteiro: Alejandro Brugués
Elenco: Alexís Diaz de Villegas, Jorge Molina, Andros Perugorría, Andrea Duro, Jazz Vilá

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