Crítica: Madre (2016) - Sessão do Medo

30 de março de 2018

Crítica: Madre (2016)


A maternidade desempenha um papel mais que importante nos enredos de terror e suspense: basta lembrar de Psicose (1960), O Bebê de Rosemary (1968), Sexta-Feira 13 (1980) e, mais recentemente, de Mãe! (2017) para se ter uma prova da predileção dos roteiristas por figuras maternas, que constituem ora a grande vítima, ora a grande vilã da história. Escrita e dirigida pelo norte-americano Aaron Burns - visto como ator nos filmes Bata Antes de Entrar (2015) e Canibais (2013) -  Madre (2016) é uma produção chilena que, embora guarde semelhanças temáticas com as obras citadas na primeira frase, está longe, muito longe de ter as mesmas qualidades.

Nos primeiros minutos, conhecemos a nada fácil rotina de Diana (Daniela Ramírez), uma mãe grávida que precisa tomar conta sozinha do filho autista Martín (Matías Bassi), enquanto o marido (Cristobal Tapia Montt) passa mais tempo viajando a trabalho do que em casa. Por conta da doença do menino, até as coisas mais simples do dia a dia, como um café da manhã ou um banho, se transformam em algo complicado. Quando tem uma crise em um supermercado, Martín é tranquilizado por uma faxineira filipina chamada Luz (Aida Jabolin), que logo é contratada para tomar conta do garoto. A primeira impressão é boa: sob os cuidados dela, os sintomas do autismo vão desaparecendo e ele vai aprendendo a se comunicar em filipino. No entanto, Diana começa a desconfiar de algo estranho na relação entre Luz e Martín - e é aí que tem início um novo pesadelo em sua vida.


O que poderia ser um thriller intrigante se tivesse caído nas mãos de um diretor talentoso - de imediato, consigo pensar em Roman Polanski à frente desse enredo - acaba se convertendo em um filme preguiçoso, batido e sonolento. Os primeiros minutos até conseguem prender a atenção do espectador e gerar uma certa comoção em torno da luta diária da protagonista para cuidar do filho (uma sequência de cenas que poderia até fazer um espectador mais desavisado pensar que Madre é um drama familiar). No entanto, todo o potencial do filme começa a desmoronar quando Aida Jabolin surge em tela: a primeira cena com sua presença é de assustar, mas não o tipo de susto que gostaríamos de encontrar em uma obra de terror. Ela assusta por ser inegavelmente ruim: Martín sai gritando pelo mercado, Luz surge, fala alguma frase em filipino e o garoto congela na hora. Tudo isso dirigido por Aaron Burns da maneira mais amadora e corrida possível.

Robótica em todas as cenas, Jabolin não transmite nada com sua personagem. O tom de voz, a postura, o olhar e os gestos da atriz nunca variam no decorrer dos mais de 90 minutos de Madre. Não se enxerga frieza, maldade, inteligência - isto é, nenhuma qualidade que torne a sua vilã verossímil o ameaçadora. Em seu primeiro papel no cinema, Jabolin leva qualquer um a torcer para que seu nome nunca mais apareço nos créditos de outro filme. Já o resto do elenco, embora não esteja tão ruim, acaba limitado pelos clichês do fiapo de roteiro: a mãe tentando convencer os outros de que não está paranoica, o marido ausente e adúltero, a criança problemática, entre outros.


Falando em roteiro, ele erra feio ao optar por um tratamento superficial e caricato sobre o autismo. Por mais que seja uma ficção e não um documentário científico, reduzir a doença a gritos, grunhidos, isolamento e atos de agressividade contra si mesmo e os outros é de uma preguiça tremenda. Tão grave quanto não ter pesquisado nada sobre o assunto é se esquivar de oferecer explicações - ou, no mínimo, pistas - sobre como Luz conseguiu minimizar os sintomas do autismo e assumir o controle sobre o garoto. Teria ela algum tipo de habilidade sobrenatural? Alguma prática terapêutica das Filipinas? Afinal, por que ela fez o que fez? São perguntas que ficam sem respostas no final apressado e previsível que ainda utiliza flashbacks para explicar partes do desfecho.

Com a chegada dos créditos finais, é difícil não se lamentar pelo fato de que um bom enredo foi perdido nas mãos de um diretor e roteirista incompetente. Como dito antes, se tivesse caído nas mãos de outro profissional, Madre certamente renderia um longa tenso e que ainda fosse capaz de discutir a questão do peso da maternidade e, claro, da xenofobia - infelizmente, a impressão que fica é que Burns apenas reforçou estereótipos sobre o Oriente. Um filme, enfim, para ser esquecido.
por Marcelo Silva

Título Original: Madre
Ano: 2016
Duração: 95 minutos
Direção: Aaron Burns
Roteiro: Aaron Burns
Elenco: Daniela Ramírez, Aida Jabolin, Matías Bassi, Cristobal Tapia Montt, Nicolás Durán


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