Crítica: Motorrad (2017) - Sessão do Medo

20 de março de 2018

Crítica: Motorrad (2017)


Exibido no Festival de Toronto ano passado, a produção nacional Motorrad estreou de forma limitadíssima em circuito comercial no Brasil, passando despercebido por boa parte do público e saindo de cartaz apenas uma semana após sua estreia, uma pena, pois Motorrad foi uma das maiores surpresas do gênero nesse começo de ano e certamente merecia uma atenção maior por parte do público. A direção do longa ficou a cargo de Vicente Amorim, que já possui uma bagagem cinematográfica de certo respeito com filmes como O Caminho das Nuvens (2003), Corações Sujos (2011), Irmã Dulce (2013), entre outras produções incluído séries de TV... Motorrad é sua primeira empreitada no gênero terror, que também assinou o roteiro em conjunto com L.G. Bayão e tendo artes conceituais dos personagens do premiado quadrinista Danilo Beyruth.

A trama é centrada em Hugo (Guilherme Prates, clone do Fiuk), que logo na primeira cena tenta furtar um carburador de um antigo ferro-velho, mas sua tentativa é frustrada ao ser descoberto pela estranha/misteriosa/atraente Paula (Carla Salle) e um senhor de idade que aparenta ser dono do local e que o recebe de forma nada amigável. Essa primeira cena é interessante pela ausência de diálogos, criando um clima estranho e estabelecendo um certo tom de frieza bem próximo a filmes distópicos como Mad Max. Mas engana-se quem acha que a produção segue esse caminho. Motorrad segue um padrão bem parecido com filmes slashers de sobrevivência como Quadrilha dos Sádicos do Wes Craven, inclusive, a ideia de motoqueiros sendo atacados em um local deserto é bem semelhante ao segundo filme lançado em 1985, mas com alguns elementos diferentes. O filme segue com Hugo concertando sua moto depois de receber de Paula o tal carburador que ele tentou furtar do ferro-velho e acompanhando o irmão e seus amigos motociclistas até uma trilha misteriosa em um local ermo cercado por um muro de pedra que não deveria estar ali. O grupo decide retirar as pedras e seguir caminho, onde mais tarde são caçados por um grupo de motoqueiros assassinos.


 A premissa é bem simples, mas o filme vai além, inserindo elementos de mistério que aparecem sem deixar pistas ou sugestão sobre as respostas e significados. O que é aquele simbolo na mão de Hugo? Que relação aquele poço tem com os assassinatos e com a Paula? Seria Paula a responsável por tudo aquilo? Existe um motivo para os assassinatos? Me peguei fazendo essas perguntas o tempo todo e isso ajudou a deixar o filme ainda mais tenso e instigante. Há também uma boa dose de violência e brutalidade nas mortes. A primeira inclusive tem um forte impacto pelo realismo, sendo, sem exagero, uma das melhores mortes que eu vi em um filme de terror recente.

Filmado inteiramente na Serra da Canastra em Minas Gerais, o filme aposta bastante no visual e na ambientação pra compor as cenas de terror e ação com vários planos abertos usando uma fotografia com cores saturadas e tons de cinza pra criar um clima desolador, que em partes funciona, principalmente em cenas menos movimentadas. É quando ganha ritmo que muito do clima perde a força, o diretor opta por uma edição muito ágil nas cenas de perseguição com muitos cortes e sequencias com câmera tremida, deixando algumas das cenas até meio confusas, como a primeira perseguição de moto por exemplo...


Depois de toda a perseguição de moto, entra em cena um terror padrão, com os personagens encontrando uma cabana vazia localizada ao lado de um estranho poço. É nesse ponto que o filme se torna mais interessante e enigmático, além de contar com alguns momentos tensos que culminam em outra cena brutal presente no trailer de forma discreta.

Com exerção do apático Guilherme Prates, que não expressa emoção em momento algum, o resto do elenco está muito bem em cena dentro do possível. O grande destaque fica por conta da Carla Salle com a personagem Paula, transmitindo ao mesmo tempo força, sensualidade e estranheza. A personagem por si só já é um dos maiores enigmas do filme.

É quase certo que o filme não irá cair na graça do grande público devido a ambiguidade do final, deixando coisas em aberto e não mastigando nada como o público atual já está acostumado. Por outro lado, há grandes chances de ser tornar um filme cultuado por uma pequena parte do público, não só pelo debate que ele gera ao final da sessão, mas também por suas qualidades como um bom filme de terror, não tão comum no Brasil. Motorrad é um filme tenso e instigante como poucas vezes visto no cinema nacional, infelizmente não ganhou o destaque que deveria nos cinemas, mas é certo que será lembrado e cultuado mais pra frente.

Por Marcelo Alves

Motorrad – Brasil, 2018
Direção: Vicente Amorim
Roteiro: L.G. Bayão, L.G. Tubaldini Jr, Vicente Amorim (baseado nos personagens de quadrinhos criados por Danilo Beyruth)
Elenco: Guilherme Prates, Carla Salle, Pablo Sanábio, Juliana Lohmann, Emílio de Mello, Emílio Dantas, Alex Nader, Rodrigo Vidigal
Duração: 92 min.

2 comentários:

  1. Cara, onde posso assisti-lo ?

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    1. Entrou em cartaz em circuito comercial, mas ficou apenas uma semana...Agora é esperar o lançamento do DVD ou lançamento em plataformas streaming!

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