"Terror brasileiro está na moda", afirma diretor de "A Mata Negra" - Sessão do Medo

12 de maio de 2018

"Terror brasileiro está na moda", afirma diretor de "A Mata Negra"

Rodrigo Aragão criando um dos monstros dos seus filmes
Se houvesse uma capital do terror no Brasil, ela certamente seria Guarapari, no Espirito Santo. A cidade de 123 mil habitantes é o berço de hordas de zumbis, de chupa-cabras, do homem do saco e de uma infinidade de criaturas que ganham as telas do cinema nos filmes do diretor Rodrigo Aragão, considerado hoje o grande nome do terror nacional.

Filho de um mágico que também foi dono de cinema, Aragão dribla a limitação de orçamento para contar suas histórias fantásticas: foi assim com Mangue Negro (2008), A Noite do Chupacabras (2011), Mar Negro (2013) e As Fábulas Negras (2015), todos longas independentes filmados na cidade natal do cineasta de 41 anos.

Cena de Mar Negro (2013)
Quem assiste a um filme do cineasta reconhece ali um estilo próprio. Em vez de replicar velhos clichês hollywoodianos do gênero terror (uma tentação para qualquer diretor), Aragão alia a pegada trash com enredos, situações e personagens tipicamente brasileiros - muitos deles, inclusive, trazem histórias inspiradas no nosso folclore. E ele é uma espécie de faz tudo: dirige, roteiriza, monta, fotografa, cuida da maquiagem e dos efeitos especiais.

No próximo dia 17, estreia A Mata Negra (2018), o mais novo filme do diretor. O longa vai abrir a décima-quarta edição do Fantaspoa, festival de cinema fantástico realizado anualmente em Porto Alegre. Na história, uma jovem (vivida por Carol Aragão, filha de Rodrigo) encontra na floresta o Livro Perdido de Cipriano e, na tentativa de trazer o amado de volta à vida, acaba libertando um terrível mal. Também estão no elenco os atores Jackson Antunes (O Palhaço), Clarissa Pinheiro (Casa Grande), Francisco Gaspar (A Estrada 47), Markus Konká (Mangue Negro), entre outros.

Poster oficial de A Mata Negra, novo filme de Rodrigo Aragão
O Sessão do Medo conversou com Aragão sobre A Mata Negra, sua carreira e, claro, sobre o cinema de terror nacional. Confira a entrevista:

Sessão do Medo: Muitas pessoas te veem como o grande nome do terror brasileiro, uma espécie de herdeiro do José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Como você vê essa comparação? O cinema do Mojica é uma inspiração?

Rodrigo Aragão: José Mojica Marins é, para mim, uma grande inspiração, uma figura única e icônica. Ele é insubstituível: acho que ninguém nunca vai ser sucessor dele porque nunca haverá alguém como o Mojica. Mas é uma grande honra para mim ser comparado a ele.

SM: Em 2008, você lançou Mangue Negro, seu primeiro longa. Nesses dez anos que se passaram, mudou alguma coisa no cinema de terror nacional? É mais "fácil" produzir um filme hoje?

Aragão: Sim. Na época, 2008 foi considerado um ano sem precedentes porque três filmes de terror estavam sendo produzidos: Encarnação do Demônio, A Capital dos Mortos e Mangue Negro. Antes disso, a produção era praticamente nula. Hoje se produz muito mais e eu acho que o terror brasileiro está na moda - a grande maioria das produtoras tem algum projeto ligado ao gênero. Estamos vivendo o nosso melhor momento, mas ainda falta muito. Até hoje não tivemos um sucesso de bilheteria dentro do terror brasileiro e eu acho que esse é o próximo degrau.

A atriz Carol Aragão em A Mata Negra

SM: O que o público pode esperar de A Mata Negra? O folclore brasileiro, as criaturas fantásticas, o derramamento de sangue têm lugar garantido no filme?

Aragão: A Mata Negra é a minha maior produção até o momento. As pessoas podem esperar uma história inusitada, com muitas viradas e toda a diversão garantida dos meus filmes. Ou seja, muito sangue, bons sustos, personagens divertidos e muita correria. O spoiler que eu posso dar é que não temos zumbis nesse filme.

SM: Muitos dos seus longas foram vistos em outros países - A Mata Negra, inclusive, teve um trecho exibido na programação do Festival de Cannes, mais precisamente na Blood Window, mostra comercial de cinema fantástico que foi realizada durante o evento. Como o público do exterior tem recebido esses filmes que possuem um tempero tipicamente brasileiro?

Aragão: Meus filmes têm uma aceitação muito melhor no exterior. Acredito que é exatamente por conta desse tempero - o tempero brasileiro é único e original. O mercado internacional do gênero terror está ávido por coisas diferentes e, nesse sentido, a América Latina tem muito a oferecer.

O ator Jackson Antunes e o diretor Rodrigo Aragão durante as filmagens de A Mata Negra
SM: Em menos de um mês em cartaz, o filme It -A Coisa (2017) levou três milhões e meio de pessoas ao cinema. Isso prova que o público brasileiro se interessa por longas de terror. No entanto, as produções nacionais desse gênero dificilmente chegam às salas comerciais. Você acha que essa realidade vai mudar algum dia? Há chances de vermos no futuro uma sessão de terror nacional lotada?

Aragão: Eu acredito que sim. Estamos produzindo mais e melhor - e o público de terror é fiel. O que nós precisamos é de filmes de terror sem vergonha do gênero. Tivemos lançamentos de filmes caros que não podem ser chamados de terror: são suspenses psicológicos. Parece que alguns diretores têm vergonha de colocar susto, sangue e de dar medo nas pessoas porque acham que isso é uma coisa pouco elegante. Existem muitos filmes de terror brasileiros que se apoiam em uma surpresa, em uma grande virada no final e aí você tem uma hora e meia de história lenta, arrastada e normalmente chata. E o público não gosta de filme chato: It prova isso quando traz uma mutilação nos primeiros cinco minutos.

SM:  O Cemitério das Almas Perdidas, seu próximo filme depois de A Mata Negra, foi autorizado pela Ancine a captar cerca de dois milhões de reais. Sobre o que vai ser esse longa? O fato de trabalhar com um orçamento maior do que o habitual aumenta, de alguma forma, a responsabilidade em entregar um material bom?

Aragão: O Cemitério das Almas Perdidas é um filme sem precedentes na história do Espírito Santo. Será um terror histórico - ou seja, nós teremos jesuítas, bandeirantes, caravelas, vampiros, tudo junto. A responsabilidade aumenta muito, mas eu e minha equipe estamos prontos para entregar um filme completamente diferente de qualquer coisa que já foi produzida e que eu tenho certeza de que vai divertir muito o público. Eu tenho plena consciência do que é usar uma verba pública e é muito importante para mim que o dinheiro seja bem investido, que as pessoas vejam o investimento na tela e que o filme pareça maior do que o seu orçamento. 

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