Crítica: As Boas Maneiras (2018) - Sessão do Medo

28 de junho de 2018

Crítica: As Boas Maneiras (2018)


As Boas Maneiras é um dos melhores filmes de terror do ano. As Boas Maneiras é um filme brasileiro. Para algumas pessoas, essas duas frases são incoerentes juntas. Ainda há um preconceito extremamente irracional do público perante o cinema nacional mas há sim obras que valem a pena conferir e melhor, apoiar. Recentemente, escrevi pro site sobre o filme Trabalhar Cansa (2011), o longa-metragem de estréia da dupla paulistana Juliana Rojas e Marco Dutra, que se reúnem novamente em As Boas Maneiras, uma excelente homenagem ao folclore brasileiro numa trama idílica sobre lobisomens. Rojas e Dutra parecem ter alcançado o ápice de seus talentos ao não fazer um terror convencional, mas uma verdadeira mistura de gêneros ("miscigenação" é com a gente mesmo) cujo resultado é nada além de fascinante. 

Atenção: os próximos parágrafos podem ter alguns spoilers. A história começa com Clara (Isabél Zuaa), uma enfermeira que reside na periferia de São Paulo e responde ao anúncio de um emprego de babá para a dondoca goiana Ana (Marjorie Estiano), que ainda está na metade da gestação mas precisa desde já de uma ajuda extra. À medida que a gravidez avança, Ana começa a apresentar comportamentos inusitados, o que chama a curiosidade de Clara. Uma vez por mês, durante uma pequena série de dias, Ana se torna sonâmbula e adquire um estranho apetite carnívoro. Em uma das ocasiões, ela caminha pela cidade de madrugada e devora um gato!

A coisa só não fica mais estranha para enfermeira por que as duas desenvolvem uma relação amorosa e há uma cumplicidade entre as mulheres, fazendo com que Clara cuide de Ana. No entanto, há uma pequena reviravolta no meio do filme, que acabou me surpreendendo por dividir a história em duas partes. Após entrar em um violento trabalho de parto, Ana morre depois que a criatura que crescia dentro dela rasgar seu caminho para fora. Mesmo assustada, Clara acolhe o bebê e a trama avança alguns anos, onde conhecemos Joel (Miguel Lobo), que foi criado por Clara sob constantes cuidados para não despertar suas origens animalescas. Isso envolve uma dieta completamente natural e sem carne e noites de lua-cheia acorrentado em um quartinho escondido dentro da casa.


Flertando com o drama, o terror, a fantasia e até mesmo o musical, As Boas Maneiras requeria um roteiro bem amarrado e uma direção ainda mais astuciosa, pois em mãos inexperientes, tudo se tornaria uma bagunça, o que felizmente não é o caso. Por mais que alguns desses gêneros não sejam geralmente vistos casados com o outro, a mistura é bem feita pois a produção consegue englobar todos os elementos de forma harmoniosa. Da trilha sonora à iluminação, dos efeitos visuais aos cenários, tudo está em seus devidos lugares.

Levando ainda mais além, é uma história que encanta. O roteiro trabalha um personagem do folclore brasileiro, o lobisomem, e há um respeito em relação à lenda brasileira. Em nenhum momento, o filme tenta "imitar" o que vem de fora. Há uma sequência bastante interessante onde Ana conta à Clara da vez em que engravidou. Ela conheceu um cara num bar e os dois foram para a floresta. Após a relação sexual, Ana acorda e o rapaz sumiu. No entanto, no meio dos arbustos, ela pôde ver os olhos amarelos de uma fera que a observava. Essa sequência é contada através de gravuras, artisticamente belíssimas e que adquire um tom de fábula (tom que está presente no filme inteiro) ao enredo. Pessoalmente, eu executaria esta cena de forma diferente (focaria apenas na Estiano narrando a situação) mas o resultado final ainda é bem feito.


E os efeitos? Estão ótimos. Foi uma surpresa pois não estamos acostumados a ver filmes nacionais com efeitos especiais sofisticados (embora tenha algumas recentes tentativas como o altamente publicizado Malasartes e o Duelo com a Morte). Contando com o apoio de uma empresa francesa especializada, as cenas são muito caprichadas e não se resume apenas à criatura (que divide a tela entre maquiagem, animatrônicos e CGI), mas também à fotografia bastante estilizada, mostrando o céu ou a cidade no fundo como algo de outro mundo, com bastante cor e destaque. Esses detalhes, como comentei lá em cima, contribuem para o clima de fantástico que o filme possui.

As Boas Maneiras não se torna apenas uma boa adição ao cinema brasileiro mas também ao subgênero de lobisomens, que convenhamos, tem poucos filmes decentes em seu currículo. Ele é justamente o que precisávamos, uma abordagem ambiciosa e rica que bebe da fonte de O Bebê de Rosemary (1968), Um Lobisomem Americano em Londres (1984), enquanto se torna um clássico próprio e independente. Por favor, confiram!

poster
ficha técnica
Título Original: As Boas Maneiras
Ano: 2018 • Duração: 135 minutos
Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra
Roteiro: Juliana Rojas, Marco Dutra
Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo
Sinopse: Ana (Marjorie Estiano) contrata Clara (Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara.

Um comentário:

  1. Filme muito bom. Tenho meus pré-conceitos quando se trata de terror nacional. Mas esse filme me surpreendeu bastante. O final deu a entender que terá um segundo longa. Recomendo para quem gosta de drama e terror.

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