Crítica: Halloween - A Noite do Terror (1978) - Sessão do Medo

21 de junho de 2018

Crítica: Halloween - A Noite do Terror (1978)


Um divisor de águas, Halloween quebrou recordes no fim dos anos 70 quando faturou $70 milhões de bilheteria tendo um orçamento "miserável" de apenas $350 mil dólares. Não só isto. Sendo um pequeno filme de terror, a obra de John Carpenter viria a se tornar um dos "pais" do slasher, juntamente com o igualmente influente (tendo influenciado o próprio Halloween) Black Christmas (1974). 

O conto de horror de um maníaco fugitivo do sanatório que aterrorizava uma jovem babá na noite de Halloween assustou as audiências numa época que era bastante fácil - comparado a hoje. Mas isso não é um demérito. O roteiro escrito por Carpenter e Debra Hill se aproveitava de uma famosa lenda urbana americana que derivou diversas variações mas o núcleo da história era sempre mesmo: uma jovem se via perseguida por um doente mental psicopata que estava dentro da própria casa o tempo inteiro. A versão mais famosa dessa história originou o supracitado Black Christmas e também um rip-off de Halloween que seria lançado um ano depois, intitulado Mensageiro da Morte (1979), mas que ganharia fama com seu remake lançado quase três décadas depois: Quando um Estranho Chama (2006). No entanto, essa reviravolta já havia sido usada e não havia necessidade de reintroduzi-la nesta nova noite de terror, certo? O que Carpenter e Hill fizeram entraria pra história do gênero, criando não só um dos filmes mais seminais do terror mas também criando uma nova face e nome para o Mal em pessoa.


Michael Myers tinha apenas seis anos quando assassinou sua irmã mais velha, Judith, na noite de Halloween de 1963. A cena é impressionante não só pela técnica utilizada (um plano-sequência em POV, sob os olhos do assassino debaixo de uma máscara), mas também por revelar no fim dela que o crime foi realizado por uma criança. Hoje em dia pode não ser muita coisa mas imagine o impacto há quarenta anos?

E isto é apenas os minutos iniciais. Voltamos à cidadezinha Haddonfield quinze anos. Conheçam Laurie Strode (Jamie Lee Curtis). Ela é a típica girl next door, adorável e inocente, mas que não vai na onda de suas duas melhores amigas, Annie (Nancy Loomis), a filha do xerife, e a fogosa Lynda (P.J. Soles). O trio se prepara para a noite de Halloween repleta de planos. Laurie trabalhará de babá para os Doyle, cuidando do pequeno Tommy (Brian Andrews), enquanto Annie ficará responsável por Lindsay Wallace, vizinha de frente de Tommy. O plano é esperar a garota dormir para receber seu namorado, Paul, mas no final das contas, Lindsay acaba ficando sob os cuidados de Laurie, enquanto Annie espera não apenas seu namorado, mas também Lynda e o namorado dela, tendo a casa dos Wallace para si.

O que todos estes jovens não esperavam é que Michael Myers fugiria do Sanatório Smith's Grove e retornaria para a cidade que cresceu. O médico que o acompanhou durante todos estes anos, Dr. Sam Loomis (Donald Pleasence), conhece seu paciente o suficiente para prever todas as suas ações e mesmo sendo contraditado, segue para Haddonfield para pará-lo antes que seja tarde demais. Mas é tarde demais. Michael já mirou em Laurie e a noite dela está prestes a se tornar um verdadeiro pesadelo.


Ao assistir Halloween, seja pela primeira vez ou pela milésima, é necessário... não, é essencial que você tenha algumas coisas em mente:

• Este não é um slasher convencional. Antes mesmo que Sexta-Feira 13 criasse um novo padrão para o subgênero, Halloween veio com o slasher "raiz", totalmente focado na atmosfera de suspense e perigo iminente do que nas mortes gratuitas e violentas. Não é à toa que aconteça apenas três mortes on-screen

• Apague tudo que você sabe sobre Michael Myers e sobre a franquia da mente. Zere. Este é o começo da história. Michael Myers é um psicopata que fugiu do manicômio e agora está usando uma máscara branca roubada e uma faca de cozinha para aterrorizar uma jovem de 16 anos e seus amigos. Esta jovem não é sua irmã. Os dois são completos desconhecidos um ao outro (embora Laurie já tenha ouvido falar sobre Michael). A ligação familiar entre os personagens foi originada na sequência Halloween II - O Pesadelo Continua (1981) e felizmente será ignorada pelo futuro reboot da Blumhouse que seguirá os eventos especificamente do primeiro e de mais nenhum. Acreditem, é uma boa decisão.


Tendo esclarecido esses dois pontos, você está pronto para aproveitar Halloween. Mesmo com apenas dois filmes em seu currículo - e nenhum deles sendo terror -, John Carpenter chutou a porta de Hollywood para fazer seu nome com a obra-prima de Halloween. Sim, o roteiro é excelente e trabalha bem a história antes de entregar um desfecho agoniante, mas é graças à direção genial de Carpenter que o filme funciona tão bem.

Com uma coordenação cinemática excelente, Carpenter nos conduz à tensão apresentando aos poucos o antagonista, que é um mistério, um enigma, não só à nossa final girl mas ao público. Dr. Loomis encontra o Xerife Brackett em uma loja que foi arrombada assim que chega em Haddonfield. "Levaram uma máscara de Halloween, uma faca de cozinha e algumas cordas", diz o xerife. Enquanto isso, sem ninguém saber, Michael passa com o carro que acabou de roubar. Suas aparições sempre são esporádicas, ao distante, e se você não conhecer sua icônica máscara, é um pouco difícil distinguir os detalhes do rosto branco e pálido que o mesmo usa.

Ao longo da noite, ele aparece na escuridão, sempre observando. Na janela. Atrás das cortinas. Na rua. No carro. Chega a um ponto que o próprio espectador procura sua máscara nos cantos mais escuros das cenas, mesmo que ele não esteja de fato nela. Esse tipo de construção do clima é o que diferencia Halloween de todos os outros filmes do subgênero e é justamente o que o destaca.


Michael Myers se torna uma entidade sem mesmo ter o sobrenatural envolvido na história. Não há explicações pro que ele fez há quinze anos e não há explicações pro que ele está fazendo agora. Ele é simplesmente o Mal e a falta de explicações é crucial para delinear esta aura mística em volta do personagem. Você não precisa saber disso. Você só precisa saber que ele não vai parar enquanto não matar quem ele quer. São poucos vilões que ganham esse poder sobre o público em seus filmes. A associação da figura ao mito do "bicho-papão", constantemente mencionado por Tommy ao longo do filme, também contribui para isto.

Alie esses fatores com a emblemática trilha sonora de John Carpenter, figurando o tema da franquia que é um dos maiores não só do terror mas do cinema, reconhecível por qualquer um com um pouco de bagagem. Não é por pouco que ela ganhou esse status. É incrível como a trilha funciona em conjunto com o filme, onde ambos se tornam uma obra só. Os arranjos criados por Carpenter assume o mesmo ritmo do longa, se tornando quase agoniante assistir a uma cena onde Michael persegue alguém ao som do piano.

Apenas um dos melhores filmes de terror da história, Halloween construiu um legado para si mesmo com as sequências que não chegam a alcançar a sua genialidade. De qualquer forma, sempre haverá o clássico original para rever quantas vezes forem necessárias, não importa quantas sequências e remakes forem lançados.
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ficha técnica
Título Original: Halloween
Ano: 1978 • Duração: 91 minutos
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Carpenter, Debra Hill
Elenco: Donald Pleasence, Jamie Lee Curtis, Nancy Loomis, P.J. Soles
Sinopse: Michael Myers, é um psicopata que vive em uma instituição há 15 anos, desde quando matou sua própria irmã. Porém, ele consegue fugir de seu cativeiro e retorna à sua cidade natal, para continuar seus crimes na localidade que, aterrorizada, ainda se lembra dele.

2 comentários:

  1. Clássico dos Clássicos parabéns pela crítica vou aguardar a do segundo filme que é meu preferido afinal tem mais mortes e perseguições :D

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  2. Algo curioso é que na cômoda do quarto de Laurie tem uma boneca semelhante a Annabelle real. Meio que um Easter Egg!

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