Terror nacional: "Se os filmes chegarem ao público, o sucesso é inevitável" - Sessão do Medo

28 de agosto de 2018

Terror nacional: "Se os filmes chegarem ao público, o sucesso é inevitável"

Joel Caetano ao lado do "mestre" Mojica durante as filmagens de um dos segmentos de As Fábulas Negras
Um gato um tanto psicótico que começa a falar com seu dono. Um homem que vê a sua esposa morrer e retornar como zumbi. As consequências trágicas de um ritual de magia negra. 

Entre os cineastas da nova safra do terror nacional, Joel Caetano, de 40 anos, certamente tem um dos trabalhos mais interessantes. À frente da Recursos Zero Produções (RZP), uma produtora independente cujo nome é justamente uma brincadeira sobre a escassez de recursos, Caetano dirigiu curtas como Minha Esposa é um Zumbi (2006), Encosto (2013) e Judas (2014). Gato (2009), um de seus filmes mais divertidos, já apareceu na nossa coluna Minuto do Medo. Nessa história com doses de humor negro e pitadas de sangue, um homem solitário (interpretado pelo próprio diretor, que costuma acumular funções em seus projetos) passa a conversar com seu animal de estimação, que de inocente não tem nada e acaba levando o coitado a desenvolver um certo comportamento homicida. 

Em A Noite do Chupacabras, Caetano interpretou o protagonista Douglas
Além dos curtas que se destacam em festivais do mundo inteiro, Caetano atuou ainda nos longas A Noite do Chupacabras (2011) e Mar Negro (2013), ambos dirigidos pelo capixaba Rodrigo Aragão. Foi de Aragão, inclusive, o convite para trabalhar em As Fábulas Negras (2015), antologia de terror sobre lendas brasileiras em que ele ficou responsável pela direção do segmento sobre a Loira do Banheiro. Nesse projeto, ele também teve o que considera uma das experiências mais incríveis da sua vida: ser assistente de direção de José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão, no trecho sobre a lenda do Saci. 

Caetano em Inside, curta de um minuto filmado com a câmera do celular
Seus trabalhos mais recentes são os curtas Casulos (2017), Inside (2018) e Scratches (2018), que têm marcado presença em festivais de cinema no Brasil e em países como Uruguai, Itália, Inglaterra, Sérvia, Canadá e Peru. Detalhe: Inside e Scratches foram filmados com a câmera de um celular. 

Caetano conversou com o Sessão do Medo sobre suas inspirações, a realidade de quem produz cinema independente e, claro, o que se pode esperar do terror nacional. Confira:

Sessão do Medo: Você pode contar sobre como surgiu esse seu interesse pelo terror? Desde criança você assistia e gostava de filmes do gênero?

Joel Caetano: O primeiro contato que tive com histórias de ficção foi com meus avós que adoravam contar “causos” sobre ataques de cangaceiros, lobisomens, visagens e do Papa-Figo (antiga lenda do folclore nordestino equivalente ao velho do saco). Histórias desse tipo foram muito importantes para minha formação e, com certeza, fazem parte do que me define como artista.

Quando criança eu gostava muito de desenhar e, influenciado pelas revistas, animações e filmes da década de 1980, comecei a produzir minhas próprias histórias em quadrinhos. Naquela época se via de tudo na TV, desde filmes de terror, aventura e ficção científica até uma boa comédia, principalmente as sacanas que passavam nas madrugadas. Talvez por isso nota-se que em alguns dos meus filmes há uma veia de humor muito latente. Costumo dizer que no cinema é tão difícil fazer rir quanto assustar.

David Bowie em Labirinto, A Magia do Tempo
Outra influência muito forte na minha carreira foram os primeiros filmes que vi no cinema. A sensação de ver Labirinto, A Magia do Tempo (1986), de Jim Henson, naquela tela enorme foi inesquecível. Me lembro de ficar tão impressionado que comecei a ter uma espécie de ilusão com as criaturas do filme, chegando a vê-las aprontando travessuras ao meu lado nas poltronas da sala de cinema. Era como se eu tivesse atravessado a barreira que existe entre sonho e realidade (o que diz muito sobre as minhas escolhas como artista também)! 

Mais tarde, quando meu pai finalmente comprou um aparelho de videocassete, tive acesso a uma grande quantidade de filmes em VHS (foi quando comecei a colecionar fitas também). A possibilidade de assistir aos meus filmes favoritos diversas vezes se tornou um prazer que carrego até hoje. Eu via diversos filmes por dia (a grande maioria eu até já tinha visto) tentando entender como foram feitas as cenas (rebobinando como um “louco” para ver os detalhes). 

Por fim, quando ingressei na faculdade (cursei bacharelado em Rádio e TV), passei a pesquisar a fundo sobre cinema e por isso acabei assistindo a todo tipo de filme possível, criando um repertório bem mais diverso, que embora tenha base nos filmes bagaceira que vi na infância, foi ampliado de forma definitiva em busca de uma aprendizado crítico e artístico contínuo, no qual me encontro até os dias de hoje.

SM: Como surgiu a produtora Recursos Zero Produções (RZP)? Trabalhar com orçamento limitado é um obstáculo?


Caetano: Sempre gostei de cinema, mas não imaginava que um dia iria trabalhar com isso, pois parecia algo muito distante da minha realidade. Essa condição só mudou na faculdade. O curso abriu a minha mente para diversas possibilidades, mas a minha paixão pelo cinema falou mais alto e logo no primeiro ano, mesmo sem muita experiência eu e Mariana Zani (minha sócia até hoje) nos juntamos a alguns amigos e fundamos a Recuso Zero Produções, que era um manifesto ao cinema sem recursos. Em 2001, quando começamos, era o início da revolução digital. Cineastas que não tinham dinheiro para filmar em película encontraram o meio de produção ideal para contar suas histórias. 

Sócia e esposa de Caetano, a produtora Mariana Zani também aparece como atriz em vários curtas do diretor;
na foto, ela em Casulos
Muito tempo se passou e a RZP Filmes já completou 18 anos, tornando-se uma produtora de cinema que já exibiu seus filmes em centenas festivais pelo mundo (agarrando inclusive prêmios internacionais), levando cursos e palestras relacionados à sétima arte por todo o Brasil. Não fazemos só filmes sem recursos, mas na nossa essência, o cinema de guerrilha sempre vai pulsar. Tenho certeza que com uma boa ideia e um bom aproveitamento dos recursos é possível fazermos ótimos filmes, mesmo que usando equipamento tecnicamente limitado. A nossa imaginação não tem limites e usar essas restrições ao nosso favor é uma exercício magnífico de criatividade.

SM: Em 2015, você foi assistente de direção do José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão, na antologia As Fábulas Negras. Como foi trabalhar com o Mojica? Entre os seus próximos projetos, há algum outro longa-metragem?

Caetano: Trabalhar com o Mojica foi uma das coisas mais incríveis que já fiz na vida. Foi realmente um presente. Ele é incrível, filma muito rápido e sabe exatamente o que quer. O que eu aprendi vendo ele trabalhar valeu mais do que um milhão de cursos que eu poderia fazer. Além disso, ele é um exemplo de humildade, simplicidade e gentileza, algo que jamais esquecerei em minha vida. Não é à toa que ele é considerado um mestre no que faz.

Na antologia As Fábulas Negras, Caetano dirigiu um segmento sobre a Loira do Banheiro
Quanto a projetos futuros, acabei de finalizar um filme do gênero drama (pasmem) chamado 7 a 1, que conta a história de um senhor de terceira idade se preparando para ver o jogo da seleção com a família. É um curta de 4 minutos, com uma história muito sensível que será lançado ainda esse ano.

Estou também escrevendo meu primeiro longa, que deve entrar em fase de pré-produção no meio do próximo semestre. O que posso dizer é que é uma história bem nonsense e será feito na guerrilha (decidi não colocar em lei para filmar mais rápido). Além disso, tenho outros projetos em parceria rolando tanto para longas, séries e curtas. A ideia é produzir cada vez mais com mais qualidade.

SM: Eu vi que você recentemente dirigiu dois curtas usando a câmera de um celular. Há muita diferença em comparação com equipamento "tradicional"? Você pretende repetir a experiência? Consegue imaginar um longa de terror inteiramente filmado assim?

Caetano: Fiz dois curtas para experimentar as possibilidades de se filmar com um celular. O que posso dizer é que facilita na questão da mobilidade, dá para você se enfiar em qualquer lugar para filmar e fazer movimentos de forma mais dinâmica. Senti falta da possibilidade de troca de lentes (apesar de já existirem lentes para celulares) e um controle melhor nos parâmetros técnicos de filmagem, mas isso tudo é contornável. Basta se planejar bem e entender as limitações do seu equipamento: ou seja, se a sua história for escrita e planejada para ser filmada se aproveitando desses recursos (ou da falta deles), com certeza você irá conseguir fazer um bom filme.

SM: Em menos de um mês em cartaz, o filme It: A Coisa (2017), lançado ano passado, levou três milhões e meio de pessoas ao cinema. Isso prova que o público brasileiro se interessa por longas de terror. No entanto, as produções brasileiras desse gênero dificilmente chegam às salas comerciais. Você acha que essa realidade vai mudar algum dia? Há chances de vermos em breve uma sessão de terror nacional lotada?

Caetano: É algo difícil de prever, mas dada a quantidade e qualidade dos filmes de gênero que estão sendo feitos atualmente pelo Brasil, é esperado que aconteça em algum momento esse tão esperado sucesso. Eu acredito que esse processo só vai ser duradouro e interessante para todos se for algo mais orgânico, sem forçar muito. E, para que isso aconteça, dependemos de uma melhora na distribuição, que é o nosso maior problema.

Joel Caetano, José Mojica Marins e Rodrigo Aragão nos bastidores de As Fábulas Negras
Os filmes são realizados, mas ficam restritos somente a festivais e plataformas digitais. As distribuidoras precisam acreditar no potencial desse material, investir e colocá-los no cinema com uma boa campanha de marketing visando à exploração desse enorme mercado cuja demanda pelo gênero é enorme. Se os filmes chegarem ao público, o sucesso é inevitável, pois há grandes trabalhos sendo feitos por todo o país.

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