Crítica: Caixa de Pássaros (2018)


Há uns dois anos, eu li um livro de suspense bastante interessante chamado Caixa de Pássaros (Bird Box). Ele se passava num mundo pós-apocalíptico onde algo (que não chega a ser especificado) pode levar as pessoas à uma loucura suicida se avistado. Nesse contexto, o único modo de sobreviver é sem sua visão. É uma leitura rápida, não chega a ter 300 páginas, mas completamente envolvente. E melhor, é quase que uma experiência cinematográfica. Enquanto lia, eu conseguia imaginar uma adaptação perfeita, o que é bem bacana.

Dois anos depois, temos esta adaptação. Sob produção da Netflix, Caixa de Pássaros ganhou vida com a oscarizada Sandra Bullock (Gravidade) no papel de Malorie, uma artista chegando no fim de sua gestação. Após ir a uma de suas últimas consultas, acompanhada da irmã Jessica (Sarah Paulson, American Horror Story), ela acaba presenciando um horror que até então, parecia estar distante. Uma onda bizarra de suicídios na Europa finalmente bate na sua porta e quando o caos está instalado, Malorie acaba se refugiando em uma casa com outros sobreviventes: entre eles, Tom (Trevante Rhodes, O Predador), Douglas (John Malkovich, Adaptação) e Olympia (Danielle Macdonald, Dumplin'), que também está grávida.

Intercalando a narrativa, nos encontramos com Malorie cinco anos depois. Com seus dois filhos, ela precisa atravessar um rio imenso para chegar a um refúgio. De olhos vendados, isso provará ser o maior desafio de suas vidas, mas para sobreviver, tudo é possível.


Eu tinha muitos receios em relação à adaptação de Caixa de Pássaros pelo fato do livro ser bastante específico em seus detalhes. O maior deles era a dúvida se iriam mostrar o que causava aquilo, criar um visual para a ameaça, ou manteriam o mistério da obra original. Bom, nisso pelo menos eles acertaram. Há uma discrição para O Problema (assim que se é referido no livro) e as cenas sabem como driblar as aparições bem.

No entanto, há vários problemas que impedem o filme de ser um dos destaques do ano. O maior deles é a direção obsoleta de Susanne Bier. A diretora parece não ter um timing para sustentar os momentos de suspense e são poucos momentos que realmente há uma tensão firme. O que se torna bastante decepcionante vide o conteúdo do livro e as inúmeras passagens onde era quase impossível respirar.

A mão de Bier soa acomodada demais e senti falta de um pouco mais de ambição para explorar as situações. Mesmo com todo aquele contexto desesperador, o filme muitas vezes não tem o clima certo. Entendemos a situação mas não a sentimos de fato. Claro que, nesse caso, a culpa está não só nela, mas também na fotografia (boa apenas nas sequências do rio) que não ajuda a construir a ambientação correta, assim como a ausência de uma trilha sonora mais marcante.


É difícil não comparar mas tomemos como exemplo o excelente Um Lugar Silencioso (2018), que tem uma premissa um pouco similar. É um filme que usa soluções muito simples para efetivar o terror. E acima de tudo, é um filme que tem uma identidade muito demarcada. Quando você lembra dele, você lembra da fotografia, lembra da trilha sonora, lembra das sensações. É uma grande experiência. Isso que falta em Bird Box.

Outro probleminha é o roteiro de Eric Heisserer (A Chegada). Ele até acerta ao adaptar algumas coisas para condensar a história, uma vez que a trama no livro se estende por meses enquanto no filme dura bem menos que isso. Mas compactar tudo isso faz com que os muitos personagens percam suas razões para estarem ali e viram apenas objetos. Ele poderia ter sido mais objetivo e diminuído um pouco a quantidade para que todos brilhassem o suficiente para que o público criasse mais empatia com eles. Além do mais, o peso de ter duas grávidas na casa durante um apocalipse é bastante amenizado nessa adaptação.


No entanto, o roteiro também é um ponto positivo em alguns momentos ao criar cenas boas que não estão no livro, como a sequência inicial de acidentes ou o embate na floresta, onde as crianças são atraídas. Esses momentos são alguns dos melhores do filme. Sandra Bullock também é um destaque, embora atrapalhada algumas vezes por Bier, juntamente com Trevante e os dois atores mirins que interpretam as crianças. 

Bird Box é um filme mediano que poderia ter sido muito, mas muito mais, se tivesse caído nas mãos de alguém com uma visão melhor para explorar toda a angústia da história. Como um suspense de fim de noite, ainda vale a conferida, mas é uma pena pois é uma adaptação que vai bem aquém do material original.

Título Original: Bird Box
Ano: 2018
Duração: 125 minutos
Direção: Susanne Bier
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich, Danielle Macdonald, Rosa Salazar