Crítica: Cam (2018)


A nova aposta da Blumhouse e Netflix se chama Cam, um intrigante thriller psicológico que aborda um tema bastante utilizado mas que, surpreendentemente, sempre consegue se reinventar: o duplo. Mesmo que já trabalhado por diversos autores, esse tipo de história ficou ainda mais conhecida com a obra "O Homem Duplicado", do escritor ganhador do Nobel de literatura José Saramago. Na trama do livro, um professor de história descobre a existência de um homem literalmente igual à si e isso leva-o à um espiral, testando os limites da sua sanidade.

Nessa nova versão, conhecemos Alice (Madeline Brewer). Ela tem uma família que a adora e vive uma vida confortável, embora ninguém conheça de fato o que a mesma faz para conseguir tanto dinheiro. Durante a noite, ela liga sua webcam e assume a personagem de Lola, uma jovem atrevida que se exibe sexualmente em sites. Sua meta é alcançar a almejada primeira posição do website, geralmente conquistada com muitos observantes durante seus shows ao-vivo. Um dia, Alice não consegue entrar na sua conta. E a situação só piora quando ela vê que há alguém, idêntica a ela, fazendo um show nesse exato momento.


O suspense parece ter sido um episódio rejeitado de Black Mirror e isso não é exatamente um demérito. No roteiro de Iza Mazzei e Daniel Goldhaber (que dirige), podemos notar um subtexto crítico bem forte, mas o mais bacana é que o roteiro não se permite tomar caminhos fáceis para concluir a história. Isso faz com que o filme assuma várias formas. Então, nós podemos escolher qual interpretação nos satisfaz mais. 

Mazzei, que é uma ex-cam girl, reflete em seu roteiro algumas situações que enfrentou e isso dá uma credibilidade maior à história e uma dimensão diferente à nossa protagonista. A ideia de Cam nasceu primeiramente na forma de um documentário para explicar o mundo de cam girls mas Mazzei achou que seria mais interessante trabalhar em um filme de horror. 

É importante mencionar esse background da mente por trás do projeto para que alguns possam entender de fato sobre o que o filme é. Com um final um pouco ambíguo, que decepciona aqueles que procuram apenas mais um terror, Cam é uma crítica não só à internet como também à sociedade. Alice é uma personagem muito bem construída por que a mesma desafia convenções e preconceitos. Como diz em certo momento, se mostrar é o que ela sabe fazer de melhor. Ela nunca foi boa em outra coisa.


Mas claro que, no fim das contas, Cam é um filme de horror que cumpre seu papel, não só de passar a mensagem mas também de causar apreensão. A direção de Goldhaber é na medida e com a ajuda do roteiro, sabe controlar o suspense a todo momento, apostando em picos de tensão como na cena em que Alice assiste uma live de sua "cópia" e a mesma parece estar indo em direção ao quarto onde ela se encontra. 

Madeline Brewer, uma excelente atriz em ascensão, foi a escolha perfeita para o papel de Alice. É incrível como ela consegue ser tão versátil em cena, além de que ela tem o visual perfeito para ser encantadora e ao mesmo tempo, amedrontadora. Brewer está atualmente brilhando na série vencedora do Emmy The Handmaid's Tale e acho que vocês deveriam acompanhar o trabalho dessa garota.

Para fechar a crítica, gostaria de salientar que Cam é um dos melhores filmes de terror do ano e é uma aposta ousada, mas completamente acertada. Com a dose perfeita de tensão e mistério, ao mesmo tempo que tem um roteiro crítico, criativo e pontual, o longa definitivamente vai continuar na sua cabeça alguns dias após a conferida.

Título Original: Cam
Ano: 2018
Duração: 94 minutos
Direção: Daniel Goldhaber
Roteiro: Isa Mazzei, Daniel Goldhaber
Elenco: Madeline Brewer, Patch Darragh, Melora Walters, Devin Druid