Crítica: A Casa que Jack Construiu (2018)


Lars Von Trier é um dos nomes mais controversos do cinema atual. Desde que começou sua carreira, há algumas décadas atrás, o cineasta dinamarquês aposta em enredos com conteúdos polêmicos que sempre geram discussão na época de lançamento. Não restringindo-se apenas ao seu lado artístico, Von Trier em si é uma grande figura. Se lembram de quando ele foi banido do Festival de Cannes após fazer comentários tronchos sobre o nazismo? Esse banimento (que durou 7 anos) chegou ao fim quando o mesmo retornou para exibir sua mais recente empreitada: A Casa que Jack Construiu. E que projeto melhor para isso se não aquele em que ele tira um verdadeiro sarro da mídia? 

Planejado inicialmente para ser uma minissérie, A Casa que Jack Construiu é um filme sobre um serial killer (fictício) que atuava nos Estados Unidos durante a década de setenta. Conhecemos Jack (Matt Dillon), um engenheiro aspirante a arquiteto, através de uma conversa sia com Verge (Bruno Ganz). Os dois estão em uma jornada e enquanto não chegam ao seu destino, Jack reconta sua história para o confidente, através de incidentes aleatoriamente escolhidos por ele.


Ao longo de 12 anos, ele praticou seus crimes. Com Transtorno Obsessivo Compulsivo, Jack é o que podemos chamar de um grande sortudo. Seus crimes, no início atrapalhados, não lhe causavam perigo. No primeiro incidente, ele relembra da vez em que matou uma irritante moça, interpretada por Uma Thurman (Kill Bill), que lhe pediu ajuda após seu carro quebrar no meio da estrada. Ao esconder o veículo de forma descuidada, ele acidentalmente o colocou em um ponto em que a polícia não passava mais. Em outro caso, após arrastar o corpo de uma vítima amarrado ao seu carro pela cidade, deixando um rastro de sangue no caminho, ele consegue se livrar através de uma bendita chuva que limpou todos os vestígios que levariam até sua localização.

Numa narrativa semelhante à que ele usou em Ninfomaníaca (2013), Von Trier constrói esse personagem que serve como espelho para suas reflexões. Ainda que possamos encarar a produção como uma história independente, sobre um serial killer relembrando seus feitos, é impossível não relacionar a personalidade de Jack com a do diretor e a forma que ele usa seus devaneios para discutir com o público e a crítica. Em certo momento, o personagem comenta sobre como há o pensamento de que "as atrocidades que cometemos em obras de ficção são desejos reprimidos que não podemos realizar na civilização". E o que está passando enquanto a conversa rola? Cenas de O Reino (1994), Dogville (2003), Anticristo (2009), entre outros. 


O único motivo de eu não ter adorado completamente A Casa que Jack Construiu é a presença do epílogo. No capítulo extra da história, intitulado "Epilogue: Katabasis" (palavra que significa "descida" em grego), Von Trier abandona o aspecto cru da trama para dar lugar a um desfecho bastante visual, um espetáculo de imagens que impressionam, mas que ainda não consigo me decidir se era de fato necessário ou não.

Por mais que, a todo momento, a assinatura de Von Trier neste longa-metragem grite ânsia pelo choque através da violência e degradação, creio que pelo menos o contexto está no lugar correto. A intenção é construir a imagem de Jack de forma vil e cruel, de modo que choca até seu companheiro em certos momentos, para que sirva de alegoria para sua própria imagem perante a comunidade artística. O diretor pode ter perdido sua essência tentando provar algo em obras anteriores, exagerando no desconforto visual (o que não é muito diferente aqui), mas dessa vez, é compreensível.

Com ótimas atuações, principalmente a de Dillon (uma escolha acertadíssima para brilhar no papel principal) e um roteiro bem consciente de sua identidade, A Casa que Jack Construiu é um filme que pode não agradar a todos - principalmente àqueles que perceberem o pedantismo da produção. Mas, se você pretende ver um filme do Von Trier, isso é o mínimo que pode-se esperar.

Título Original: The House That Jack Built
Ano: 2018
Duração: 155 minutos
Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Riley Keough, Uma Thurman, Sofie Grabol