Crítica: O Mistério de Candyman (1992) - Sessão do Medo

29 de agosto de 2015

Crítica: O Mistério de Candyman (1992)


Particularmente, acho que uma palavra que descreve perfeitamente os anos 90 no horror é reinvenção. Digamos que era difícil fazer um bom filme de horror naquela década, principalmente antes de Pânico chegar em 1996. Filmes de terror que eram lançados naquela época eram basicamente continuações de A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e Halloween, e acho que quase todos tem a consciência que tais franquias já estavam extremamente desgastadas e os filmes basicamente eram comédias. Não estou generalizando, mas é só você dar uma boa pesquisada que vai entender do que estou falando.

E naquela época, Hellraiser tinha feito um sucesso razoável, e com adaptações de Stephen King saindo todos os dias, resolveram apostar em Clive Baker. Baker tem uma coletânea de livros chamada Livros de Sangue, que cada volume possui 4/5 contos bem interessantes. Num dos volumes, há um chamado The Forbidden, ou O Proibido.  Foi assim que surgiu Candyman, uma tentativa de criar um novo ícone do horror, no melhor estilo Freddy Krueger. 

Com as recentes notificações da nova adaptação, resolvi revê-lo e acabei me deparando com um filme bem mais maduro do que eu lembrava. Indo contra a correnteza de slashers em busca de entretenimento barato, O Mistério de Candyman aposta num terror auto-consciente que não apenas se preocupa em construir o medo em volta de uma lenda urbana, mas também discutir assuntos pertinentes quando seus parceiros de gênero nem se preocupavam em buscar isso.

Virginia Madsen assume o papel de Helen Lyle, uma estudante de jornalismo que, juntamente com sua amiga Bernadette (Kasi Lemmons), está procurando finalizar sua tese sobre lendas urbanas. Em meio à pesquisas e entrevistas, ela se depara com uma lenda urbana local: a do Candyman. Reza a lenda que se você chamar pelo seu nome no espelho 5 vezes e apagar a luz em seguida, não vai sobreviver para contar a história.


Helen segue o rastro dos relatos até um conjunto habitacional comandado por gangues no bairro pobre da cidade, onde recentemente uma mulher foi assassinada na sua própria casa. Lá, ela começa a desconfiar que alguém está assumindo a imagem da lenda urbana para cometer assassinatos e seguindo esse pensamento, ela consegue fazer com que prendam um responsável.

Com a lenda do Candyman "provando-se" mentirosa, tudo se resolve para Helen... Até que o Candyman (Tony Todd) vem realmente atrás dela, tentando se vingar por ela ter tirado todo o seu poder, gerado pelo medo que as pessoas tinham na lenda. Agora, ele começa a matar pessoas próximas a ela, incriminando-a, para que Helen se entregue para ele.

Um dos fatores mais interessantes de Candyman é a forma como o filme consegue incorporar todo aquele sentimento excitante que sentíamos ao ouvir uma lenda urbana assustadora pela primeira vez. Os primeiros quarenta minutos de projeção aproveita bem os relatos de uma maneira não-óbvia, contribuindo diretamente para a construção do suspense. Em uma cena, Helen escuta a origem da lenda enquanto efeitos sonoros remontam a tragédia no fundo.

A direção de Bernard Rose é extremamente pontual ao encontrar o meio-termo entre o horror e a fantasia. Sempre aproveitando os cenários repletos de grafith (no conto original, a pesquisa de Helen é sobre artes urbanas), principalmente aqueles que envolvem o "lar" do Candyman, ele também tem jogo de cintura ao retratar não só a vulnerabilidade da protagonista nos momentos em que ela se vê encantada pelo vilão, mas também ao mostrar a imponência dele em cena. Claro que isso tudo não seria possível sem a presença de Tony Todd, escolha perfeita para o papel e que já se tornou o maior e mais memorável que ele já fez, mas também por conta da trilha sonora de Philip Glass, ainda emblemática três décadas depois.

No entanto, o que chega a me incomodar é o final (e por final, me refiro à cena final), que se encaixa perfeitamente no conceito da história, mas não funciona tão bem para mim. Ainda assim, Candyman é um dos melhores filmes de terror dos anos 90 que infelizmente não recebe o reconhecimento devido. Só não esqueçam: não diga o nome dele cinco vezes.

Título Original: Candyman
Ano: 1992
Duração: 99 minutos
Direção: Bernard Rose
Roteiro: Bernard Rose
Elenco: Virginia Madsen, Tony Todd, Xander Berkeley, Kasi Lemmons