Crítica: A Vila (2004) - Sessão do Medo

8 de março de 2017

Crítica: A Vila (2004)


Atenção: Esse post contém spoilers!

Continuando as críticas da filmografia do M. Night Shyamalan, um diretor que divide opiniões com suas produções, chegou a vez de falar de A Vila (The Village, 2004), que confesso ser um dos meus filmes favoritos do cara, apesar da recepção do público e da crítica não ter sido muito boa. Sendo seu quarto filme de suspense, Shyamalan tinha ganhado o alvoroço da indústria depois de O Sexto Sentido (1999), sendo considerado "o próximo Hitchcock". Creio que esse tipo de superestimação em cima de alguma coisa acaba ajudando para a decepção. Depois de Sinais (2002), thriller sobre aliens que teve repercussão por seu final duvidoso (não vou mentir, adoro o filme também), A Vila (2004) viria sob a pressão de ser tão bom quanto O Sexto Sentido, já que todo filme que o Shyamalan fez naquela época vinha com essa "tarefa", pelo menos aos olhos do público ou da crítica.

A história de A Vila se passa numa vila (dhã) americana no século 19. Os habitantes do lugar são forçados a viver dentro de lá e não ultrapassarem os limites da floresta por conta da existência de criaturas bizarras, chamadas por eles de "Aqueles-de-Quem-Não-Falamos", que são atraídas pela cor vermelha (além de vestirem um "capuz" da cor). A cor amarela costuma afastá-las, portanto é constantemente utilizada dentro de lá.

O lugar é comandado pelos anciões, os membros mais velhos que são interpretados por William Hurt, Sigourney Jones, Cherry Jones, entre outros atores. No entanto, a história é focada em três personagens: Lucius Hunt (Joaquin Phoenix), a jovem cega Ivy Walker (Bryce Dallas Howard) e o deficiente mental Noah Percy (Adrien Brody). Em um resumo brusco, Noah gosta de Ivy, que gosta de Lucius, embora um triângulo romântico não seja o foco da história, mas muda seus rumos na metade dela.

Acontece que quando Lucius e Ivy resolvem se casar, Noah acaba esfaqueando-o. Gravemente ferido e com poucas chances de sobreviver sem os medicamentos necessários, Ivy acaba decidindo atravessar a floresta para chegar à cidade, onde compraria os medicamentos para salvar o noivo. Depois de muita relutância, seu pai, o líder da vila, resolve deixá-la ir.


Com um elenco estelar, que varia desde os talentosíssimos Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix e Adrien Brody até grandes nomes da velha vanguarda como Sigourney Weaver e William Hurt, A Vila tem em seu ponto forte seus personagens, todos bem escritos e bem desenvolvidos. O clima de desconforto no local-título devido Àqueles-de-Quem-Não-Falamos é eficiente e a paranoia com as cores e a escuridão também ajudam. A direção de arte é exímia, caprichada ao extremo, uma pena que não foi pelo menos indicada ao Oscar, ao contrário da trilha sonora, que levou a indicação na edição da premiação de 2005.

No entanto, o "porém" está no roteiro e na reviravolta considerada por muitos frustrante. Reconheço que não foi a melhor escolha para o rumo que a história deveria tomar, mas ainda considero uma escolha bem interessante, apesar de extremamente inverossímil. Vem cá: Um grupo de pessoas cansadas da vida insegura na cidade resolvem viver em uma preserva natural por mais de 20 anos, como se estivessem no Século 19 e ninguém, digo, ninguém, nunca percebeu? Esse furo apareceu depois que o roteiro vazou na internet meses antes do filme estrear e o Shyamalan teve que alterar poucas coisas.


A versão original do roteiro tinha um final mais curto e que explicava isso. Nessa versão, ao atravessar a cerca, Ivy se deparava não com um guarda mas sim com um homem normal numa caminhonete. Ele a levava até um posto de gasolina próximo para comprar os medicamentos que ela precisa. A moça de lá explica que o lugar é uma propriedade privada, onde "ninguém vive" além de animais. Segundo ela, mandaram organizar para que nem aviões sobrevoasse a área. A propriedade pertencia à família Walker (do pai de Ivy) e o último descendente (o pai de Ivy) desapareceu há 20 anos atrás.

O que também foi considerado frustrante foram as criaturas serem o tempo todo membros da vila, usando fantasias para poder manter a população dentro dos limites. É aquele clássico detalhe nos filmes do Shyamalan que te faz pensar "Daria um filmaço se não tivessem feito isso".

Algumas pessoas consideram a escolha de Ivy ridícula, por ela ser justamente cega, mas considero que a decisão de seu pai é sincera. Até por quê Ivy e Lucius eram considerados por ele as únicas pessoas capazes de prosseguir com a ideia da vila, além de que Ivy não poderia notar as diferenças da vila pro mundo de fora. 


Embora isso seja um problema gritante para várias pessoas que odiaram A Vila, eu ainda considero uma ótima produção. É um filme que utiliza o máximo de seu suspense em uma história bem contada, onde o horror é usado apenas como elementos secundários numa obra onde a trama e o desenvolvimento dos personagens é mais importante. A direção de Shyamalan talvez seja a mais certeira dele desde O Sexto Sentido. É incrivelmente atenciosa, você percebe que ele dá mais atenção à desenvoltura do seu elenco e nas cenas que envolvem o "terror" então... Só a cena em que as criaturas invadem a vila já cumpre essa tarefa.

É um filme completamente subestimado ao meu ver e talvez funcione mais como um drama sutil do que um terror/suspense, que creio eu, era o que muita gente esperava encontrar quando o mesmo foi lançado. Se ainda não viu o filme, eu só posso recomendar e pedir para reler esse último parágrafo.
por Neto Ribeiro

Título Original: The Village
Ano: 2004
Duração: 107 minutos
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Bryce Dallas Howard, Adrien Brody, Joaquin Phoenix, Sigourney Weaver, William Hurt, Judy Greer, Cherry Jones


Description: Rating: 4 out of 5