Crítica: Distúrbio (2018) - Sessão do Medo

1 de junho de 2018

Crítica: Distúrbio (2018)


Em 2015, Sean Baker (de Projeto Flórida) mostrou que os celulares têm seu lugar no cinema ao filmar o elogiado Tangerina com a câmera de um iPhone 5S. Ainda pode ser cedo para imaginar um blockbuster sendo filmado assim, mas pouco a pouco os diretores vão descobrindo o potencial dos celulares. Vencedor do Oscar por Traffic: Ninguém Sai Limpo (2000), o veterano Steven Soderbergh decidiu experimentar a tecnologia do iPhone 7 no seu mais recente filme, o suspense Distúrbio (2018).

Na história do longa, Claire Foy (da série The Crown) vive Sawyer Valentini, uma jovem que, ao mesmo tempo em que tenta se acostumar a um emprego e a uma cidade nova, esconde um trauma difícil de ser superado. Quando decide buscar ajuda profissional, ela é enganada e internada em uma clínica psiquiátrica contra a sua própria vontade. Desesperada, Sawyer vê as coisas piorarem de vez quando descobre que David (Joshua Leonard, de A Bruxa de Blair), o homem responsável pelo trauma que carrega, trabalha no hospital e está mais obcecado por ela do que antes.

O grande trunfo do filme está na direção de Steven Soderbergh e na atuação de Claire Foy. O primeiro acerta na escolha de uma abordagem crua e fria para o filme, algo que encontra reflexo na direção de arte: nada de hospital psiquiátrico sombrio, com corredores fantasmagóricos, salas de tortura ou pacientes sinistros. O que há ali é o ambiente que, à primeira vista, parece o de um clínica comum. Soderbergh, que também assina a fotografia e a montagem do filme sob dois pseudônimos distintos, aproveita o fato de estar filmando com um iPhone para experimentar cenas um pouco diferentes. Uma delas, em que a personagem está na escuridão do porta-malas de um carro, se aproveita justamente do modo noturno de uma câmera de celular - o outro destaque vai para a sequência no bosque, no qual predominam os tons azuis, numa rima perfeita com o monólogo do início do filme e com a cor do vestido que Sawyer ganha de presente.

Steven Soderbergh filmando com um iPhone
Mais lembrada pela série The Crown, Foy é uma atriz que mostra talento desde aquela bomba chamada Caça às Bruxas (2011). Em Distúrbio, ela está ótimo como uma protagonista que parece estar sempre em desvantagem, sempre incapaz de convencer os outros de que está correndo perigo e cada vez mais longe de sair da clínica. O ápice da atuação de Foy é na cena em que Sawyer decide confrontar David no quarto de isolamento - a interpretação da atriz é tão natural que não seria surpresa se fosse revelado que ela improvisou as falas na hora. É nesse momento, aliás, que enxergamos o lado mais ardiloso da sua protagonista e passamos a vê-la não como uma vítima indefesa, mas como alguém capaz de subjugar o antagonista e levá-lo a tentar fazer algo desprezível que, a princípio, não se compreende o motivo.

Falando no antagonista, Joshua Leonard demora um pouco para convencer no papel, mas se destaca juntamente com Foy na cena do quarto do isolamento, de longe a melhor do filme. É nela que o ator deixa transparecer o lado ingênuo, solitário e indefeso de um personagem que antes parecia unidimensional. Já Juno Temple (Amaldiçoado) está irreconhecível como a perturbada Violet: se eu não tivesse visto o nome dela nos créditos iniciais, não perceberia a sua presença no longa. 

Distúrbio, no entanto, tem seus tropeços. O roteiro da dupla Jonathan Bernstein e James Greer (que antes só tinham no currículo comédias como Missão Quase Impossível) poderia ter trabalhado melhor o suspense e, principalmente, a ideia de que Sawyer poderia estar confundindo o rosto de um funcionário qualquer com o do seu stalker. Isto é, faz falta um abordagem maior da instabilidade psicológica da protagonista - a narrativa certamente só teria a ganhar caso a sanidade da jovem fosse colocada em jogo. 


Além disso, há também alguns furos e situações mal-explicadas (alerta de spoiler; pule para o próximo parágrafo caso não tenha visto o filme): David deu sorte de Sawyer ter escolhido justamente a clínica em que trabalhava ou ele entrou para a equipe do local ao mesmo tempo em que ela foi internada? Sério que ninguém se preocupou em esconder melhor o corpo de Nate (Jay Pharoah)? A morte dele ameaçava a reputação do hospital e o enterraram deixando partes do corpo à mostra?

Orçado em um milhão e meio de dólares (um valor irrisório para os padrões hollywoodianos) e filmado em apenas dez dias, Distúrbio ainda encontra espaço para tecer críticas a interesses financeiros por trás de tratamentos psiquiátricos forçados e de seguros de saúde. Mas talvez o mais importante mesmo do filme seja o fato de que ele demonstra, mais uma vez, o potencial de uma câmera de celular na hora de contar uma história: cineastas com poucos recursos e equipe reduzida podem encontrar no smartphone uma boa alternativa. Soderbergh, por exemplo, gostou tanto da experiência que pretende repeti-la em um próximo longa. E se continuarem vindo mais filmes acima da média, a câmera do celular não vai ser um problema. 

Curiosidade: O ator Matt Damon faz uma participação especial no filme como o personagem que orienta Sawyer sobre as medidas de segurança a serem tomadas.


Título Original: Unsane
Ano: 2018
Duração: 97 minutos
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Jonathan Bernstein e James Greer
Elenco: Claire Foy, Joshua Leonard, Juno Temple, Amy Irving