Crítica: O Animal Cordial (2017) - Sessão do Medo

15 de outubro de 2018

Crítica: O Animal Cordial (2017)


Dois homens armados entram em um restaurante e rendem os clientes, os funcionários e o dono do estabelecimento. 

Poderia ser um filme convencional: as pessoas começam a implorar pela liberdade, os bandidos matam alguns dos reféns, um espertinho bola um plano, alguém tenta chamar a polícia e por aí vai. Mas não. Dirigido pela estreante Gabriela Amaral Almeida (roteirista de Quando Eu Era Vivo e diretora de uma série de curtas) e produzido por Rodrigo Teixeira (de A Bruxa), O Animal Cordial é um suspense psicológico nacional que toma rumos inesperados, exibindo camadas e comentários sociais de uma maneira que um filme de sequestro genérico dificilmente conseguiria fazer.

Na pele de Inácio, Murilo Benício surge como um gigante em cena. Quem se acostumou a vê-lo em novelas globais vai se surpreender com a sua transformação em um dono de restaurante vaidoso e controlador que destila doses de psicopatia de pouco em pouco até o momento em que o seu animal interior abandona a máscara cordial. Aliás, se há algo que deixa de se esconder ali é o lado animalesco da natureza humana: e nada melhor para representar isso do que dois corpos ensanguentados copulando como hienas na savana ou uma mulher devorando um frango como se fosse um cão selvagem.


Irandhir Santos (de O Som Ao Redor) é outro que rouba a cena como Djair, o chef nordestino e homossexual - depois do dono do restaurante, o personagem mais interessante do enredo. Inteligente, decidido e de personalidade forte a ponto de bater de frente com seu chefe, ele é, entre os reféns, o que mais dá esperança ao espectador de que encontrará uma escapatória. Luciana Paes (da série 3%), por sua vez, se sai bem como Sara, a ambígua garçonete que, em meio à cega submissão a Inácio, oscila entre a loucura e a lucidez, entre o animal e o humano.

Sabendo dosar bem o ritmo de um filme que se passa em um único cenário e optando por uma fotografia em tom rubro que casa perfeitamente com o ambiente, a diretora Gabriel Amaral Almeida exibe ainda domínio de ângulos e enquadramentos, com destaque para a cena em que Inácio encara Sara com seu olhar frio e de desconfiança enquanto passa a faca no pescoço de uma vítima.


A trilha-sonora, embora tenha seus bons momentos, chega a soar excessiva e incômoda quando usada em cenas que não são chave, como a da conversa no corredor entre Inácio e Sara minutos antes da entrada dos assaltantes.

O roteiro, escrito pela própria Gabriela Amaral, é eficiente na construção dos personagens que vemos em cena, mas esbarra em alguns clichês - como o momento em que Inácio ensaia respostas para uma entrevista diante do espelho - e, talvez o maior equívoco de todo o longa, desperdiça a oportunidade de explorar a possibilidade de virada na história ou, ao menos, a tensão decorrente da acusação de um personagem que logo é deixada de lado. 

Abordando questões como relações trabalhistas e de classe, machismo e homofobia, O Animal Cordial é o retrato feroz de um país que flerta com o fascismo à beira do precipício. E, se ainda havia alguma dúvida de quem seria o candidato de Inácio nesta eleição, a frase "bandido tem que morrer", dita por ele ao policial aposentado (Ernani Moraes), já deixa claro.

Título Original: O Animal Cordial
Ano: 2017
Duração: 98 minutos
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
Elenco: Murilo Benício, Irandhir Santos, Luciana Paes, Camila Morgado, Ernani Moraes