Crítica: Aterrorizados (2018) - Sessão do Medo

23 de dezembro de 2018

Crítica: Aterrorizados (2018)


Sempre estamos reclamando de como Hollywood anda "sem ideias". Remakes para cá, reboots para lá. É uma reclamação automática já e não importa quantos filmes originais recebamos, por mais que seja em uma quantidade relativamente pouca, sempre usaremos esse discurso. Uma alternativa boa para sairmos um pouco da mesmice é procurar produções estrangeiras. Elas geralmente possuem uma lógica diferente para temas que achamos estarem batidos e nos proporciona uma visão nova. Aterrorizados (Aterrados), terror argentino que vem chamando certa atenção este ano, é uma dessas opções. 

Com um remake americano (olha só) encaminhado por Guillermo Del Toro, que contará novamente com a direção de Demián Rugna, o filme é uma aposta no sobrenatural que, por mais que no fim das contas siga sua cartela de clichês, consegue trazer novos ares para os entusiastas. Com uma pegada mais bizarra e violenta, o longa-metragem segue uma série de acontecimentos estranhos em um subúrbio de Buenos Aires. Residentes começam a ouvir vozes vindas do encanamento. Um garoto de 10 anos morre atropelado e dias depois retorna putrificado para sua casa, diretamente da cova. Um homem testemunha a inexplicável morte de sua mulher, enquanto ela levita e se choca brutalmente contra as paredes do banheiro. Esses casos, todos localizados numa mesma rua, chama a atenção de dois especialistas que se unem a um detetive prestes a se aposentar para uma investigação. No entanto, é óbvio que eles acabam pondo suas próprias vidas em perigo.


Aterrados tem uma única missão: te aterrorizar. Por mais que sua história já tenha sido reutilizada em milhares exemplares do gênero, é a sua execução que o diferencia dos ademais. O enredo contado em uma forma não-linear te deixa propositalmente perdido desde o primeiro minuto, portanto não temos um protagonista fixo. Esse esquema lembra bastante o mesmo de Ju-On: O Grito (2002), onde o foco em si está na maldição e em como ela afeta as pessoas que a cruza. 

Além de usar esse método, Rugna aposta na violência e o filme já abre numa cena extremamente gráfica onde praticamente chove sangue para todos os lados. Depois dela, você já está automaticamente preso. O mistério funciona pois conhecemos de um jeito embaralhado os personagens e como eles se deparam com aqueles acontecimentos inexplicáveis. Embora não haja muitas explicações, o que não é necessariamente um problema do roteiro, conseguimos entender que a intenção é justamente passar todo o terror da situação.


A morbidez está presente em quase todas as cenas, principalmente nas que envolvem o cadáver do garoto. A execução da sequência em que os policiais chegam à casa e conversam sobre as possibilidades em sua frente é muito adequada, pois adquire-se uma atmosfera bastante desconfortável. Digamos que não é uma imagem muito boa para os olhos.

O diretor conhece seu público e sempre que pode, tenta driblar formas convencionais de dar continuidade à seu enredo, seja visualmente ou narrativamente. A realização de algumas cenas são admiráveis, como por exemplo, uma cena em que um personagem está em seu carro e uma figura asquerosa sai das sombras para bater na sua janela. O que torna tudo mais bacana é ver um terror de baixo-orçamento com bons recursos, dos efeitos especiais à maquiagem. 


Meu problema com Aterrorizados é em relação a dois pontos. Sua diegese misturada faz com que não nos apeguemos a nenhum personagem em específico. Por mais que fosse a intenção, fez falta ter alguém para torcer e vibrar quando alguma desgraça está prestes a acontecer. Consequentemente, os personagens são apáticos e esquecíveis.

Segundo: o desfecho. A construção até então estava ótima e conseguia segurar todas as pontas, mas o final não sabe amarrar todas as linhas e conclui tudo de forma não-satisfatória, como se o roteirista não soubesse exatamente como dar um fim ao seu projeto. A última cena, ainda que estivesse no caminho certo, acaba de forma brusca e até idiota, o que é muito frustrante.

Ainda que com um enredo básico genérico, Aterrorizados vale a conferida pela abordagem ousada. Com boas escolhas cinematográficas e uma ótima seleção de elementos perturbadores em cena, o filme conseguirá mexer com seus nervos em alguns momentos. A refilmagem poderá consertar os problemas que me incomodaram, mas isso só iremos ver daqui a uns dois anos.

Título Original: Aterrados
Ano: 2018
Duração: 87 minutos
Direção: Demián Rugna
Roteiro: Demián Rugna
Elenco: Maxi Ghione, Norberto Gonzalo, Elvira Onetto