Crítica: Fragmentado (2017) - Sessão do Medo

18 de janeiro de 2019

Crítica: Fragmentado (2017)


O retorno de M. Night Shyamalan ao terror foi um acontecimento bizarro. A carreira do diretor/roteirista, impulsionada ao extremo com o suspense O Sexto Sentido (1999), foi decaindo aos poucos à medida que a qualidade das suas obras iam-se junto. Nos anos que se seguiram, Shyamalan lançou outros suspenses bons, como Corpo Fechado (2000), Sinais (2002) e A Vila (2004), mas depois disso, foi só decadência. A Dama na Água (2006), Fim dos Tempos (2008) e os abomináveis O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013) estão aí pra provar.

Mas então, a Blumhouse entrou no jogo e produziu seu comeback no found-footage A Visita (2015), thriller que acompanhava dois irmãos indo passar as férias na casa dos avós e descobrindo uma série de coisas sinistras. Dividiu as opiniões mas foi um volta sólida nas bilheterias e no gosto do público. Então, seu próximo passo foi Fragmentado. A premissa era que um cara com transtorno de personalidade (mais de 20) sequestrava um trio de garotas e a história as acompanharia tentando escapar enquanto conhecemos as facetas do sequestrador. Interessante, não?

As três moças são Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy), que após comemorarem um aniversário, são levadas por Kevin (James McAvoy), um rapaz problemático que sofre de transtorno de personalidade e tem intenções misteriosas para o trio. Toda vez que ele abre a porta, é uma pessoa diferente. Uma moça elegante, um garoto de nove anos de idade, um cara meticuloso. Mas uma coisa em comum entre todas as suas versões é que elas acreditam em algo que chamam de "A Fera", que é tecnicamente uma das personalidades de Kevin que está prestes a despertar.


Um suspense intrigante e repleto de tensão, Fragmentado mostra um pouco da ginga do Shyamalan, desaparecida há anos. Ainda que tenha alguns probleminhas aqui e ali, parece que esse é o mais próximo que vamos chegar do cara responsável por O Sexto Sentido. Com a ajuda de uma ambientação incômoda e uma trilha sonora afiada, o filme provê momentos de inquietude de roer as unhas.

James McAvoy interpreta não só Kevin mas todas as suas personalidades e o cara dá um show de atuação. A forma que o britânico rouba a cena toda vez que assume uma nova persona é muito hipnotizante e esse é sem dúvidas um dos destaques de sua carreira. Anya Taylor-Joy (que caiu na boca do povo como Thomasin em A Bruxa) surpreende e mostra que é uma nova scream-queen. Infelizmente, as outras duas por mais carismáticas que sejam não tem muita chance de provar para o que veio, visto que o roteiro as esnoba por grande parte da narrativa. Isso acaba afetando um pouco o desfecho, que não chega a ser tão impactante quanto seria se tivéssemos conhecido as garotas mais a fundo.

E se estamos falando de um filme do Shyamalan, temos que falar do final, correto? A grande surpresa, que absolutamente ninguém esperava, é que Fragmentado era o tempo todo uma espécie de sequência de Corpo Fechado, lançado dezessete anos antes. O thriller estrelado por Bruce Willis e Samuel L. Jackson buscava adaptar a história de super-herói no mundo real, sem firulas nem destruições em massa.


É uma reviravolta ousada e inesperada mas que me incomoda um pouco pois faz com que o filme mude completamente de tom na tentativa de fomentar seu próprio universo cinematográfico. E pode ser o clássico caso de final frustrante da forma que só Shyamalan sabe fazer. Ainda assim, tanto Fragmentado quanto Corpo Fechado são filmes que funcionam melhor em conjunto e não separados. Fazer parte de uma trilogia dá a eles um propósito para que eles não soem tão abruptos quanto soam individualmente.

Por um lado, fazer com que a história seja tão única ao longo da projeção para no fim conectá-la a outra tão distante pode desapontar. Ao rever Fragmentado, eu senti que acabaria preferindo que ele fosse apenas um suspense comum sobre um cara esquizofrênico que sequestra três garotas. Mas isso o tornaria comum demais e ao inseri-lo num universo que abrange muito mais do que apenas o terror o separa de outros suspenses com o mesmo estilo. No final das contas, é questão de gosto.

Apesar de tudo, é bacana ver Shyamalan em boa forma depois de tanto tempo no limbo criativo. Cada um pode julgar quais são seus problemas para com o filme mas Fragmentado é a melhor coisa que saiu da cabeça do cara em anos e isso ninguém pode negar. Mesmo que saia desapontado com o resultado final, é inegável que o longa tem seus momentos de destaque.

Título Original: Split
Ano: 2017
Duração: 117 minutos
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula