Crítica: Piercing (2019) - Sessão do Medo

20 de janeiro de 2019

Crítica: Piercing (2019)


Reed é um arquiteto bem-sucedido, casado com uma bela mulher e pai de uma garotinha recém-nascida. Mas isso não é suficiente para nutrir os desejos obscuros que ele esconde. Quando cogita matar a bebê com um picador de gelo, ele escuta a própria filha dizer que ele "sabe o que fazer". Então Reed inventa uma viagem de trabalho. Aluga um quarto de hotel. Chama uma prostituta e orquestra como será seu assassinato. No entanto, quando Jackie bate em sua porta, ele percebe que não será tão fácil seguir com seu plano.

A nova aposta do Nicolas Pesce, diretor de Os Olhos da Minha Mãe (2016), é uma adaptação do romance de Ryu Murakami, autor japonês que também escreveu Audition, adaptado pro cinema em 1999 por Takashi Miike. Na mesma veia do clássico oriental, Piercing também explora a loucura e psicopatia em dois personagens mentalmente desequilibrados, interpretados por uma dupla que possui bastante sintonia em cena: Christopher Abbott (Ao Cair da Noite) e Mia Wasikowska (A Colina Escarlate).

A história, no entanto, não segue os caminhos convencionais que todos esperam e isso pode causar desapontamento em alguns. Assim como Audition, passamos mais tempo antecipando a "desgraça" do que testemunhando-a e o foco está a todo momento na forma em que Reed e Jackie se relacionam. É quase uma história de amor destorcida.

Com uma duração curta, cerca de 80 minutos, Piercing impressiona principalmente por conta da direção de Pesce. O nova-iorquino já mostrou para o que veio em seu filme de estreia, usando e abusando do preto-e-branco para ilustrar toda a melancolia do enredo. Aqui, ele segue o caminho contrário, dando vida às sequências com um estilo inspirado nos giallos italianos e nos anos 70. Amarelo vibrante, couro, veludo vermelho, seda e até o cabelo Chanel da Mia compõe as cenas.


E essa inspiração não se manifesta apenas no visual mas também na trilha sonora, marcada por uma variedade que, por incrível que pareça, se casa bem em cena. Pegando emprestado as soundtracks do Dario Argento, ouvimos as música-tema de Prelúdio Para Matar (1975) e Tenebre (1982) e até mesmo  Tom Jobim entoando Garota de Ipanema no fundo de uma das cenas.

Indo mais além, Pesce constrói as cenas com uma meticulosidade fresca, como por exemplo, numa sequência onde Reed "ensaia" todos os seus passos antes da garota de programa chegar. Ainda que esteja sozinho e apenas gesticulando o que pretende fazer, Pesce insere no fundo a sonoplastia dos cortes, o escorrer do sangue, o desmembramento do corpo e é simplesmente... fascinante. 

Ainda que a interação dos personagens seja interessante - e deixando claro, o foco principal -, é um pouco decepcionante quando vemos o nome de Pesce antecedendo os créditos finais pois definitivamente não recebemos aquilo que fomos procurar na história. O roteiro acaba perdendo o fio da meada no meio de tantas segundas intenções.

Mas ouso falar que Piercing é um projeto bastante peculiar para se ter em seu currículo. Mesmo que o resultado não seja tão memorável quando poderia ser, o thriller consegue se sustentar com sua produção caprichada e a presença de dois atores talentosos, com destaque para a Mia Wasikowska, hipnotizante em cena.

Título Original: Piercing
Ano: 2019
Duração: 81 minutos
Direção: Nicolas Pesce
Roteiro: Nicolas Pesce
Elenco: Christopher Abbott, Mia Wasikowska, Laia Costa