Crítica: Rastros de um Sequestro (2017) - Sessão do Medo

6 de janeiro de 2019

Crítica: Rastros de um Sequestro (2017)


Não é de hoje que o cinema sul-coreano se destaca: grande parte da projeção internacional se deve ao sucesso de Oldboy (2003), suspense do diretor Park Chan-wook premiado no Festival de Cannes. De lá para cá, a produção do país foi ganhando uma visibilidade crescente - Invasão Zumbi (2016), A Criada (2016) e Em Chamas (2018) são alguns títulos que recentemente passaram pelas salas de exibição no Brasil.

Assim, não é surpresa encontrar em Rastros de um Sequestro (2017) mais um exemplar de qualidade do cinema sul-coreano. Elenco afinado, narrativa bem engendrada e rigor técnico sustentam o suspense do diretor Jang Hang-Jun. Disponível no catálogo da Netflix (que comprou os direitos de distribuição do longa), o filme gira em torno do jovem Jin-Seok (Kang Ha-Neul), que acaba de se mudar com a sua família para uma casa nova. Certa noite, o rapaz presencia o irmão mais velho Yoo-seok (Kim Mu-yeol) ser sequestrado - ele reaparece 19 dias depois, sem se lembrar de nada do sequestro. No entanto, Jin-Seok começa a estranhar o comportamento do irmão e o fato de sair de casa no meio da noite. Convencido de que a pessoa que voltou não é Yoo-seok, ele decide investigar por conta própria. 


Estabelecendo, nos primeiros minutos, a rotina de uma família feliz, Hang-jun permite ao elenco explorar a camada amistosa dos seus personagens. Seria uma tremenda injustiça não destacar a performance de Kim Mu-yeol, impecável na pele do irmão talentoso, responsável e admirado pelo protagonista, como ele mesmo afirma em determinado momento. E, aqui, há de se admirar também - alerta de spoiler (caso não tenha visto o filme pule para o próximo parágrafo) - a maneira como Mu-yeol alterna dois personagens tão distintos ao mesmo tempo. Acusado por Jin-Seok de ser um farsante, Yoo-seok não altera o tom de voz amigável ou o semblante calmo ao falar com o irmão pela porta do banheiro, por exemplo. O trabalho do ator é tão bom que fica até difícil acreditar que estamos diante de um homem violento e calculista disposto a arriscar o que for necessário para descobrir a verdade sobre o seu próprio passado. (fim do spoiler)

Com direito a flertes com o gênero terror (como os barulhos vindos do quarto trancado e o pesadelo de Jin-Seok), Rastros de um Sequestro ainda capricha na parte técnica, especialmente em relação à fotografia, montagem e trilha sonora. Se o recurso da câmera tremida é uma tentação para muitos cineastas na hora de filmar cenas de correria, o longa sul-coreano vai na direção contrária, mostrando com clareza o que ocorre na tela, principalmente no momento em que o personagem principal é perseguido por dois homens em uma espécie de labirinto. 


O filme, por outro lado, esbarra em um problema comum ao desperdiçar um bom tempo da projeção com explicações e justificativas mastigadas para o público. Usando e abusando de flashbacks e diálogos expositivos, o diretor Hang-jun dedica praticamente o seu terceiro ato inteiro a revelações. Se levado em conta que o longa tem quase duas horas de projeção, uma decisão mais sábia seria entregar essas surpresas no desenrolar da trama, permitindo, assim, que o espectador vá fazendo as descobertas pouco a pouco juntamente com o protagonista. Deixar que personagens expliquem as suas motivações em falas expositivas - algo semelhante àqueles clichês de desenhos de super-herói em que o vilão conta todo o seu plano antes de ser derrotado - é, sem dúvida, muito menos atrativo.

Título Original: Gi-eok-ui bam
Ano: 2017
Duração: 108 minutos
Direção: Jang Hang-jun
Roteiro: Jang Hang-jun
Elenco: Kang Ha-neul, Kim Mu-yeol, Na Young-hee, Moon Sung-Keun