Crítica: Apóstolo (2018) - Sessão do Medo

5 de fevereiro de 2019

Crítica: Apóstolo (2018)


Se você quer chamar minha atenção para um filme, só me diga que ele envolve seitas e eu estou completamente dentro. Já comentei em alguns posts sobre esse meu interesse, mas de alguma forma, terror com cultos me deixam mais "cabreiro" que o normal e consequentemente, as chances de eu sentir alguma coisa (medo, tensão ou algo semelhante) são bem maiores. Para minha sorte, ano passado tivemos alguns exemplares. Hereditário (2018) foi uma experiência cinematográfica traumatizante e acabou se tornando um dos meus favoritos da vida; Suspiria (2018) adaptou a obra clássica de Dario Argento de forma independente e ousada; e Apóstolo trouxe Gareth Evans apostando num suspense mais enervante mas sem perder a sua mão pesada para a violência.

Em parceria com a Netflix, Evans (Operação Invasão) produziu esse horror de época nos moldes de O Homem de Palha (1973) e A Vila (2004). Situado nos primeiros anos do Século 20, o enredo acompanha Thomas (Dan Stevens), um forasteiro que viaja até uma ilha reclusa comandada por um grupo religioso em busca de sua irmã, sequestrada pelo mesmo. Infiltrado, Thomas precisa evitar as desconfianças do profeta Malcolm (Michael Sheen) enquanto tenta desvendar os planos obscuros do culto.

A recepção tímida e sem muito impacto de Apóstolo é uma prova que a própria Netflix não sabe divulgar muito bem suas produções. É só comparar com Bird Box (2018), exaustivamente promovida nos confins da internet mesmo sendo um suspense meia-boca. Mesmo assim, deve-se admitir que Apóstolo tem dois fatores que imediatamente o afastam do público mainstream: é um terror slow-burn, um pouco lento e não é exatamente o filme pipoca que muitos procuram; segundo, é um filme de época.

Isso vai doer...

Mas se você gosta dessas duas características, elas não serão empecilho, visto que justamente elas são o que há de melhor no longa. São um pouco mais de duas horas de duração, então já podemos perceber que o roteiro de Evans não atropela história. É importante deixar o público absorver a paranoia que permeia o enredo já que a trama no primeiro ato revolve em torno dela. Apresentando pequenos costumes "bizarros" do culto pagão, acompanhamos Thomas tentando descobrir o paradeiro da sua irmã enquanto despista os membros, que estão cientes que há um espião na ilha.

Os passos lentos servem para preparar o terreno para a segunda metade do filme, quando as coisas começam a ficar mais insanas. Subplots começam a convergir e Thomas vai descobrindo os segredos da seita. A coisa se torna mais sinistra por ter aquela estética de época, que casa perfeitamente com o clima que o filme procura instalar.

O mais legal é que o roteiro não se escora no horror e busca também desenvolver seus personagens, seja o jovem casal "proibido" ou a relação instável entre os três fundadores do culto, envolvidos num jogo de poder e ambição que acaba se tornando o maior foco do longa, quando chegamos a um ponto em que tememos mais a natureza dos personagens do que a natureza do oculto. No entanto, isso acaba afetando justamente o desempenho do protagonista, que é ofuscado por quase todos na trama, mesmo que tenha sua própria história, como um ex-missionário cristão com a fé abalada.

De qualquer forma, Apóstolo guarda suas próprias surpresas que obviamente não irei comentar. Aproveitando todo o horror em sua essência, Evans entrega que pode não ser exatamente original, mas consegue ser bastante intenso e se destaca na multidão (não é à toa que figurou nosso Top 10 do ano passado). Então peguem o balde de pipoca, esperem a madrugada chegar e não percam!

Título Original: Apostle
Ano: 2018
Duração: 129 minutos
Direção: Gareth Evans
Roteiro: Gareth Evans
Elenco: Dan Stevens, Lucy Boynton, Michael Sheen, Bill Milner, Kristine Froseth