Análise: "Boneco do Mal" e o contexto sexista - Sessão do Medo

21 de março de 2019

Análise: "Boneco do Mal" e o contexto sexista


Lançado em fevereiro de 2016, o longa Boneco do Mal (The Boy) sobressaiu na bilheteria, enquanto o enredo recebeu uma enxurrada de avaliações medianas a ruins, tornando o veredito final de um filme duvidoso. 

Greta Evans (Lauren Cohan) é uma mulher americana contratada para ser babá numa pequena vila inglesa. Ao chegar lá, a moça descobre que não irá cuidar de um garoto de 8 anos como esperava, e sim, de um boneco que o substitui há 12 anos, graças à forma que os pais arranjaram para lidar com o luto. Não bastando ter que cuidar de Brahms (como o boneco é chamado), Greta precisa seguir uma lista de regras, e ir contra elas acarreta consequências "inimagináveis".

Vendido como um filme de boneco assassino com teor sobrenatural, Boneco do Mal foi o tipo de filme que investiu em parecer o que não era, para depois trazer a virada com um plot twist. De fato, a reviravolta funcionou e foi o que não torna a película tão esquecida; em contrapartida, exercer esse papel de falsas impressões para fisgar a audiência acabou acrescentando para um dos pontos negativos, uma vez que a direção se apoiou firmemente em artimanhas previsíveis para contar sua história. Logo, construir o terror psicológico almejado foi frustrado por escolhas ruins para uma trama que poderia ser melhor.

Dito isso, para irmos mais a fundo, aviso que a partir do próximo parágrafo o texto terá SPOILERS, então se você ainda não assistiu ao filme - ou decidiu assistir esse ano, como eu - leia por conta e risco ou volte quando assistir, combinado?


Tratando do terror em modo geral - principalmente com o slasher - é notável o quanto o gênero apelou e apela para estereótipos sexistas para contar a sua história. No nosso caso, em menos de 15 ou 10 minutos de filme, enquanto Greta está conhecendo a grande casa a qual irá trabalhar, não demora muito para surgir o típico interesse amoroso. Se Malcolm (Rubert Evans) paquerou toda babá contratada ao longo de 12 anos não sabemos, mas o que o personagem se resume é: forçar situações, flertar e querer proteger a personagem de Lauren.

Malcolm nada mais é que um dono de mercado que faz entregas na residência dos Heelshire (os pais de Brahms), e por que não uma mulher para substituir esse papel? Simplesmente o filme reforça a ideia de que mulher precisa de um par romântico ou seria demais deixar só o protagonismo de Greta enquanto lidava com o boneco?

O segundo exemplo ficamos a par aos poucos, e implica duas questões. Em algumas das poucas conversas que Greta tem ao telefone com sua irmã Sandy (dublada por Stephanie Lemelin), sabemos que um dos objetivos ao qual Greta aceitou o trabalho é porque precisava de um tempo para encarar a saída recente de um relacionamento abusivo com Cole (Ben Robson). Nesse ponto, porque não outro tipo de desenvolvimento para a personagem, além de um namoro conturbado?

A segunda questão envolve a chegada do mesmo a casa onde Greta se encontra, o que o filme não deixou de sugerir que aconteceria. Nisso, o que Cole desempenhou foi voltar a reproduzir os comportamentos abusivos de outrora, e determinar o que Greta deveria ou não fazer, e quando.


Considerado por muitos como os 20 minutos mais vantajosos do filme - sendo sincero, é a única deixa onde pudemos ver o terror -, a reviravolta pode ter sido bem pensada, mas a forma como foi executada relevando técnicas interessantes de William Brent Bell (de Filha do Mal) é notável. Sendo responsável por costurar de vez todos os detalhes espalhados para que entendêssemos o que aconteceu a Brahms, o final elogiado é também uma ponte para o terceiro exemplo sexista.

Quando criança, Brahms tinha uma amizade com uma garota, Emily Cribbs (Lily Pater) a qual faleceu no dia em que o garoto completou 8 anos. Coincidentemente, quando os Brahms foram convidados a depor, a casa em que moravam estava em chamas. Os pais conseguiram se salvar, mas o filho não. Pouco antes do ato final do filme, foi nessa história que fomos conduzidos a acreditar e que, provavelmente, o boneco era mesmo possuído pelo espírito da criança.

Na explosão do ápice, descobrimos que na verdade Brahms continuava vivo, morando no porão da casa e que para proteger o filho, os pais disseram que ele tinha morrido no incêndio. Desde então, foi alimentada a história do luto e a busca de babás durante 12 anos para cuidar do boneco. Por trás de todo lance sentimental, Greta assim como outras que trabalharam na casa apenas foram extensão para os caprichos do garoto com a face desfigurada e que não poderia arriscar em se relacionar, além do medo de ser exposto ou de não gostarem de sua aparência - mas se era inocente pela morte de Emily, porque forjar o seu falecimento?

A solução foi sustentar a mentira com o boneco para que então Brahms pudesse observar as babás que, caso não cumprissem as regras de cuidado, eram punidas com falsas manifestações sobrenaturais enquanto o jovem de 20 anos focava em objetificar as moças que não poderia tocar.

Com isso, fica claro o contexto sexista que Greta se viu envolvida durante a história do filme: nada de sua própria história, a não ser como uma vítima num estereotipo amoroso, relacionamento abusivo e ser manipulada com o medo de um boneco assombrado para agradar um homem. Escrito pela mesma roteirista Stacey Menear, seguindo a direção de William Brent Hell, a sequência de Boneco do Mal segue em produção sem data de lançamento prevista.