Crítica: Não Olhe (2019) - Sessão do Medo

1 de março de 2019

Crítica: Não Olhe (2019)


Apesar da porrada de longas de terror duvidosos que assistimos ao longo do ano, são pouquíssimos os que se enquadram como exceção. Ás vezes as boas intenções não vão muito longe e terminam brevemente caindo no esquecimento, e o que veio para ser um diferencial fracassa antes de poder chamar atenção. Não Olhe está distante de trazer algo novo em sua temática, contudo, mesmo com inconsistências é interessante de conferir.

Em meio a tanta pressão envolvendo suas inseguranças, bullying sofrido, o receio em se sentir a vontade para ser mais honesta e outras ideias reprimidas, Maria (India Eisley) encontra em seu reflexo no espelho o refúgio que precisava para expor seus sentimentos. Mas o que acontece quando você deixa de ser quem é?

Não muito conhecido, porém comprometido com o gênero do drama, Não Olhe é o primeiro trabalho de Assaf Bernstein investindo num thriller e terror psicológico. Envolto num ritmo primeiramente lento, é um intermédio necessário conforme vamos adentrando ao mundo de Maria e as implicações com as pessoas ao seu redor. A amiga nada verdadeira que ela acredita que se refere a alguém que a ama, as cobranças do pai sobre estar sempre bonita, as insistências da mãe em tentar entendê-la, o garoto ao qual é apaixonada, mas não conversa a respeito e o bully da escola que frequenta. Tudo isso acarreta um turbilhão de coisas que a jovem precisa lidar, mas não consegue romper com as barreiras internas.


No momento em que se fica por dentro da trama do filme, ou assiste ao trailer é inevitável a noção de que sabe o que vai acontecer. De fato, o longa se lança em fazer exatamente o esperado, mas o que acrescenta de maneira louvável e consegue superar o seguimento de componentes adolescentes manjados (tanto que não faz questão de ir a fundo), é o que tem a contar acerca dos personagens, não os usados para subtextos óbvios, mas a trindade principal: a mãe, Amy (Mira Sorvino), o pai Dan (Jason Isaacs) e a filha.  

O relacionamento entre os três é complicado, e um dos pontos principais que deixa a desejar para compor a hostilidade é a condução de Assaf. Verdade seja dita, Maria e interpretação de India Eisley (a pequena Eve, filha de Selena em Anjos da Noite: O Despertar)são as melhores coisas do filme. É de encher os olhos como, de maneira grandiosa India carrega a dualidade do seu papel, ora sendo a versão conservada de si, orando se permitindo ser o oposto (a Airam) e explodir contra tudo que lhe abala - caindo para uma impulsividade e violência gratuita que faz o bom desenvolvimento perder o brilho. 

Dando mais importância para a protagonista, em consequência, os conflitos também significativos dos pais ficam num plano mínimo e esquecido de ser melhor explorado, uma vez que são aspectos que se conectam para a personalidade de Maria. E usar o terror, traumas e sangue para transparecer as individualidades paternas, acabam que algumas ideias são expostas em detalhes, outras colocadas em sequências inapropriadas para narrativa, como quando o filme parecia ir atingir o clímax, mas estava lá uma nova informação sendo inserida.


Funcionando mais como um suspense do que terror, Assaf pelo menos conseguiu explorar junto ao o gênero as questões psicológicas dos personagens, mesmo com uma execução abaixo da média.

Não Olhe pode não ser um representante certeiro para o terror, mas poderá ser lembrado por aproveitar um elenco intrigante em um projeto arriscado. O fruto para quando perdemos o controle, ou se ficamos presos a uma ferida por não saber como tratar ou quando nossa busca por perfeição é tão vã que nos tornamos cegos sem atentarmos a quem magoamos, é necessário olhar para dentro do que insistir em ignorar.


Título: Look Away
Ano: 2018
Duração: 103 minutos
Direção: Assaf Bernstein
Roteiro: Assaf Bernstein
Elenco: India Eisley, Mira Sorvino, Jason Isaacs, Penelope Mitchell, John C. MacDonald