Crítica: Nós (2019) - Sessão do Medo

22 de março de 2019

Crítica: Nós (2019)


O Oscar que Jordan Peele ganhou ano passado pelo roteiro de Corra! (2017) é definitivamente um dos mais merecidos desse século, e não falo isso por puro orgulho de um terror sendo indicado em 4 categorias principais, incluindo Melhor Filme, depois de tanto tempo de esnobação pela Academia. Falo isso porque ele conseguiu fazer o que poucos fazem: conseguir debater assuntos tão pertinentes de uma forma tão original e relevante em um gênero escorraçado e ainda conseguir levar um Oscar por isso!

Não foi à toa que Peele começou a ser chamado de Mestre do Horror em ascensão, mesmo sendo um comediante (de primeira) e tendo feito apenas um filme. O tratamento com o cineasta foi semelhante ao tratamento que M. Night Shyamalan recebeu com o também queridinho do Oscar O Sexto Sentido (1999). Mas com a aclamação do primeiro sucesso, vem também o peso de sucedê-lo. As expectativas de acompanhar um trabalho tão estrondoso sempre pesa no artista, mas será que aqui é este o caso?


Em Nós, que estreou ontem nos cinemas nacionais, ele aposta em um terror mais popular e convencional, sem se apoiar inteiramente em críticas e comentários sociais (mas eles ainda estão presentes). A trama começa nos anos 80. Durante uma ida ao parque de diversões na praia de Santa Cruz, a pequena Adelaide Wilson se perde dos seus pais e vai parar numa assustadora atração de espelhos onde encontra uma "cópia" sua. 

Trinta anos depois, ela (Lupita Nyong'o) retorna ao local junto com seu marido Gabe (Winston Duke) e seus filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) para um final de semana de descanso. No entanto, ela não pode evitar de pensar que algo de ruim está prestes a acontecer - e está correta. Após um dia na praia, os Wilsons são aterrorizados por quatro figuras que os espreitam na porta de casa. Quatro cópias deles mesmos. 

A noite vira um pesadelo sem fim com Peele buscando inspiração em obras como Violência Gratuita (1997) para estabelecer o horror quando as figuras, posteriormente conhecidos como Os Acorrentados ("The Tethered", no original), invadem a casa e deixam claro que seu único objetivo é matar suas contrapartes e assumir seus lugares no mundo.


Como falei, a ideia de doppelgängers no terror não é nova e aqui, Peele se aproveita de algumas convenções, não só do gênero mas do tema em si, pra criar um material completamente diferente. O resultado não chega a ser original, mas ele faz parecer que é. E isso não é usado puramente como maquiagem, mas é na verdade o toque especial do diretor, a veia criativa dele que se expressa através da sua direção minuciosa, do uso do humor com ótimo timing ou até mesmo da escolha da trilha sonora.

A experiência pode até lembrar Corra! em alguns momentos, mas é essencial que deixe suas expectativas e comparações do lado de fora da sala de cinema. Jordan deixa bem claro que a intenção dele em Nós não é a mesma que seu filme anterior. Nós acaba sendo um terror mais didático e parece tentar fugir da ambiguidade sempre que possível. Peele faz questão de que o público entenda o que está acontecendo e acaba exagerando em alguns momentos, quando por exemplo o alter-ego de Adelaide, chamada de Red, começa monólogos explicando os planos maléficos. Numa cena próxima ao final, o didatismo alcança o seu ápice em uma cena que parece ter saído de uma novela mexicana ou até mesmo do desfecho de um episódio do Scooby-Doo.

O que se torna até irônico visto que em alguns momentos desse terceiro ato, Peele soa um pouco perdido nas suas inúmeras ideias. Esse ponto do filme é talvez o mais frágil, contendo ainda uma reviravolta previsível e olha só: didática. Felizmente, esses pequenos tropeços não são coisas que chegam a comprometer a obra no geral, construída de uma forma tão excelente nos dois primeiros atos que se torna inquebrável.


Cabe à talentosíssima Lupita Nyong'o "salvar" essas cenas. A mexicana de origem queniana se transforma em cena, contracenando consigo mesmo através de duas personagens tão diferentes e com maneirismos bastante específicos. De um lado, temos a adorável mãe de família Adelaide e do outro temos a maligna Red, uma vilã que rouba a atenção toda a vez que aparece. E o trabalho de Nyong'o como a contraparte é grandioso, da linguagem corporal à voz (um detalhe sensacional, inclusive).

No final das contas, é interessante observar a maneira que o Jordan Peele basicamente consegue condensar dois filmes em um só: seja o terror crítico não-óbvio que discute temas como xenofobia e classismo através da insurgência dos duplicados, ou seja o horror escancarado de ter que batalhar contra nossos piores inimigos que nomeia a produção. Como a impressa apontou, Peele está no caminho de construir uma invejada carreira de auteur depois de dois longa-metragens tão sólidos ao ponto de não se tornar o próximo Steven Spielberg ou M. Night Shyamalan, mas sim o primeiro Jordan Peele.
Título Original: Us
Ano: 2019
Duração: 116 minutos
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Lupita Nyong'o, Winston Duke, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Elisabeth Moss, Tim Heidecker