Crítica: Possuídos (2006) - Sessão do Medo

9 de março de 2019

Crítica: Possuídos (2006)


Bug. Seja na informática, quando ocorre uma falha na lógica do sistema operacional ou programa, onde consequentemente o resultado é uma onda de comportamentos imprevisíveis que corrompem o bom funcionamento do software, ou para o nome "inseto" em inglês - justamente por ser um animal que gera incômodo - o longa proveniente de uma peça de teatro dirigida por Tracy Letts, Possuídos - vamos ignorar essa tradução nacional que não se encaixa - é uma experiência literalmente incomoda assim como sugere o seu título. 

Possuídos é um forte exemplo de quando não sabemos o objetivo real de um filme (pelo menos não no início), ou até onde a direção irá investir para firmar a premissa. O que vale é como o espectador é convidado a espreitar, para se ver tão envolvido quanto os personagens numa trama de insanidade - generalizei um pouco.

Dirigido por William Friedkin (do filme O Exorcista, e aqui, inclusive, sendo roteirista ao lado Letts) é notável como o cineasta compôs a narrativa a fim de que audiência imergisse aos poucos à sua proposta. O uso frequente do zoom da câmera, destacando a aflição e nervosismo dos personagens - em como toda vez que Agnes (Ashley Judd), ouvia o telefone tocar ou precisou atendê-lo, na triste expectativa que fosse o seu ex namorado Jerry Goss (Harry Connick Jr.), anunciando que saiu da prisão.

As elipses constante e propositalmente usadas na edição serviram para relatar a rotina de sofrimento de Agnes. Como na extensa provocação com as cenas das ligações, a insegurança e incomodidade em sair de casa e se dirigir ao mercado, quando na verdade, é estando em seu lar, alternando entre o álcool e a heroína que sente segura. 


Vale salientar como, em apenas quatro cenas pudemos sair da ambientação de dentro da casa, o que faz o espectador observar o tamanho da depressão de Agnes e o quão é dificultoso para ela arranjar outro meio de lidar com a repressão sentida. Ao mesmo tempo que, através da narrativa Friedkin capta a sensação de confinamento e claustrofobia, somos omitidos de diálogos que expressem rapidamente as implicações que a rodeiam. 

Sendo extremamente opressor o estado emocional e psicológico em que ela se encontrava, foi ao se relacionar com o ex-soldado Peter Evans (Michael Shannon) que sentiu um alivio e conforto. Recorrendo para um tom agitado e corriqueiro, o essencial no enredo foi continuar a expor a condição de aprisionamento em que ambos cada vez mais se afundavam. 

Arrebatando o público de um jeito visceral, Possuídos o convoca a vivenciarmos como a presença de insetos (reais ou não) perturba e vai moendo a paz até extrapolar os limites, de um jeito inconsequente, tirando uma pessoa do que acreditava ser o lugar seguro e adentrar num ápice de insanidade somente para encarar seus problemas.


Nisso, Friedkin propõe esse exercício reforçando o quanto a casa evoca a ideia do quanto os personagens se mantêm presos nas angústias e traumas que vivenciaram, e nada melhor do que usar insetos como os pilares que transformam a normalidade de Agnes e Peter. Além do que começou com um simples incômodo que o animal pôde causar, os insetos se tornaram uma representação das camadas que vão surgindo do casal.

Não mais um pequeno inseto quase imperceptível que apareceu na cama, e sim um intermédio para exprimir a esquizofrenia, ansiedade, luto, e a teoria de conspiração até assumir um caráter de loucura, nem que esse seja o único jeito de revelarmos todos os conflitos internos que nos consomem; ou abraçar o medo, intranquilidade e desconfiança possibilite um momento de felicidade.

Equilibrando com êxito os personagens, que tanto funcionaram com intervenções acerca do novo relacionamento de Agnes, quanto como complementos fundamentais para a trama. Se tratando de performances, a atuação fabulosa de Judd casou com excelência ao o desespero e a consumação em que sua protagonista se encontrava. Ora frágil, ora tentando se manter forte, a atriz se jogou com firmeza para expressar a explosão de incertezas de Agnes.

Possuídos é mais um exemplo do quanto menos souber, será indispensável para constituir a experiência radical de se conferir a obra. Num balanço envolvente de drama e suspense, William Friedkin propôs um olhar desafiador para a película e não te solta até você que esteja incendiado. 
Título: BUG
Ano: 2006
Duração: 102 minutos
Direção: William Friedkin
Roteiro: William Friedkin, Tracy Letts
Elenco: Ashley Judd, Michael Shannon, Lynn Collins, Harry Connick Jr., Brian F. O"Byrne