Crítica: Quando os Anjos Dormem (2018) - Sessão do Medo

31 de março de 2019

Crítica: Quando os Anjos Dormem (2018)


É fácil dizer "sou cidadão do bem, de família, íntegro e tampouco faço mal a alguém", mas até que ponto? Com direção de Gonzalo Bendala, o suspense espanhol Quando os Anjos Dormem deu as caras em 18 de dezembro de 2018, no streaming da Netflix. Caracterizado por uma narrativa inicialmente engenhosa para depois ser entediante, o longa se lançou a explorar quando somos tomados pelo caos e a reação humana quando se está além do seu controle. 

Nunca faria isso e nem nunca serei assim, até quando me desesperar. E isso se torna uma verdade para Germán (Julián Villagrán), um executivo que apenas queria chegar em casa, entregar o presente de aniversário para a filha Estela (Sira Alonso) e romper de vez com os conflitos mal resolvidos com a esposa, Sandra (Marian Álvarez), nem que para isso tivesse que ir contra a exaustão do trabalho. O vento nessa trajetória foi Gérman atropelar a jovem Gloria (Asia Ortega), o que transformou a noite em ruínas.

Aparentemente, Quando os Anjos Dormem parecia ser um filme intenso, porém a experiência se torna estranha quando você questiona o que esperar de algo tão cru, mas que entrega facilmente as cartas. O desenrolar da trama que acompanharemos se torna cada vez mais evidente, mesmo que a construção do suspense e tensão apontasse ser maior do que é.

O que começou com o drama bem encaixado foi a deixa para que o espectador simpatizasse pelo caráter generoso e personalidade fragilizada de Gérman, assim como a complicada situação para chegar em casa. Ainda que os sinais revelassem que algo estava prestes acontecer, Bendala usou de recursos habilidosos para cativar o público, ao mesmo tempo que mantinha a aura de mistério e hesitação. No entanto, não demorou muito para que a curiosa narrativa se perdesse.


Diante da situação desesperadora, foi através do protagonista que Bendala desconstruiu e confrontou a fala de pessoas boas que afirmamos ser. O assustador, a abordagem de um episódio tão próximo da nossa realidade.

Ao colocar duas figuras - Silvia e o próprio Gérman - lado a lado, o diretor tinha na manga um jogo de oposições para desenvolver, até cair num inerente desgaste. No que contemplamos nas diferentes intenções dos personagens, a afiada representação da sociedade acaba caindo num ciclo cansativo por focar em sequências de perseguições repetitivas, entrando assim numa monotonia.

Porém, indo além ociosidade, é possível o espectador sentir o enredo alcançar os traços da impunidade e revolta, ao perceber a persistência de Gérman para ser isento do crime que cometera. Nisso, o filme propõe a audiência contestar a veracidade sobre alguém que proferiu ser bom e um homem de família, apenas para não encarar que fugia o tempo todo da ideia da culpa.

Foi sem querer? Foi um descuido? Para Gérman não importava, a informação de que assumir o crime, mesmo com medo indicava que perderia tudo que tentava recompensar. De modo que usava da covardia, persuasão e brutalidade a fim de poder pisar em casa como um pai que finalmente voltou, o moço era confrontado pelo senso de justiça de Silvia em querer que ele pagasse por seu crime.


Por mais que a temática de Bendala tenha sido objetiva, algumas atitudes no caminho só fizeram destoar do tom, ao invés de oferecer um intervalo proveitoso em meio ao caso. Certo que, um outro elemento - como um teor mais investigativo, por exemplo - poderia ter conectado a trama a um nível mais eficiente de suspense, e não da repetição.

No final, o filme abraça a violência apontada, mesmo com o espectador movido a revolta torcendo por um resultado diferente, ainda que caísse numa saída fácil do roteiro. Ao optar por um desfecho amargo, o cineasta findou a película captando o misto de sensações e questionamentos que quis provocar diante do evento catastrófico.

É isso que acontece quando os anjos da guarda não nos observa? Tudo sai do controle? Deixarmos de ser nós mesmos? Perante tudo, Quando os Anjos Dormem pode causar o mesmo efeito de sono que o título sugere, nesse suspense tedioso.

Título: Cuando Los Ángeles Duermen
Ano: 2018
Duração: 91 minutos
Direção: Gonzalo Bendala
Roteiro: Gonzalo Bendala
Elenco: Julián Villagrán, Ester Espósito, Marian Álvarez, Asia Ortega, Sira Alonso