"Mal Nosso": terror nacional junta serial killer, espíritos e demônio em uma mesma história - Sessão do Medo

13 de março de 2019

"Mal Nosso": terror nacional junta serial killer, espíritos e demônio em uma mesma história

Ademir Esteves vive Arthur, protagonista de Mal Nosso
Estreia amanhã (14/03) o terror nacional Mal Nosso (2017), longa elogiado pelos festivais, dentro e fora do Brasil, por onde passou. A história é protagonizada por Arthur (Ademir Esteves), um homem misterioso que contrata os serviços de um serial killer (Ricardo Casella). Contar mais do que isso é spoiler que estraga a experiência, mas você pode assistir ao trailer clicando aqui.

O Sessão do Medo aproveitou a estreia para bater um papo com o diretor do filme. Samuel Galli tem 38 anos, está em seu primeiro longa-metragem e concedeu entrevista por e-mail abordando, entre outros pontos, o processo criativo para escrever o roteiro de Mal Nosso e as dificuldades de fazer cinema no Brasil.

Sessão do Medo: Você é formado em Direito e trabalha como advogado e dono de restaurante, atividades bem diferentes de dirigir um filme de terror. Como foi parar no cinema? 

Samuel Galli: Em 2012, estudei na NYFA [New York Film Academy, escola particular de cinema nos Estados Unidos] e fiz um curta que bombou lá - mas era restrito à escola e não coloquei em festivais. Voltei para cá e me juntei à Kauzare Filmes, que na época era uma pequena produtora de vídeos institucionais. A partir daí, fizemos o Mal Nosso e vamos continuar com conteúdos para cinema. Oficialmente, Mal Nosso é a minha primeira obra audiovisual.

Ricardo Casella se destaca na pele do serial killer que trabalha como assassino de aluguel
SM: Seu interesse pelo terror vem da infância e adolescência ou é algo mais recente?

Galli: Desde a infância. Tenho uma irmã mais velha que me levava ao cinema. Entrávamos na sala que estava passando um filme com censura livre, dávamos um “migué" e corríamos para a sala que estava passando algum terror.

SM: Mal Nosso coloca, em uma mesma trama, um serial killer que trabalha como assassino de aluguel, espíritos e demônios - ou seja, uma combinação que raramente vemos em filmes de terror, ainda mais dentro do cinema nacional. De onde surgiu a inspiração para uma história tão diferente?

Galli: Todo filme comercial tem uma fórmula, uma receita narrativa e estrutural. Com o pouco orçamento que tínhamos em mãos para competir com filmes maiores e entrar nos festivais que entramos, era preciso desconstruir essas fórmulas. Claro que era um risco muito grande, mas deu certo. Escrevi o roteiro de uma forma não-convencional: fui escrevendo cenas e mais cenas que me agradavam e que eram possíveis de filmar. Depois, pensei na estrutura do filme, amarrei e complementei com mais cenas. Isso me permitiu transitar por diversos mundos.

Mal Nosso é o longa-metragem de estreia do diretor e roteirista Samuel Galli (foto)


SM: Em uma das críticas publicadas por sites estrangeiros, foi dito que o filme é uma fusão da "New French Extremity com a espiritualidade sul-americana", uma referência à onda de longas franceses marcados pela violência física extrema. Houve de fato alguma inspiração ou influência de filmes como Alta Tensão (2003), Irreversível (2002) e Mártires (2008)?

Galli: Eu amo esses três filmes. Não é uma influência direta, mas de uma forma inconsciente influenciou o Mal Nosso, sim.

SM: Quem faz cinema no Brasil tem de driblar uma série de barreiras que vão da procura por financiamento até a distribuição. Qual foi o maior obstáculo que você precisou superar para fazer esse longa-metragem?

Galli: Fizemos o filme sem financiamento público, não porque sou contra, pelo contrário. Sou 110% a favor, mas como era nosso primeiro trabalho, ia ser muito difícil pleitear qualquer investimento que não fosse o do nosso bolso.
Além do obstáculo financeiro, o maior desafio foi entrar nos festivais que passamos. Foi o primeiro filme de terror na história do Festival de Moscou, depois Frightfest, Sitges etc. E a barreira da língua portuguesa: o terror transita muito bem em todos os territórios, mas o filme não sendo em inglês ou em espanhol complica bastante. Mesmo assim, conseguimos uma distribuição nos EUA. Estreia lá 14 de maio.

Mal Nosso ganhou uma edição de DVD e Blu-ray especial de colecionador na Alemanha
SM: O cineasta Rodrigo Aragão - que, inclusive, trabalhou como maquiador no filme - uma vez disse que as produções dele são melhor recebidas no exterior do que no Brasil. Considerando que Mal Nosso passou por festivais nacionais e internacionais e já ganhou uma edição especial de colecionador na Alemanha, você sentiu algo parecido? É possível dizer que o público brasileiro ainda tem um pouco de preconceito com o cinema produzido aqui?

Galli: O Rodrigo tem total razão. O fato é que existe uma lacuna no cinema brasileiro. Os filmes comerciais são de comédia - e o espectador de comédia vai ao cinema para curtir o texto. Ele quer ver o que vê na TV e não está preocupado com fotografia, desenho de som etc. O espectador de outros gêneros é mais exigente, pois consome os produtos gringos que possuem um refinamento em todos os aspectos técnicos. Então, para que esse público respeite o filme de gênero nacional, o longa tem que ter um selo de qualidade dado pelos festivais aqui e de lá fora.

SM: É possível adiantar algo dos seus próximos projetos? Podemos esperar mais um longa de terror?

Galli: Sim, em outubro começamos a produção de um terror novo com a Paris Entretenimento. Vai ser muito foda!

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