Crítica: Maligno (2019) - Sessão do Medo

24 de abril de 2019

Crítica: Maligno (2019)



O quanto uma história pode ser comprometida pelo imediatismo em querer estabelecer tudo de uma vez? Ou a previsibilidade pode arrancar da experiência em assistir e da essência do universo que tange uma obra? E por fim, o quão frustrante pode ser quando o filme revela ser exatamente o que você pensou? Maligno carrega todos esses aspectos que acabam sufocando o fraco roteiro, uma direção estimável, com a ruindade de não se afastar de um seguimento batido.

Falar da repetição do tema seria tão repetitivo quanto o tal, então vamos pular essa parte. Parece ser uma hereditariedade querer que a criança seja obediente, gentil, e dê o menor trabalho possível, mas quando de frente a questões como birras, insubordinação ou agressividade a paternidade é colocada à prova a saber se realmente lidará bem com essas implicações. Nisso, entramos no contexto de que Sarah Blume (Taylor Schilling) se vê desesperada para descobrir o que desencadeou o comportamento anormal do seu filho Miles Blume (Jackson Robert Scott, do remake de It - A Coisa), e desconfiar que algo maligno tomou conta dele e influencia em suas ações.

Precocemente, o filme já inicia denunciando o que irá ser apurado como a maior preocupação da história: a causa da criança que estampa a capa desse texto ser do mal. A partir daí, a sensação de desânimo é inevitável, e só aumenta depois que se dirige com uma edição didática, preguiçosa e isenta de inspiração. Rapidamente o pequeno Miles é destacado como menino de traços poucos usuais, mas que mais tarde se mostra um prodígio e excelente filho para seus pais.

Porém, a pressa e a agonia é tanta que abruptamente o longa mostra que é parecido com os outros. Sem nenhum desenvolvimento atraente, o telespectador é arrastado para os clichês das atitudes perversas e questionáveis da criança, enquanto a mãe quer acreditar na inocência. E para quem estava atento, no meio desse jogo de partidas lastimáveis e jogadas previstas dos competidores, em menos de trinta minutos do primeiro tempo estava claro o que estava acontecendo.

Taylor Schilling como Sarah.
A obviedade fica mais escancarada quando as camadas, a ambiguidade levantada na personalidade de Miles, o conflito do bem e do mal, do certo e errado, da prudência e impulsividade é indicada através das diferentes cores dos olhos, a maquiagem obscura que os materiais de divulgação evidenciaram, gostos peculiares, fixação por mãos e gestos estranhos para uma criança. 

Indo para o segundo ato, Maligno não largava a impressão de que parecia um resumo do que tanto vimos em filmes do tipo, ao mesmo tempo que a objetividade marcava sua estrutura. É como se ao colocar as mesmas representações de personagens que entram e saem com meras informações, servissem simplesmente para cumprir tais papéis de recorrência, e só por isso, significassem muito.

Ainda sobre os personagens, o filme falha ao sinalizar para urgência do perigo para os pais, e de como estão sendo afetados pela natureza hostil do filho, mas detalhe, não houve construção alguma dessas figuras paternas, além de menções e objetos convenientemente relevados conforme o jogo pedia. 

Para acrescentar, quando parecia que finalmente algo diversificado estava acontecendo e que, de alguma maneira a condução estava sobressaindo, a audiência se dá conta que mais uma vez as atividades expostas são consequências do que o ciclo calculado quis proporcionar. Com isso, injetando mais um pouco da dose de incredulidade para agilidade do longa.


Apesar do show de mesmices, ao menos dá para contar com a direção interessante de Nicholas McCarthy, que capta muito bem o cenário escuro, concebendo uma visão vantajosa sobre a dualidade presenciada pelos personagens, assim como o "mistério" que estão envoltos, durante o tempo em que estão à disposição da incompreensão, do medo e sentimento de inutilidade para lidar com a terrível situação.

Assim também, é louvável as atuações, principalmente do jovem Jackson Robert que consegue transmitir a imagem de uma pessoa que manipula e é manipulado, à medida que sofre por ter noção de sua condição, e não saber o que fazer para vencer. É um misto de ingenuidade e culpa que somam com a fala amortecida ou um sorriso cínico de alguém que está divido.

Depois das idas e vindas inconstantes, foram nos últimos vinte minutos que o filme decidiu mostrar a que veio, com um desfecho que se relevou ao não fazer o esperado, e marcou ponto ao deixar claro o quanto a paternidade suporta para ver bem a quem ama, e especialmente, o tanto que a maternidade sofre para não aceitar que a pessoa mais estimada de sua vida se perca. Até onde a razão pode justificar os meios que arranjamos para superar nossas perdas?

Nesse momento, foi possível traçar um nível brilhante para o filme, onde o suspense e a apreensão se fizeram presentes, descarregando emoções, e inserindo a dúvida constante que o fechamento brutal que parecia não surgir, se notaria chocante para dar um gosto amargo... Mas no último segundo, lá vai o diretor abraçar o óbvio, se desviando do choque que por um pouco impôs só na ideia de que poderia acontecer.

Maligno não vai tão longe. É eficiente nos sustos fáceis, na atmosfera da atribulação, mas é frouxo na estrutura formulada e na maneira de contar sua história. Precisava ser tão óbvio assim? Seja como for, o filme está pronto para lista de promissores e desperdiçados do ano. 


Título: The Prodigy
Ano: 2019
Duração: 92 minutos
Direção: Nicholas McCarthy
Roteiro: Jeff Buhler
Elenco: Jackson Robert Scott, Taylor Schilling, Peter Mooney, Colm Feore, Paul Fauteux