Crítica: O Clube dos Canibais (2019) - Sessão do Medo

5 de abril de 2019

Crítica: O Clube dos Canibais (2019)


No início de O Clube dos Canibais, vemos o casal Otávio (Tavinho Teixeira) e Gilda (Ana Luiza Rios), recifenses podres de ricos, atrair o caseiro para a morte. Enquanto ele transa com ela, Otávio (que alegou ter viajado) se dá prazer com a imagem e em seguida enfia um machado nele. Depois, os dois cortam o rapaz em pedaços e conservam a carne para comer nos dias seguintes. Com uma abertura bastante gráfica, esse provavelmente será o mais próximo contato que vocês terão com o canibalismo, pelo menos literal, no novo filme de Guto Parente, um nome já conhecido entre o cinema independente brasileiro, tendo dirigido obras como A Misteriosa Morte de Pérola (2014) e O Estranho Caso de Ezequiel (2016).

Em sua nova empreitada, Parente resolve sair de sua zona de conforto - que já não era lá muito "confortável" - para apostar num filme menos experimental e mais focado para o mercado internacional. Os indícios para isso vão desde ao título em inglês, não apenas nos cartazes mas no próprio longa-metragem, mas pela estilosa produção, que definitivamente não se parece com nada que costumamos ver no panorama nacional.

O que falei no primeiro parágrafo serviu apenas para quebrar um pouco a expectativa que vocês devem ter criado pelo nome ou imagens (o trailer causou certo burburinho em seu lançamento), mas acontece que O Clube dos Canibais vai um pouco mais além do que apenas um Albergue brasileiro. É uma história que utiliza a antropofagia como uma alegoria do que mais um recurso violento e gráfico.

Após as cenas iniciais, somos introduzidos à verdadeira intenção do filme. Otávio e sua esposa fazem parte de uma reclusa elite brasileira formada apenas por políticos (e algumas pessoas com condições) que se reúnem ocasionalmente para um jantar onde podem se entreter com atos carnais e um pouco de carne humana depois. No entanto, tudo muda no momento em que Gilda acidentalmente vê Borges (Pedro Domingues), um parlamentar e líder do clube, transando com um empregado durante uma festa. A intromissão da moça acaba colocando em risco a vida dela e do seu marido, que desconfia que logo será "retirado" do clube.


Parente mescla a violência gráfica (não tão presente quanto se imagina em um filme com um título desses) com a ironia para criar uma história bastante crítica, ainda que com uma minutagem relativamente curta para que pudesse aproveitar todos os seus âmbitos. A ideia de que um grupo de engravatados poderosos se alimenta da carne dos menos favorecidos é tão assustadora quanto a de um grupo de canibais - imagina os dois juntos!

O grande problema de O Clube dos Canibais não chega a ser as atuações - bastante criticadas mas que ao meu ver não comprometem muito -, mas sim como o roteiro não explora todo o seu potencial. Alguns dos momentos mais marcantes não chegam a ser as mortes, aliás muito bem realizadas pelo Rodrigo Aragão (Mangue Negro), mas sim quando a hipocrisia é escancarada nas nossas caras. O discurso acaba se tornando ainda mais relevante se pegarmos o nosso cenário político atual...

No terceiro ato, o filme se torna uma espécie de home invasion mas me incomodou a falta de preparação e paranoia, despertada tarde demais e de forma ineficaz. Como os personagens são completamente odiosos, não há pra quem torcer (talvez pro novo caseiro), mas um fato é que se o roteiro fosse um pouco mais bem rebuscado, sabendo mesclar todas as suas intenções, faria desse um ótimo novo exemplar do cinema de horror brasileiro.

Mas, ainda que um pouco irregular, O Clube dos Canibais acaba sendo um projeto interessante de se conferir, não só por sua premissa criativa - e como já mencionei, relevante - mas pela sua qualidade técnica. Algumas cenas são tão caprichadas, da fotografia à trilha sonora à direção de arte, que pode quebrar um pouco o estigma de que filmes brasileiros são tecnicamente inferiores. Mesmo que tenhamos alguns exemplos ainda mais completos, como O Animal Cordial (2018), que também tem um discurso político semelhante.

Título Original: The Cannibal Club
Ano: 2019
Duração: 80 minutos
Direção: Guto Parente
Roteiro: Guto Parente
Elenco: Tavinho Teixeira, Ana Luiza Rios, Pedro Domingues, Zé Maria