Crítica: Possuída (2000) - Sessão do Medo

21 de abril de 2019

Crítica: Possuída (2000)


A década de 2000 para o terror foi uma década bem interessante, pode-se dizer. Depois de uma crise no início da dezena anterior, suprida pelo surgimento dos teen slashers pós-Pânico (1996), o gênero se encontrou num impasse visto que em cerca de cinco anos já haviam surrado a fórmula das mais diversas maneiras possíveis. Nos anos seguintes, aconteceu que o terror parecia estar querendo se encontrar e as melhores apostas acabaram vindo de fora de Hollywood. Não é a toa que o cinema estrangeiro - principalmente nesse nicho - se destacou tanto nestes anos.

Apesar de não muito distante, foi do Canadá que veio Ginger Snaps, lançado por aqui sob o péssimo título de Possuída. Além de ser cronologicamente um dos primeiros da década, ele também foi um dos primeiros que tentaram sair um pouco da caixinha dos assassinos mascarados naquela época mas sem tirar o foco do público adolescente, que era o que tava em alta na época.

Esse highlight natural do filme se dá à parceria de John Fawcett (diretor) e Karen Walton no roteiro. Walton relutou ao ser convidada para escrever o filme por não ser fã de filmes de terror pelas abordagens misóginas da grande maioria, mas Fawcett, um grande fã do gênero, insistiu ao dizer que queria "quebrar algumas regras" e por isso ela seria perfeita para o trabalho. A intenção de Fawcett era fazer um filme de transformação à-lá David Cronenberg com duas jovens nos papéis principais.

As duas jovens são as irmãs Brigitte (Emily Perkins, It - Uma Obra Prima do Medo) e Ginger (Katharine Isabelle, Freddy vs. Jason), adolescentes entediadas com suas vidas pacatas e que nutrem uma certa obsessão pela morte. Tudo muda quando certa noite, Ginger é atacada por uma criatura, após ter sua primeira menstruação. Nos dias seguintes, ela começa a sofrer mudanças não apenas no comportamento como no corpo. Pelos, garras e até mesmo uma cauda se tornam comuns nessa história.


E poderia ser apenas mais um filme de lobisomens se não fosse pela genialidade que o roteiro utiliza a mitologia das criaturas para criar uma analogia à puberdade feminina. Algumas tiradas são tão simples mas tão inteligentes - como a "Bee" acompanhando o calendário do absorvente para esperar a noite de lua cheia - que é impossível não sentir que Ginger Snaps é algo diferente de tudo que já foi feito até então.

Claro que tudo cairia por terra se as duas atrizes principais não funcionassem tão bem juntas e, mais importante, se a relação das duas personagens não fosse tão bem construída. São duas irmãs que encontram uma na outra refúgio de um mundo que elas não se identificam e esse evento aparece para testar a fidelidade delas. Fawcett disse que encontrou inspiração em Almas Gêmeas (1992), filme de Peter Jackson, para realizar uma história com essas duas figuras femininas tão ligadas.

Mas bem além desse lado mais conceitual, Ginger Snaps também é um prato cheio para os fãs de horror, com boas doses de gore e efeitos práticos que mesmo que não sejam mais tão convincentes hoje em dia, podem alegrar aqueles que adoram esse tipo de cuidado (visto que foi uma insistência do diretor fazer as criaturas sem computação gráfica).

E sabem o que é melhor? Ao assistir a essa pequena joia do cinema independente canadense sob a ótica de quase duas décadas depois, é incrível ver como ela se mantém tão atual e se torna inevitável reconhecer sua importância, ainda que mesmo assim seja tão subestimada e esquecida pela maioria dos fãs do gênero.
Título Original: Ginger Snaps
Ano: 2000
Duração: 108 minutos
Direção: John Fawcett
Roteiro: Karen Walton, John Fawcett
Elenco: Emily Perkins, Katharine Isabelle, Kris Lemche, Mimi Rogers, Jesse Moss