Crítica: The Wind (2019) - Sessão do Medo

9 de abril de 2019

Crítica: The Wind (2019)


Nada melhor que um dia após o outro, não para a aflição do desamparo. Responsável por fazer barulho e arrancar elogios em amostras independentes de cinema no ano passado, The Wind é um filme que busca por identidade para contar uma história simples, mas durante tal busca, acaba se desgastando com a  monotonia da indiferença.

Contém spoilers

Comandado por mulheres, o terror psicológico rico numa belíssima fotografia com paisagens e um filtro frio azulado, trouxe o casal Lizzy (Caitlin Gerard) e Isaac (Ashley Zukerman), que isolados da civilização usufruem da região do Velho Oeste dos Estados Unidos. Após a mudança de um novo casal próximo a casa isolada, coisas estranhas começam a acontecer reforçando os avisos sobre a presença de um demônio na área ser real - pelo menos é nesse contexto que somos tentados a considerar no filme.

Composto de um longo silêncio, melancolia e a certeza de que algo trágico aconteceu, é que The Wind se apresenta. E permanece nesse tom ao dar continuidade com poucos diálogos, um instrumental arrasador, a medida que o perigo e o estrangeirismo tomam conta e começam a atormentar Lizzy.  Nesse período, a direção do longa se torna um ponto a destacar conforme o telespectador é arrastado para a obscuridade que os personagens estão envoltos.

Acertando em cheio, não demora muito para que a decisão em não relevar facilmente os eventos anteriores a intensa abertura desperte a curiosidade e a apreensão. Sendo assim, esse é um feito que funciona ao colocar o público a acompanhar o entendimento para essa incógnita, junto a protagonista.

Caitlin Gerard como Lizzy.

Alternando entre dois tempos da narrativa, o primeiro temos Lizzy no presente, e o segundo, as viagens através de flashbacks, sendo eles as peças fundamentais que montarão todo o sentido da história. Para cada devaneio, a audiência é colocada a revisitar as memórias dolorosas da moça, para então chegar no momento onde tudo começou.

De modo tenso, Emma Tammi pegou o tema sobre a depressão pós-parto, traçando sua visão em meio a realidade do século XIX e complementando com o subgênero do terror no Velho Oeste. Diante das informações que surgem, compreendemos que Lizzy perdera seu filho após o parto, e nem mesmo tendo tempo para se curar, se viu voltar ao "normal": ser uma dona de casa, enquanto o marido cumpria o papel de ir em busca dos suprimentos.

Enquanto no presente a paranoia vai tomando proporções mais extremas, no flashs tomávamos a ciência do passado conturbado que marcara a personagem. Diferente do esperado, Lizzy não encontrou a amizade de amparo com a nova vizinha, e a presença dos recém-chegados só serviu para potencializar a depressão reprimida, substituindo assim o sentimento de afinidade para desconfiança e ódio.

Longe de ter o suporte devido para traumática situação que passou, o que restou para Lizzy foi se agarrar a solidão, ao passo que via a tão sonhada vida de paz com um filho ser despedaçada, ao decorrer que mais angústias, decepções e amargura se acumulavam. O resultado, a culminação do terrível evento inicial do filme.


O que Lizzy passou foi o turbilhão de sentimentos oprimidos, e para tal vento que era capaz de jogá-la no teto ou apagar a vela que iluminava sua casa, trazia consigo o desprazer do isolamento, da desanimação a insegurança, da incerteza o inevitável de ter que reviver em sua mente a inquietude, o medo, a culpa, a raiva, luto e revelar o conflito interno inacabado de sua trajetória. E  acima de todas essas emoções, a ameaça do mal à espreita.

Por mais que a narrativa tenha sido a ferramenta fundamental que não deixou a história ser contada de um jeito comum, acabou influenciando para o seu desmérito visto que, sem muito precisar mostrar o contexto que tanto quis ser mantido em segredo, já estava notório. Deixando assim, a duplicidade da linha de tempo soar como um esforço para esconder o óbvio e que não era tão perspicaz.

Com uma execução contida, The Wind fez um ótimo exercício ao usar do terror psicológico para incrementar sua história. Da aparição do mal, a representação dos nossos pensamentos mais desconhecidos. Na dor do assolamento, as loucuras que o desamparo pode levar.
Título: The Wind
Ano: 2019
Duração: 87 minutos 
Direção: Emma Tammi
Roteiro: Teresa Sutherland
Elenco: Caitlin Gerard, Miles Anderson, Jullia Godanni Telles, Dylan McTee, Ashley Zukerman