Crítica: Into the Dark 1x02 - "Carne e Unha" - Sessão do Medo

26 de abril de 2019

Crítica: Into the Dark 1x02 - "Carne e Unha"


Para todos os efeitos, diga-se de passagem, não há sensação melhor do que se surpreender além do que estava esperando. O segundo episódio da série antológica do Hulu passa exatamente esse sentimento ao entregar uma história completamente diferente no que diz respeito a abordagem, estilo e temática para a possível proposta de terror que o público quer ver. Talvez, isso explique os comentários negativos que o show vem recebendo, mas como não é nenhuma novidade, o horror combinado com várias linguagens, é muito bem-vindo para firmar uma trama.

Lançado em dois de novembro do ano passado, Carne e Unha segue uma narrativa mirando até a preciosa Ação de Graças. Sem demora, a trama se coloca a nos deixar a  par da condição dramática que os protagonistas se encontram: o trauma pelo assassinato brutal de Rose Tooms (Meredith Salenger, de Pânico no Lago), o que deixa a filha adolescente Kimberly (Diana Silvers) sofrendo de agorafobia (o medo de frequentar lugares que possam causar perigo), o que a leva a não querer sair de casa, restando então os cuidados do pai Henry (Delmort Mulroney).

Como mencionado, o grande tom dramático que se desenrola para o suspense pode afastar para quem queria ver mais terror, mas isso não anula a importante discussão que o episódio conseguiu explorar sustentando o enredo com poucos personagens e o transtorno da agorafobia. 

Muito bem utilizado, Carne e Unha é mais um daqueles casos que induz a audiência a acreditar exatamente no quer, ao mesmo tempo que lança dúvidas para testar nossa descrença de que o telefilme seria simplório: estaria o transtorno de Kimberly influenciando em sua sanidade causando paranoias, ou realmente estamos acompanhando o velho tema de "dormindo com o inimigo"?


Enquanto somos tentados, utilizando da agorafobia o episódio desenvolve um contexto social que precisa ser mais debatido: o medo da violência e a violência contra a mulher. Vejamos. Desde o começo, o que nos é informado é que o estado psicológico afetado da jovem foi desencadeado depois de saber que sua mãe foi morta por um homem ainda não identificado e que o corpo foi encontrado no terreno baldio. Uma terrível descrição que se assemelha a nossa realidade.

O que torna totalmente crível que o pavor de Kimberly provém do medo devido a falta de segurança e a impunidade que se mantém mesmo depois de um ano de crime. Seria uma paranoia a moça ver no noticiário o padrão de desaparecimentos de jovens garotas, e nisso encontrar coincidências a ponto de acreditar que não está segura nem mesmo com o próprio pai?

Mesmo caindo em alguns pontos didáticos, ou em outro lado, péssimas escolhas que entregam situações pelo excesso de sugestões da câmera, ou diálogos que revelam apressadamente o que está sendo desenvolvido, Carne e Unha continua marcando pontos por não deixar a peteca cair: depois que aponta para o perigo, instiga o suspense, intensifica a tensão ao mesmo tempo que remete as estratégias para manobrar o nervosismo, como o gênero bem investe.


Positivamente, a agorafobia segue traçando o caminho para mostrar suas ressalvas sociais para uma questão que ainda precisa ser tratada. Como se não bastasse os constrangimentos e os impetuosos abusos sofridos pelas mulheres, ainda recebem da sociedade, como resposta, a culpa e a acusação quando vítimas do patriarcado, da violência doméstica, do machismo, da opressão e muitas outras problemáticas que agem com desmerecimento a figura feminina, que ainda é vista como objeto.

Antes mesmo de perceber, Kimberly teve sua liberdade tirada e substituída pelo discurso que não precisa de amigas para corromper sua pureza, e sim que deveria ser perfeita. Da agorafobia a voz da opressão por tentar ser ela mesma, a atribuição de louca, paranoica e obsessiva toda vez que tem razão sobre algo, do ímpeto impulsivo e doentio com a desculpa de que não deve contrariar o homem.

Dentre muitos outros aspectos que ferem o direito e integridade da mulher fora e dentro de casa, Into the Dark fez de Carne e Unha um capítulo louvável para denunciar a cultura prepotente que deprecia o valor da igualdade. 

Título: Into the Dark - Flesh & Blood
Ano: 2018
Duração: 92 minutos
Direção: Patrick Lussier
Roteiro: Louis Ackerman
Elenco: Diana Silvers, Dermoty Mulroney, Tembi Locke, Lavetta Cannon, Heidi Sulzman