Crítica: A Casa do Medo (2018) - Sessão do Medo

9 de maio de 2019

Crítica: A Casa do Medo (2018)


O horror está tão ruim assim que é raro encontrarmos produções que valham a pena? E quando tem, são poucas? Isto talvez seja uma verdade para muitos, mas há algo de generoso quando o filme é descompromissado e se sobressai por entregar uma ideia diferente. Pena que no caso aqui, não é bem assim.

A Casa do Medo (2018) - da caixa horrível de títulos ruins, repetidos e sem sentido - é um exemplo de filme que chega sem fazer muito barulho e, apesar de ter sido lançado diretamente no DVD, ao menos chamou atenção pelo elenco e pela premissa interessante que se propôs a contar. Mas é aquela coisa: aproveita pouco da proposta e se limita em ficar no clichê.

Dois amigos manobristas e pilantras, Sean Falco (Robert Sheehan) e Derek Sandoval (Carlito Olivero), seguem a vida numa empresa de fachada estacionando carros ao mesmo tempo em que se aproveitam dos pertences dos clientes. Ao invadir a casa de um usuário, a dupla se depara com uma mulher acorrentada, brutalmente violentada e amordaçada numa cadeira. Abandonar o recinto ou salvar a vida de uma pessoa e ser alvo de um psicopata?

Não há como negar que, de alguma maneira, a investida sabe prender a atenção a partir da interação dos personagens. Um dos melhores aspectos aqui é a inspiração genial para impulsionar o suspense nessa obra, que pode muito bem chocar os que assistem ao cair de paraquedas. Não bastando isso, é uma tarefa nervosa imaginar como será aplicada a lógica evidenciada no título original Bad Samaritan (Mau Samaritano, em tradução literal ao português).



Certo que não dá para mensurar, mas com certeza a história bíblica do bom samaritano, num grupo com dez pessoas, pelo menos deve ter sido ouvida por boa parte dele. Resumindo em poucas palavras a parábola citada no livro de Lucas, Jesus deixou uma clara lição a ser seguida: fazei o bem, não importa a quem. Frase de efeito, mas um fato importante considerando que o nosso próximo pode ser qualquer pessoa.

Já que o título anuncia o inverso da bondade, como aconteceria a inversão de papéis? O primeiro ato de A Casa do Medo é o que surge como o argumento mais firme de sua narrativa e que também funciona como um prato cheio para os fãs de suspense. A construção de tensão para o cenário perverso que o protagonista encontra é desesperador, mas antes mesmo de ir mais a fundo nesse aspecto, a direção muda o rumo para um terreno mais familiar.

A escolha de David Tennant para dar vida ao violento Cale não foi em vão, ainda mais por ter interpretado um vilão do Universo Cinematográfico da Marvel, o que deixa a assimilação inevitável. Para piorar, estamos diante de um enredo que não se preocupou em explorar mais das motivações e passado do carrasco, apenas se apoiou na figura de David para transparecer um perfil de alguém inclinado em causar danos.


Derrapando aos poucos no que tinha começado com o pé direito, a trama do mau samaritano comete a falha de não explorar mais da ideia inicial, e sim, repetir uma série de exercícios que filmes do gênero já cansaram de praticar: percebe-se que o diretor estava reproduzindo uma fórmula. 

Como consequência, o ritmo cai do frenético e intenso para um dose de fadiga ao ficar claro que não se tratava mais de um empolgante relato de gato caçando rato, mas de uma trama de perseguição escorada na mesma tecla de outras obras por aí.

No máximo, dá para ser aceitável a encenação entre David e Robert, pois o longa peca feio ao resumir os demais personagens em resoluções esperadas, e ainda mais por inserir subtextos mastigados em favor de um ápice anticlimático e humor deslocado.

Ignorando a tradução com todas as forças, A Casa do Medo pode empolgar no primeiro momento, mas que te solta dessa sensação para se agarrar a obviedade que qualquer thriller provavelmente teria.
 
Título: Bad Samaritan
Ano: 2018
Duração: 110 minutos
Direção: Dean Devlin
Roteiro: Brandon Boyce
Elenco: Robert Sheehan, David Tennant, Carlito Olivero, Kerry Condon, Jacqueline Byers