Crítica: Cemitério Maldito (2019) - Sessão do Medo

9 de maio de 2019

Crítica: Cemitério Maldito (2019)


Talvez a última vez que o Stephen King esteve numa maré de adaptações tão boas foi na década de 80. Mesmo que o mestre nunca tenha perdido sua relevância (pode-se ver, não há pausas em adaptações de suas obras), foi nos últimos anos que os estúdios começaram a notar novamente grandeza em seus textos, pensamento catapultado pelo sucesso estrondoso de It - A Coisa (2017). Depois de lá, era questão de tempo que eles começassem a priorizar outras adaptações.

Uma delas seria a refilmagem de Cemitério Maldito, que vinha sendo comentada há anos mas parecia estar presa no infame development hell. Sob a direção da dupla Dennis Widmyer e Kevin Kolsch, que surgiu na cena com o ótimo Starry Eyes (2014), a história de King ganha vida novamente mas como diz o próprio Jud: às vezes, estar morto é melhor. 

Note-se que o livro, lançado como O Cemitério aqui, já foi adaptado para os cinemas em 1989, pela diretora Mary Lambert, numa versão que se tornou um clássico do gênero e que, convenhamos, não envelheceu mal para que uma refilmagem fosse justificada. Mas já sabemos que não costumam levar isso em conta na hora de aprovar um projeto desses.


Acontece que os diretores tinham conhecimento disso e portanto tentam mudar um pouco o jogo. Como devem saber, o enredo segue o médico Louis Creed (Jason Clarke, A Maldição da Casa Winchester) e sua família, que resolvem sair da apertada rotina de cidade grande para a pequena Ludlow. O terreno não só os apresenta ao carismático vizinho Jud (John Lithgow) mas também a uma espécie de cemitério de animais, descoberto pela filha mais velha Ellie (Jeté Laurence) em um de seus devaneios.

Quando o gato da família, o Church, é atropelado, Jud resolve revelar a existência de um outro tipo de cemitério que fica fora dos limites da propriedade. Com solo indígena, o terreno consegue trazer de volta coisas que já passaram dessa pra melhor. Se já conhecem a história, é nesse ponto que os dois cenários - a família e o cemitério - colidem de maneira chocante.

No material original, o filho caçula de apenas 2 anos, Gage (interpretado aqui pelos gêmeos Hugo e Lucas Lavoie), acaba morrendo tragicamente após ser atropelado por um caminhão na estrada de frente à nova casa. Isso serve de estopim para uma cadeia de eventos que trará destruição à família, principalmente a Louis, corrompido pelo luto.


No entanto, quem acaba cumprindo esse papel é a própria Ellie. Só que a reviravolta, que seria de fato chocante e inesperada para quem fosse conferir nos cinemas, foi sabotada pela estúpida escolha do marketing de revelá-la no segundo trailer. E não é como se pudéssemos evitar, visto que fui obrigado a assisti-lo durante a sessão de Nós (2019). O que traria o grande diferencial a esse remake, separando-o da versão de 88 sem perder a essência do livro seria esse momento fundamental. Então, não posso nem mensurar a burrada do estúdio em permitir que isso acontecesse.

Essa mudança (que é de fato interessante) acaba ocasionando outras alterações no terceiro ato do filme. Considerando que Ellie é uma personagem mais articulada do que um garoto de dois anos seria e já que a todo momento nos dois primeiros atos vemos seus pais debatendo sobre como apresentar o tema da "morte" para ela, seu retorno se torna mais intrigante. A interação que ela tem post-mortem com os pais, como na cena da banheira e em outra mais adiante com a mãe, ajuda no elemento bizarro da história.

Porém, senti que o roteiro se apressou após a cena do acidente, não dando tempo para explorar o sentimento de luto dos personagens e, por consequência, justificando suas ações a seguir. Neste terceiro ato, as coisas acontecem de uma maneira um pouco diferente, mas culminam num sentimento semelhante ao do livro/filme original. No entanto, não tem o mesmo impacto e força que o final original.


Do lado positivo, temos a ambientação sinistra e a adaptação de Zelda, a irmã mais velha de Rachel (Amy Seimetz, Alien: Covenant), que sofria de uma condição rara e assombrou a infância da personagem. No filme original ela aparece rapidamente, mas aqui ela ganha mais destaque visto que a força do cemitério a usa para aterrorizar a mamãe Creed. 

O que me faz lembrar que notei também a ausência de algumas cenas que fizeram parte do material de divulgação, como certas tomadas que pareciam dar mais relevância às crianças mascaradas (algo novo e acaba não servindo pra nada além de efeito visual) e usar mais ainda a Zelda (há uma cena no trailer dela se arrastando pelo chão em direção à Rachel), mas nesse caso achei que a presença da personagem esteve sob medida certa na versão final.

Para finalizar, posso afirmar que o maior erro do novo Cemitério Maldito foi ter uma campanha de marketing que apostou na auto-sabotagem, entregando o ás na manga na hora errada. Após isso, o filme perde o brilho que lhe restava e acaba condenado à prateleira de refilmagens que ninguém pediu e ninguém vai lembrar.

Título Original: Pet Sematary
Ano: 2019
Duração: 101 minutos
Direção: Dennis Widmyer, Kevin Kolsch
Roteiro: Jeff Buhler
Elenco: Jason Clarke, Amy Seimetz, John Lithgow, Jeté Laurence